Primeiro encontro

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“Todos os primeiros encontros são decepcionantes, todos!” Foi isso que ouvi uma amiga cuspir na minha orelha com toda fúria enquanto víamos uma exposição.

– Se você está numa vibe romântica – continuou ela, irritada –, o cara fica cortando sua onda. Se você quer transar com ele, ele fica apavorado para que você não se apaixone. Se você fica nervosa porque vai encontrá-lo, ele diz que isso é fruto de uma alta expectativa. Se você diz que não faz questão de jantar com vinho e velas, ele diz que você não está dando a atenção que ele merece. Não dá pra vencer esse jogo!

Enquanto ouvia os detalhes da sua mais recente aposta afetiva, fiquei pensando… Talvez o grande problema dos primeiros encontros esteja antes de sair de casa, nas conversas que foram travadas entre vocês, esteja na linha com que a mulher costurou esse encontro dentro da sua mente.

Mulheres (e homens) saem para um primeiro encontro pensando no que o outro pode lhes dar, nas suas necessidades, nos seus desejos, nas suas carências e frustrações. Desse modo elas exigem que o gajo em questão supra suas carências (de preferência todas) e sane suas frustrações (de preferência todas). E de preferência na primeira noite. Sei que, colocado desse modo, parece um desastre anunciado. E é! Não há possibilidade de que qualquer prazer, especialmente qualquer prazer duradouro, ecloda daí.

Um bom primeiro encontro deveria ser uma coroação do amor, mas eu não me refiro a esse amor romântico cheio de taxas sob a forma de elogios, promessas e lugares-comuns.

Uma mulher que sai para um primeiro encontro poderia ter não a preocupação do que aquele homem pode dar a ela, mas ao contrário, do que ela pode dar àquele homem. E, obviamente eu não me refiro a sexo, embora ele possa ocorrer.

Por que não ter como objetivo transformar algumas horas do dia desse homem numa experiência prazerosa? Por que não pensar que talvez haja um náufrago do outro lado da mesa e que esse náufrago queira apenas que alguém entenda isso? Talvez haja um sedento de inteligência, de gratuidade, de bobagens, de compreensão, de silêncio. Talvez haja um homem tão cansado de cumprir papéis quanto você e você vai sair para cobrar dele justamente mais um espetáculo nesse mesmo cansativo papel?

Em vez de querer amor, por que não sair para dar amor? Amizade é amor. Atenção é amor. Ficar em silêncio é amor. Dar as mãos sem a necessidade de nada mais é amor. Emprestar um livro ou um CD especial é amor. Se preocupar com o outro mais do que com você é amor.

Essa doação não significa se anular ou fingir ser alguém que você não é para agradar, até porque essa é a pior coisa que pode acontecer num primeiro ou num milésimo encontro. Quando você se ocupa em fazer bem ao outro, você forçosamente tem de ver quem ele é. Se você não vir, fará algo de bom de acordo com os seus critérios e não com os dele. Apenas saindo de si mesma você o enxergará – e essa posição é fundamental para que qualquer coisa verdadeira possa nascer. (Sabe quando você sofre a perda de alguém que você não conhecia muito bem?).

Você não tem nenhum controle sobre o que vai receber de alguém, mas tem controle absoluto sobre o que dá, então que tal fazer um uso generoso disso? Experimente pensar com carinho apenas no bem-estar do outro. Quem sabe esse outro não sai de casa com o mesmo intuito? Desse modo, talvez, apenas talvez, possa acontecer um bom primeiro encontro.

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Preconceito contra gordos: não confunda desejo sexual com respeito

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Quando você anda pela praia, por uma feira de rua ou por um evento social, você está se impondo sexualmente a todas as pessoas que cruzam seu caminho? Essas pessoas, todas elas, são obrigadas a se deitar com você? Claro que não – elas não têm a obrigação de te desejar nem você de desejá-las. Parece uma ideia óbvia, mas não é.

 A atriz Mariana Xavier, amiga de todas as horas e uma das pessoas mais lúcidas que conheço, deu um depoimento ao programa Saia Justa no qual disse: “Existe uma diferença entre você não ter preconceito com uma coisa e você desejar essa coisa. Os nossos gostos pessoais, as nossas preferências, elas existem e não são um preconceito. Eu posso olhar para alguém, respeitar aquela pessoa, mas não me sentir atraída por ela e é isso que eu peço para as pessoas: não precisa me achar bonita, mas me respeite, me deixa botar meu biquíni”. Mari, sempre brilhante, se refere ao preconceito contra os gordos, embora a reflexão sirva para todo tipo de preconceito.

Vamos combinar que além da palavra “gordo” não ser um xingamento, esse conceito é altamente questionável. De acordo com o IMC – Índice de Massa Corporal (que considero servir muito bem às indústrias farmacêutica, fitness, da moda e do emagrecimento) eu, Stella, deveria pesar 15 quilos a menos para ser normal. Será? Preocupação com a saúde também não é desculpa para discriminar: gordura não é sinônimo de doença, a não ser que ultrapasse limites bem elásticos.

Achar alguém atraente é da esfera do desejo, compartilhar um espaço com o diferente é da esfera da racionalidade, da civilidade, da humanidade, do respeito. São expressões distintas. Você não precisa desejar para respeitar. A pessoa não está lá para que você a ache bonita ou atraente. Você pode continuar não achando aquela pessoa atraente e respeitá-la. É claro que racionalmente você sabe que uma pessoa na praia não está se oferecendo para você, mas emocionalmente você age como se ela estivesse e assim a agride, a ofende, a rechaça. Isso é agir como se você fosse o centro do universo, como se você fosse a medida de tudo o que existe. Sabe quando a gente passa por um grupo de adolescentes e acha que eles estão rindo da nós? Isso é ser egocêntrico, é achar que tudo se refere a você: na verdade em 99% das vezes os adolescentes nem nos viram, eles estão rindo de outra coisa. É preciso crescer! Então vamos começar por aí: a pessoa gorda no seu biquíni ou negra com suas tranças ou down com seus olhinhos puxados não está se impondo a você, você não é obrigado a achá-la atraente, mas precisa, sim, respeitar o direito dela de estar no mesmo ambiente que você.

No livro “O mal-estar na civilização” Sigmund Freud diz que uma sociedade se estabelece escolhendo um grupo de excluídos sobre o qual jogará toda sua fúria. Podem ser os judeus, os negros, os gordos, os pobres, os homossexuais, os retirantes, os refugiados: tem sempre um grupo eleito para levar porrada. Excluindo o outro você procura saciar neuroticamente seu desejo se sentir especial, acolhido, pertencente a um grupo. Ser rejeitado é horrível, a gente se sente como uma lesma sob o sal, se encolhe, mas você reagir rejeitando o outro não vai te tornar amado. Quando um rejeita e o outro é rejeitado os dois perderam. Ao humilhar alguém você não vai se sentir superior, a sua fome de aceitação e amor vai continuar até que você entre em outra faixa que é a do respeito. Além de ser o certo a fazer, esse comportamento é inteligente, maduro e humano. Porque desejar é uma coisa e respeitar é outra.

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A invisibilidade também te atinge

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Por dez anos eu trabalhei como secretária executiva, seguindo uma rotina comum a inúmeras brasileiras: acordar cedo, bater ponto, cumprir tarefas, almoçar num restaurante por quilo, tricotar um ou outro assunto com os colegas, cumprir mais tarefas, pegar ônibus, voltar para casa.

Durante esses dez anos por diversas vezes experimentei uma estranha sensação: a de ser invisível. Eu poderia estar triste, feliz ou mesmo doente, poderia conversar com samambaias ou me vestir como uma drag queen: ninguém notava, nem mesmo meus chefes. Afinal, eu era uma secretária – e secretárias são invisíveis.

Da mesma forma que copeiras são invisíveis (a não ser que derrubem uma xícara de café no patrão), office-boys são invisíveis (a não ser que deixem de entregar um documento), porteiros são invisíveis (a não ser que demorem dois segundos para abrir a porta), moças nos caixas dos supermercados são invisíveis (a não ser que digitem algo errado), frentistas são invisíveis (a não ser que se esqueçam de calibrar os pneus), mendigos são invisíveis (a não ser que peçam um trocado).

É comum que um veículo de comunicação ou uma ONG traga à baila a questão do que fazer para que a cidade em que vivemos se torne mais humana.  O ato de trocar ao menos duas palavras, se aproximar, mostrar ao outro que ele não é invisível já seria o suficiente para o clima de qualquer cidade – e o nosso clima vibracional – melhorar. O que nos impede, então, de cultivarmos esse hábito?

Medo. Medo de que os outros se aproximem e roubem nosso tempo, peçam nosso dinheiro, se insinuem dentro das nossas casas. Medo de que, abrindo uma brecha, o terrível outro possa desestruturar nossa vida aparentemente segura. Esse medo, tão arraigado quanto nefasto, faz com que nos esforcemos para agir como se os outros fossem invisíveis. O pior é que, aos poucos, não só os rostos dos estranhos como também das pessoas mais próximas começam a perder os contornos.

Esse exercício que especialmente as cidades grandes (mas não só elas) nos impõem não está mais restrito a estranhos. Você vê seus amigos? Você vê seu pai? Ele te vê? Sim, porque você também está perdendo os contornos. Seu namorado te vê? Aqueles que você diz serem seus melhores amigos, te veem? Eles te veem quando você não posta nada no Facebook? Eles sabem quem é você? Sabem o que você sente de verdade? Você sabe?

Em breve, corremos o risco de não vermos mais ninguém – e de ninguém nos ver mais. A invisibilidade é voraz, ela contamina, cega. E não respeita limites.

O que o feminismo tem a ver com sua vida romântica?

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Você acha que o feminismo não tem nada a ver com seus relacionamentos românticos ou com suas tentativas de ter um relacionamento romântico? Pois tem – e eu vou te provar isso agora.

Antes, porém, é preciso lembrar que feminismo não é o antônimo de machismo (embora o combata) e não prega a supremacia da mulher sobre o homem, mas sim a igualdade entre ambos. Por que não chamá-lo então de humanismo? Porque o objetivo do feminismo é elevar a mulher aos direitos e oportunidades que o homem já tem, o foco, portanto, é ela. Outra informação fundamental: existem muitos feminismos, dos mais radicais aos mais conservadores, cujos objetivos são quase os mesmos, mudando apenas as maneiras de se posicionar. Você não precisa concordar com todas as formas de luta, mas precisa escolher uma.

Voltando ao tema, embora não tenhamos saído dele, uma amiga me disse hoje: “dois meses de silêncio”. A que ela se referia? A uma viagem de trabalho na qual ela conheceu um homem com quem passou uma noite deliciosa. Esse homem prometeu vir a cidade dela na semana seguinte, prometeu ir com ela à reestreia de uma peça, prometeu muito amor e sexo. Os dias se passaram e não apenas ele não veio, como nunca mais falou com ela.

– Ele deve ser casado ou ter alguém, Stella, só pode. Até procurei ele no Facebook para ver se eu desvendava o mistério, mas seu nome é muito comum e eu não encontrei o perfil.

Considerando que minha amiga é uma pessoa adorável e que o tempo que ambos passaram juntos foi prazeroso, o que aconteceu com essa criatura? Será que, de fato, já existe alguém em sua vida? Será ele um lobo solitário – aquele que devora todas as ovelhas, mas não fica com nenhuma? Ou talvez um homossexual não assumido? (A mulher inteligente luta pelos direitos dos homossexuais não apenas porque é o correto, mas também porque detrás de muitos dissabores femininos estão homens que não aceitam sua verdadeira sexualidade e seguem travestidos de sedutores em série. Desse modo, na tentativa de fugir de si mesmos, eles fogem da gente).

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No caso da minha amiga e em tantos outros, o que aconteceu? Eu não sei. Mas sei, sim, o que move esses homens: egoísmo e machismo.

Por egoísmo, eles querem prazer imediato e dizem tudo o que for necessário para alcançá-lo, sem considerar um possível sofrimento seu; por machismo, eles não contam quais são as verdadeiras regras do jogo, te infantilizam, e assim não te dão o direito de escolher. Se um homem te dissesse “eu moro com alguém, mas eu quero passar essa noite com você” ou então “estou de passagem pela cidade e não acredito em relacionamento a distância, mas estou a fim de ficar com você esses dias” ele te daria direito de escolha. Quando você sabe a verdade antes, suas expectativas mudam e suas reações também. Mas ele não te dá esse direito, ele inventa um estofo emocional que não existe para não correr o risco de você atrapalhar o prazer dele. Aí está, em algo tão simples, a necessidade do feminismo. E tem mais!

Sabe aquele seu ex que não te apoiava nos seus projetos profissionais? Que boicotava sua saúde e sua paz nos momentos em que você mais precisava? Que nunca podia ficar com as crianças no dia de uma palestra importante para você? Que armava um salseiro quando você pretendia sair para dançar com suas amigas? Que trazia seu doce favorito de presente toda vez que você começava uma dieta? Que nunca se responsabilizou por evitar uma gravidez? Que fazia questão de ter sexo mesmo que você dissesse não? Que te ameaçava dizendo que encontraria na rua o que você se negava a dar a ele na cama? Que não levantava um dedo em casa para dividir as tarefas? Essas cenas são familiares?

Por isso eu repito: não é preciso concordar com todas as formas da luta feminista, mas você precisa escolher uma.

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Onde você está em “Sobre ratos e homens”?

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Muito já se falou do romance “Ratos e homens”, o clássico de John Steinbeck transposto para teatro e cinema.  De fato, a peça encabeçada por George e Lennie se presta a muitas reflexões, mas eu quero focar os holofotes hoje sobre uma personagem lateral: Mae, a única mulher da trama, vivida lindamente por Nattália Rodrigues na excelente montagem do diretor Kiko Marques. (Todos os atores estão ótimos em cena, preciso, porém, reverenciar especialmente Luiz Serra, responsável por tornar real e tocante o velho Candy. Bravo!)

Nessa sociedade de homens brutos, subjugados por um trabalho próximo à escravidão, um mundo em que deficientes mentais, negros e velhos não têm sequer o direito de sonhar, as mulheres, simbolizadas por Mae, estão numa posição ainda mais inferior – e seus sonhos, portanto, tem ainda menos espaço, ou seja, nenhum.

Na comunidade de trabalhadores braçais, a jovem Mae, recém-casada com o filho do patrão, é imediatamente catalogada por todos os homens como vagabunda. Ela dormiu com alguém, além de seu marido? Não. Alguém a viu se embolar no feno com um dos empregados? Não. No entanto, os excluídos excluem e assim Mae recebe a pecha de sedutora, causa de encrencas, ordinária. O que gera essa fama? Sua solidão. Tudo que ela quer é ter companhia, conversar, dividir suas ilusões de fama em Hollywood, seus desejos de ir a bailes dançar. Mae quer falar sobre o rigor da mãe e sobre a perda do pai – um pedófilo que a sequestrou e que ela, romântica e ingênua, transformou a hedionda noite de árvores pretas num doce conto de fadas sobre o carinho de um pai pela filha. Não era carinho, Mae, era violência – mas era o que você tinha. Não é só você que distorce o passado e confunde violência com atenção.

Existem algumas personagens irmãs no teatro: Blanche Dubois (“Um bonde chamado desejo” de Tennessee Williams), Senhorita Julia (“Miss Julie” de August Strindberg) e Mae fazem parte do mesmo grupo. Mais do que o embate entre sonho e realidade que as fustiga, todas são violentamente punidas por se entregarem ao desejo ou apenas por parecer que se entregam.

Lá está Mae com seus cabelos sedosos. Ela decide fugir: fugir do marido ciumento, do sogro bravo, da ausência de amigas, de um ambiente que não a acolhe. Veja, você também está naquele palco: as mãos que estrangulam Mae também te matam. O autor do crime apenas materializa na personagem a condenação de todos os homens. Cada vez que alguém censura uma mulher que deseja, que se entrega ou que apenas sonha, cada vez que uma mulher é chamada de vaca, vadia, vagabunda, Mae morre novamente.  No teatro, ela morre todas as noites. E na vida real, muitas mais morrem com ela.

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Amigas prepotentes

Seu coração foi destruído por um homem que alcançou e revolveu desejos seus ancestrais. Dói, é claro, uma enormidade. Você tenta se refugiar no carinho das amigas (com os amigos você não tem tanta intimidade), porém, a maioria delas está contaminada pela epidemia da prepotência.

A popularização da psicologia tosca, na forma de autoajuda, colaborou para criar essa epidemia que transforma amigas em médicas, terapeutas e juízas. Poucas te escutam até o fim, todas, porém, têm um diagnóstico para o seu caso, uma solução para o seu sofrimento e cobram resultados rápidos.

Elas dizem “Não acredito que você ainda está falando desse cara!”. Falar de novo e de novo sobre o mesmo assunto é uma tentativa de dar sentido ao que não faz sentido. Qualquer luto precisa de repetição para ser elaborado.

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“Mas vocês ficaram tão pouco tempo juntos!” A dor do fim não tem o tamanho do tempo que durou a relação. A dor tem o tamanho da esperança acumulada numa vida inteira de busca e da crença de que aquele homem era especial.

“Ele não merece seu sofrimento!” Sofrimento não é um prêmio que o algoz merece ou não. Não é ele que merece sua dor, mas sim o afeto que enche seu peito. A esse afeto, todas as reverências.

“Não fala mais disso que te faz mal!” Depende. Destilar desejos de vingança e ódio vai certamente te deixar muito pior. Mas decifrar o que houve, tentar compreender seus sentimentos, é essencial! A cura pela fala é a base da psicanálise séria.

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“Não vou deixar você ficar sofrendo, não vou compactuar com esse tempo perdido!” Amigas não ajudam a acabar com o sofrimento ao exigir que você se recupere na velocidade que elas acham correta. Tempo perdido é tampar ferida.

“Não faz sentido você estar tão triste, ele não vale nada”. Ele pode não valer nada, mas você vale – e são pelos seus preciosos sentimentos que você está sofrendo.

Quando a voz da prepotência diz que você não deve sofrer, ela tira o seu direito à dor. E a dor é a prova de que, ao menos em você, houve amor; ela é sua herança, é a única coisa que ele deixou e você não quer ficar vazia. Por enquanto, é essa dor que dá sentido à sua existência. Esse estado não é definitivo, mas é preciso que suas amigas compreendam que a carne viva não se refaz com um passeio no parque, uma música animada e dois sorvetes.

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Talvez você se pergunte agora: então os conselhos e os esforços das amigas para me tirar do lodo não valem nada? Valem, claro. Mas desde que elas respeitem o seu tempo e não imponham o delas.

Sua dor pode durar um dia ou vinte anos, tanto faz. Ela vai durar o necessário até que você se recupere. Às amigas verdadeiras, portanto, eu peço: mais ouvidos, menos egoísmo; mais colo, menos prepotência.

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“Lesões afetivas”

Mensagem do espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, livro “Momentos de Ouro”, Editora GEEM. (Todos os direitos autorais dos livros de Chico Xavier foram doados à caridade).

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Um tipo de auxílio raramente lembrado: o respeito que devemos uns aos outros na vida particular.

Caro é o preço que pagamos pelas lesões afetivas que provocamos nos outros.

Nas ocorrências da Terra de hoje, quando se escreve e se fala tanto em torno de amor livre e de sexo liberado, muito poucos são os companheiros encarnados que meditam nas consequências amargas dos votos não cumpridos.

Se habitas um corpo masculino, conforme as tarefas que te foram assinaladas, se encontraste essa ou aquela irmã, que se te afinou com o modo de ser, não lhe desarticules os sentimentos, a pretexto de amá-la, se não estás em condição de cumprir a própria palavra, no que tange a promessas de amor. E se moras presentemente num corpo feminino, para o desempenho de atividades determinadas, se surpreendeste esse ou aquele irmão, que se harmonizou com as tuas preferências, não lhe perturbes a sensibilidade sob a desculpa de desejar-lhe a proteção, caso não estejas na posição de quem desfruta a possibilidade de honorificar os próprios compromissos.

Não comeces um romance de carinho a dois, quando não possas e nem queiras manter-lhe a continuidade.

O amor, sem dúvida, é lei da vida, mas não nos será lícito esquecer os suicídios e homicídios, os abortos e crimes na sombra, as retaliações e as injúrias que dilapidam ou arrasam a existência das vítimas espoliadas do afeto que lhes nutria as forças, cujas lágrimas e aflições clamam perante a Divina Justiça, porque ninguém no mundo pode medir a resistência de um coração quando abandonado por outro e nem sabe a qualidade das reações que virão daqueles que enlouquecem na dor da afeição incompreendida, quando isso acontece por nossa causa.

Certamente que muitos desses delitos não estão catalogados nos estatutos da sociedade humana; entretanto, não passam despercebidos nas Leis de Deus que nos exigem, quando na condição de responsáveis, o resgate justo.

Tangendo este assunto, lembramo-nos automaticamente de Jesus, perante a multidão e a mulher sofredora, quando afirmou, peremptório: aquele que estiver isento de culpa, atire a primeira pedra.

Todos nós, os espíritos vinculados à evolução da Terra, estamos altamente compromissados em matéria de amor e sexo e, em matéria de amor e sexo irresponsáveis, não podemos estranhar os estudos respeitáveis nesse sentido, porque, um dia, todos seremos chamados a examinar semelhantes realidades, especialmente as que se relacionem conosco, que podem efetivamente ser muito amargas, mas que devem ser ditas.

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Carta a um sedutor em série.

Preciso te pedir uma coisa, Caio. Ontem eu voltei a casa em que cresci, toquei em seus muros e no portão de ferro na tentativa de acessar a menina alegre que um dia eu fui, muito antes de te conhecer. Não consegui. Foi então que me dei conta de que precisava te fazer esse pedido.

Talvez você não compreenda o alcance das suas palavras, então eu vou acender uma luz nessa sala e espero que você me acompanhe.

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Quando você diz para uma mulher “eu sou seu”, ela não entende que isso se refere apenas à cama e apenas àquele agora. Quando você diz “pega a minha mão, eu te passo segurança” ela acredita que está num terreno firme, não numa plataforma que irá se esvanecer subitamente debaixo dos seus pés. Quando você diz “esse gozo é nosso, é fruto do nosso encontro, da nossa relação” ela acredita que há, de fato, uma relação sendo construída. Quando você diz “eu te reconheço, tenho uma sensação muito forte de já ter te encontrado antes” ela se sensibiliza. Quando vocês planejam passar um fim de semana a dois, quando você insiste para que ela fique um dia a mais na sua casa, ela acredita que há alguma substância ali e que aquela fome ancestral de sexo vai ser gostosamente saciada. Quando você diz “eu não tenho pressa” ela acredita que o envolvimento continuará. Quando você usou todas essas palavras comigo, Caio, eu acreditei! Porque a palavra azul cria uma imagem azul na mente. A palavra árvore cria a imagem de uma árvore. Suas palavras constroem uma ficção perigosa, Caio.

Quando você escolher a próxima mulher (pode ser que você já tenha escolhido e esteja agora vivendo essa nova escolha, mas o pedido vale do mesmo modo), eu te peço, ofereça apenas o que puder dar, não use as palavras para urdir uma falsa cama de alvenaria, que se mostrará subitamente ser de areia e névoa.

Talvez você tenha ficado surpreso quando eu cancelei a viagem e disse: “Ficamos por aqui. Adeus, Caio.” Bem, eu fiz apenas o que você pediu. Seus áudios dizendo que sou muito melhor do que você e que você é incapaz de se conectar emocionalmente a alguém, aquele vídeo que você me enviou da cena final de “Alfie, o Sedutor” (com a confissão “eu sou este cara aqui”), tudo em você gritava que eu não era bem-vinda. Aliás, me permita dizer: aquela cena romantiza o algoz, ela veste de dor e piedade algo que é um vício perverso (prazeroso, como todos os vícios). Eu sei ler entrelinhas, Caio – mas ali elas quase não existiam, você era pura negação. A minha frente, o deserto. Eu não tive nenhuma escolha a não ser ir embora.

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Sei que você está muito aliviado por ter fechado a porta para mim. Você está se sentindo culpado pela situação insólita, pela molecagem, mas está aliviado. Eu não estou. Eu sou angústia e rigidez. E sobre essa angústia e rigidez devo me edificar para seguir em frente de algum modo. Também sei que essa base crestada não me permitirá voar mais. Você assistiu à versão de Malévola protagonizada pela Angelina Jolie? O homem amado a engana e corta suas asas. Ela acorda assim, com os cotocos sangrentos do que haviam sido suas imensas asas e o coração em farrapos. Eu sou ela. Muitas vezes já cortaram minhas asas e, com esforço, eu as fiz crescer de novo para outros voos, mesmo que modestos. Agora não mais: viver no chão já será trabalhoso o bastante.

Eu sou um país novamente bombardeado e seu nome, Caio, está inscrito nos escombros. Apenas te peço que não faça o que fez comigo com outra mulher, nunca mais. Se você conseguir fazer isso, eu vou olhar pro céu e pensar naquela menina tão alegre que eu fui, vou pensar que ela não vai mais voar, é verdade, mas que outras estão voando com suas imensas asas porque ela se levantou e disse o que precisava ser dito. Mesmo ferida, ela se humilhou para pedir pela vida delas, pela liberdade delas, pela esperança delas, pela alegria delas, pelo voo delas. Caio, meu ingrato amor, eu te peço: não ceife mais asas.

 

Branca de Neve não é apenas um desenho animado.

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Dentre as princesas da Disney que povoaram a minha (e a sua) infância, a preferida, a primeira, a diva, é ela: Branca de Neve!

Pra começar, ponhamos de lado o príncipe, pobrezinho. Sabe por que ele aparece tão pouco? Porque quando “Branca de Neve”, o primeiro longa metragem colorido visto nos cinemas, foi lançado, em 1938, Walt Disney não dominara a arte de desenhar a beleza masculina. O que fazer então? Diminuir ao mínimo as aparições do príncipe, claro!

Também não vamos falar sobre a madrasta e o quanto o mote principal é falho, afinal ela é obviamente mais bonita que Branca de Neve. Só mesmo num desenho animado e no mundo igualmente irreal da moda se exige que uma menina de 14 anos seja mais bela do que uma mulher na plenitude da sua feminilidade.

O que me encanta em Branca de Neve é… você vai ver. Ou melhor, ler.

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Ao saber que sua madrasta a quer morta, a menina foge, se embrenhando numa floresta desconhecida. Após atravessar a noite escura do medo, ela fica à espera de um salvador ou de um milagre? Não. Branca de Neve faz amizade com os animais selvagens e pede a eles que a levem até uma habitação humana.

Diante da casa pequenina ela se senta e espera? Não. Branca de Neve entra, observa a bagunça e a sujeira e pensa em oferecer uma permuta a seus donos. Mais do que pensar, a menina decide dar uma amostra do que pode oferecer em troca de abrigo. É muito trabalho para uma pessoa só, afinal a casa está imunda, por isso mesmo ela coloca toda a bicharada no batente, inclusive a tartaruga. Coloca e supervisiona!

Casa limpa, um bom cozido no fogo… Branca de Neve então aguarda os donos da casa? Não. Ela tem a ousadia de dormir na cama deles! Quando os anões chegam, bastam três minutos para que Branca de Neve passe de intrusa a dona dos seus corações e senhora daquele lar: três minutos!

A partir de então, Branca de Neve se esmera em servir os seus anfitriões? Não. Ela exige que eles se lavem para o jantar e inspeciona suas mãozinhas calejadas com a colher de pau na mão.

Depois há música e dança! Branca de Neve espera um príncipe para cair na folia? Não. Ela junta dois anões e se acaba no arrasta-pé.

Quando o sono chega, Branca de Neve vai dormir onde? No quarto dos anões, que cedem suas camas à menina. Mais do que ganhar amigos e protetores, ela ganha súditos fiéis.

O.k., para o conto de fadas seguir em algum momento ela tem de cometer um vacilo. A gula então a faz morder uma maça vendida por uma velha suspeita e blablablá, o resto a gente já sabe. Sei que parece absurdo sacrificar sua segurança por conta de uma maçã, mas suponha que fossem brigadeiros: quem nunca comeu brigadeiros de um vendedor desconhecido atire a primeira pedra! Pois é, vamos todas juntas pro caixão de vidro.

Mas voltando ao foco desta crônica, um homem de negócios com o tino e o empenho de Branca de Neve seria no mínimo um Steve Jobs. O que realmente me fascina, no entanto, é que com casa ou sem casa, com medo ou sem medo, com príncipe ou sem príncipe, Branca de Neve segue em frente. E segue sempre muito bem.

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Quero ter o direito de ser educada.

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Crises de fúria me fazem muito mal. O desequilíbrio que experimento é tão grande que preciso de horas, às vezes dias, para voltar ao normal. Isso sem contar o arrependimento: dentro de mim, nunca vale a pena. Mas fora… infelizmente resolve. E friso: infelizmente.

Por que a gente não consegue resolver nada sem fúria neste país? Nada é exagero meu, refaço a pergunta: por que tantas coisas só se resolvem sob pressão?  Experimente ser calma, educada e me diga se você consegue solucionar qualquer mínima querela.

Quando mudei de endereço, gastei uma semana pedindo educadamente que minha internet rápida fosse transferida. Nenhum resultado. Então, passei duas horas berrando no atendimento ao cliente e impedindo que desligassem sem me dar uma resposta. Milagre: minha conexão foi restaurada no mesmo dia.

Há três anos eu emprestei a um amigo uma boa quantia em dinheiro. No primeiro ano, eu não o cobrei: sabia que ele estava em apuros. Nos dois anos seguintes, porém, eu pedi, com educação, que ele me pagasse. Adiantou? Não. Quando mandei a amizade para as cucuias, quando fui indelicada e grosseira (até porque ele não era um bom amigo em outros quesitos), pronto, em uma semana a grana estava na minha conta.

Repito a pergunta: por que tantas coisas só se resolvem sob pressão? Nós estamos sendo obrigados a nos irritar. Sim, pois se educadamente não conseguimos nenhum resultado e tocando o terror as coisas acontecem, estamos sendo constrangidos à violência e a todos os desarranjos físicos e mentais que ela acarreta. E olha que eu nem estou considerando aqui a realidade das vibrações pestilentas que se espalham a partir de uma cena de desequilíbrio, mesmo que você não esteja diretamente envolvido. Se você já presenciou, por exemplo, um levante de clientes insatisfeitos numa longa fila de supermercado ou um passageiro reclamando em altos brados no guichê de uma companhia aérea por ela ter vendido seu lugar a outra pessoa também, sabe do que eu estou falando. O clima pesa para todo mundo.

Eu tenho um sonho. Um bem simples. Quero ver problemas solucionados usando-se apenas a expressão “por favor”. Quero ter o direito de ser educada.