50 tons de cinza: o segredo real de seu sucesso

Os anos passam e a dúvida permanece: como explicar o sucesso da franquia de 50 Tons de Cinza? Será por conta do sexo abundante, dos chicotes e algemas, da virgindade de Anastasia ou do dinheiro de Grey? Não, isso é só purpurina. O segredo real é algo muito diferente e subterrâneo.

Mas antes tenho uma pergunta: por que a autora, cujo nome verdadeiro é Erika Mitchell, criou o pseudônimo E.L. James? Por que J.K. Rowling também usa iniciais? Será que um nome neutro, que pode ser o de um homem, inspira mais respeito no mercado? Fica a reflexão.

A gente já sabe que 50 Tons de Cinza é uma fanfic da saga Crepúsculo (fanfic é ficção escrita por fã, tendo como base sua história preferida). Portanto Anastasia Steele é a jovem Bella e Christian Grey é o vampiro Edward, numa versão adulta e humana. Mas e Jacob, o lobisomem? Quem é ele em 50 Tons de Cinza? Ninguém, ele não existe. A autora excluiu de sua fanfic o único personagem que representa, em Crepúsculo, o amor real, o amor possível. O lobisomem é também humano, possui calor, pode ter vários filhos naturalmente e criá-los ao lado de Bella, pode envelhecer com ela, ser um companheiro de verdade. Tem lá seus defeitos, como virar lobo de vez em quando, mas na vida também há problemas – vida real que, com o sumiço de Jacob, foi excluída da fórmula de E. L. James.

O que tornou 50 Tons de Cinza um fenômeno foi a realização de um dos mais comuns e intensos desejos femininos: mudar nosso homem. E, de quebra, se tornar a mulher mais especial de sua vida. Até conhecer Anastasia, Christian nunca havia sido fotografado com uma garota, nunca se ouviu falar que tenha namorado, jamais havia dormido de conchinha com alguém, não levara moça alguma para jantar na casa dos pais e só tocava numa mulher depois de ambos assinarem um contrato. A jovem aparentemente ingênua faz Grey mudar todos esses hábitos.

Dizer que Anastasia é submissa é ver apenas as aparências: aquela moça tem a personalidade de uma dominatrix, com o disfarce da voz mansa e dos olhinhos baixos. Ela é muito inteligente, tem paciência e sabe manipular a seu favor as circunstâncias. Se você duvida, se lembre da cena em que ela leva uma surra de Grey e vai embora dizendo que aquilo ultrapassou seus limites. Quando ele vai atrás dela no elevador, o que ela faz? Chora? Se joga em seus braços? Implora que ele pare com aquilo? Diz que o ama? Não. Ela estende a mão como um guarda de trânsito e grita: pare! E ele para. Quem domina quem?

Anastasia Steele realiza a fantasia de todas nós. Você sai com aquele cafajeste, aquele chato, aquele mandão, aquele golpista, aquele vagabundo, aquele violento, aquele mentiroso, aquele alcoolista, aquele irresponsável, aquele abusador e acredita que o seu amor vai mudá-lo. Mas os homens da vida real, por mais que desejemos isso, não são moldáveis como Christian Grey.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Como usar a palavra “literalmente” de modo correto

De tempos em tempos, algum vício de linguagem, erro de português ou uma invenção inútil se espalha pelo Brasil como fogo em campo ressequido.

Recentemente tivemos a ditadura do “a nível de” e o despropósito do “vou estar fazendo”. Agora estamos mergulhados até o pescoço no uso equivocado do “literalmente”.

Curioso que essas formas esdrúxulas tenham se popularizado pela mesma razão: vaidade. Um ortopedista acha mais imponente dizer “o atleta não tem nenhuma lesão a nível de joelho” do que simplificar “ele não tem lesão no joelho”. A operadora de telemarketing acha mais chique dizer “vou estar transferindo sua ligação” em vez de um simples e correto “vou transferir sua ligação”. Numa tentativa de parecer mais culto, todo mundo se tornou mais estúpido.

Já o “literalmente” não me parece fruto de vaidade: é apenas um engano. Literalmente significa ao pé da letra. Ele não é sinônimo de realmente, não confere ênfase a uma ideia e não pode ser usado como uma espécie de exclamação. Mais fácil dar exemplos, não é?

“Ele saiu literalmente do armário!”. Para alguém sair literalmente do armário, ele precisaria estar dentro de um armário de verdade, abrir a porta (supondo que a porta abra por dentro), colocar um pé para fora, depois outro e sair com seu corpinho inteiro do tal armário.

“Eu estou literalmente morta de cansaço!”. E como é que você está falando?  Chamaram um médium?

“Eu viajei literalmente na maionese!”. Não, não viajou. Nem chefe de cozinha viaja literalmente na maionese – a não ser que o apelido do carro dele ou dela seja maionese. Você conseguiria confeccionar uma moto, uma carroça, um riquixá que seja de maionese para viajar nele?

“Esse homem me deixou literalmente louca!”. Opa, essa pessoa precisa correr ao psiquiatra para internação de emergência – e dá-lhe benzodiazepínicos e outros que tais na veia!

“Ele literalmente faz milagres!”. Estamos falando de Jesus Cristo?

“Essa menina é literalmente um doce!”. “Menina” é a marca de um biscoito de chocolate? De um doce de caramelo? De uma bala de mel? Não? Então a menina não é literalmente um doce.

“Ele literalmente roubou meu coração”. Gente, como essa criatura está andando por aí sem coração? Chama o SAMU, isso é caso para transplante urgente!

“Nossa, isso é literalmente um mico!”. Se estivermos no zoológico, na Mata Atlântica, na Amazônia, em Bonito diante de um macaco pequenino, tudo bem. Caso contrário…

“Minha namorada me leva na coleira literalmente!”. Rapaz, sua namorada é dominatrix? E te leva aonde te puxando pela coleira?

“Você tem de pensar literalmente fora da caixinha”.  Que caixinha, cara-pálida? Só se for a craniana! A única maneira de seguir esse conselho é ser um zumbi com os miolos de fora.

“Caí literalmente na folia!”. Levou um tombo no baile de carnaval? Que dó.

“O sorriso dela literalmente aquece meu peito!”. Como? Ela esquenta os dentes com bolsa térmica e encosta no seu peito a boca escancarada?

Portanto, fica a dica: se você estiver saindo com um homem e ele, à beira da cama, disser “quero te comer literalmente”, torça para que ele seja apenas um dos muitos que fazem confusão com o termo, e não um confrade do doutor Hannibal Lecter.

 

Uma carta de desamor (Porcos não reconhecem pérolas)

Há algum tempo, condoída pelo fora que uma amiga levara, escrevi um texto de presente para ela: uma carta de desamor.

Na época, fez bem a ela ter a experiência materializada em texto: texto que poderia ser entregue ao dito cujo (e foi), texto que poderia ser impresso e simbolicamente queimado (e foi), texto que poderia fazê-la erguer a cabeça e a autoestima (e fez).

Se ele ajudou uma mulher, pode ajudar duas, três… Acrescente o que você quiser ao miolo dessa carta e torne-a sua: o final (um dos meus mantras preferidos) é o que realmente importa.

***

Me desculpe por eu ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter almoçado com você tantas vezes. Me desculpe por ter ligado.

Me desculpe pela chuva que tomamos subindo a Augusta. Me desculpe por ter acreditado nas suas mensagens. Me desculpe por ter rido das suas piadas.

Me desculpe pelos machucados que sua ex deixou em você. Me desculpe por eu ter vindo logo depois dela. Me desculpe por tentar entender seu silêncio.

Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe por eu ter subestimado o que foi ruim e superestimado o que foi bom.

Me desculpe por eu não ter usado máscara. Me desculpe por querer mais. Me desculpe por supor que você também quisesse mais.

Me desculpe por ter dito “sim”. Me desculpe por eu confiado em você. Me desculpe pela cinta-liga que eu comprei para te agradar.

Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonito. Me desculpe por, em algum momento, eu ter acreditado que você era o homem da minha vida.

Me desculpe pelos seus erros de português. Me desculpe pelos erros de português da sua nova namorada. Me desculpe por a sua nova namorada achar que margaridas são flores menos nobres.

Me desculpe pelos 130 quilômetros de congestionamento que eu atravessei para te ver. Me desculpe pela barata que eu tive de matar na sua cozinha. Me desculpe por eu ter permitido que você deixasse a TV ligada no jogo do Palmeiras enquanto nós transávamos.

Me desculpe por eu ter acreditado que você compreendia meu olhar. Me desculpe por eu ter dito coisas lindas para você. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu disse.

Mas, sobretudo, me desculpe por pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você: são para mim. Afinal, porcos não reconhecem pérolas.

 

O que um homem faz na cama com você, ele fará também fora dela.

do livro “Os Indecentes – crônicas sobre amor e sexo” por Stella Florence

O que um homem faz na cama com você, ele fará também fora dela.

Se ele insiste em pedir a você uma segunda mulher na cama, ele já tem (ou em breve terá) uma segunda mulher fora dela.

Se ele não deixa você mudar de posição quando você quer gozar, ele cortará suas possibilidades de gozo na vida.

Se ele sente prazer em te machucar na cama sem que você deseje isso, ele procurará maneiras de te machucar na vida.

Se ele toma banho imediatamente após transar com você, ele irá se livrar de qualquer vestígio seu fora da cama também.

Se ele reage mal quando você o acorda de madrugada para transar, ele reagirá mal quando você o acordar de madrugada frágil por conta de um pesadelo.

Se ele não fala bobagens e ri dessas mesmas bobagens enquanto se esfrega em você noite adentro, ele será rígido, sem humor e sem entrega na vida também.

Se ele insiste para que você goze apenas porque isso lhe conferirá o status de macho provedor de orgasmos, ele te dará aparente companheirismo na vida apenas para que o seu cartão de visitas social não seja arranhado.

Se ele só vê os desejos dele na cama, só verá os desejos dele na vida.

Se ele é inseguro e pede licença para enfiar a mão entre suas pernas – já sendo seu homem –, ele será um poço de insegurança em tudo o mais.

Se ele tenta te convencer a tirar a camisinha sem te oferecer fidelidade e exames de sangue, ele tentará fazer com que todas as suas proteções na vida caiam a fim de você fique em risco também.

Se ele não te beija na boca durante o sexo, não vai te beijar no elevador, muito menos no meio do estacionamento vazio e menos ainda sob a chuva (ou na fazenda ou numa casinha de sapé, etc., etc., etc.).

Se ele duvida do seu gozo, irá duvidar de tudo o mais sobre você.

Se ele vive te comparando a outras mulheres, outras que faziam gostoso todas as aberrações que você se recusa a fazer, se ele traz o espectro dessas outras para a sua cama, ele irá seguir te humilhando vida afora sempre que tiver uma oportunidade.

Eu citei apenas alguns dos cenários torpes que mulheres (e homens) encontram nesta Babilônia romântica em que vivemos, e é claro que existem os bons cenários e até mesmo os maravilhosos. Porém, contra esses, não há necessidade de se prevenir.

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado.

 

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado. Quando o abuso degenera em crime, porém, a responsabilidade de uma das partes desaparece: naquele momento, impotente diante da violência extrema, ela deixa de ser coparticipante para se tornar vítima. No entanto, no dia seguinte, a responsabilidade volta a ser dela – e a capacidade de mudar seu destino também. (Trecho da crônica “Estupro numa relação abusiva” publicada originalmente no livro “Os Indecentes” e atualizada por mim para o portal Exnap.

Loucura de Estimação: vídeo do lançamento na Martins Fontes

Eu e o portal  Exnap estivemos no Sarau Conversar, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo), dia 24/04/2018, falando sobre amor, recomeços e o lançamento do “Loucura de Estimação”, pela E-Galáxia. Aqui está uma edição da minha fala nessa noite especialíssima. Veja as fotos do evento, pela incrível Kriz Knack, lá na minha fanpage. Vem!

Veja um tutorial para baixar o livro:

Loucura de Estimação: crônicas de amor e sexo

“Loucura de Estimação”, crônicas de amor e sexo, de Stella Florence, pela E-Galáxia: apenas em e-book na Amazon (http://amzn.to/2CFaPil) Livraria Cultura (http://bit.ly/2FsNfZf), Saraiva (http://bit.ly/2BLeGxE), Apple e Google Play (http://bit.ly/2EOiPzr). Preço: R$ 11,90 (não é promoção, é o preço de capa do livro). Prefácio por Daniel Bovolento: vem!

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Entrevista super bacana comigo para o EXNAP: http://www.exnap.com.br/loucura-de-estimacao-novo-romance-de-stella-florence/

 

Como adquirir um livro publicado pela e-galáxia é simples. Veja:

Passo 1: ESCOLHA A LIVRARIA de sua preferência: AmazonAppleGoogle PlayKoboLivraria Cultura e Saraiva. Se você já comprou em algum desses sites (mesmo que não um e-book), o seu cadastro está pronto. Isso facilita.

Passo 2: entre no site da livraria e utilize a ferramenta de BUSCA. Digite o título do livro ou o nome do autor que você procura, selecione o item e conclua a compra normalmente.

Passo 3: para ler um e-book, ele deve ser aberto em um APLICATIVO Reader (ou seja, um programinha para leitura de livros digitais). Cada livraria tem o seu. É só baixá-lo gratuitamente.

Para ler em TABLETS ou CELULARES, vá à loja de APP do seu aparelho, procure e baixe o aplicativo Reader da livraria (kindle, iBooks, iba, Play Books, Kobo LC, Saraiva reader).

Para leitura em COMPUTADORES, baixe o aplicativo Reader diretamente do site da livraria em que realizou a compra.

Passo 4: quando abrir o aplicativo Reader, insira e-mail e senha idênticos aos utilizados na livraria.

Pronto! O e-book estará disponível para leitura em alguns minutinhos.

 

Como dar um ​e-book de presente:

Veja como é fácil e simpático presentear seus amigos com um e-book:

  • entre no iBooks ou iTunes do seu celular ou tablet;
  • encontre o livro que deseja presentar;
  • uma vez encontrado o livro, clique no ícone “Compartilhar” no canto superior direito.

 

Ensaio sobre o Loucura de Estimação feito pelo professor de literatura Pablo Diassi.

Loucura de estimação – crônicas de amor e sexo (2018) é o mais recente livro da escritora Stella Florence no qual grandes questões da literatura são elaboradas com uma linguagem nua que despe e expõe o leitor minuciosamente ao próprio corpo e a tudo que a carne sente, inclusive, a carne da palavra.

Loucura de estimação tem a mesma atmosfera, o mesmo relevo apurado e o mesmo caráter instigante visto em Big little lies (2017). No entanto, no campo da literatura tudo é mais visceral, mais brutal e também mais pensado, mais reflexivo.

Amor e sexo são afetos que se voltam para a ação, ou seja, são relacionados com um fazer – a gente faz amor, a gente faz sexo.

Neste livro Stella Florence está bastante concentrada em pensar o que fizemos do amor e do sexo, no contexto contemporâneo, e também o que nós fazemos uns com os outros quando fazemos amor e sexo.

Nesse sentido posso afirmar que o livro nos prepara para uma ética do amor e uma ética do sexo pois, em cada página, pensamento e ação estão continuamente se enfrentando até o limite para descobrir o melhor jeito de realizar tais afetos.

Se há quem confunda felicidade com nervosismo, há também que confunda amor com romantismos, violência, submissão, assedio, abuso, vício. Stella investiga, intimamente, as situações e os sujeitos que fazem do amor um drama, uma ferida, um crime, um trauma, sem deixar de pensar os (breves) momentos em que o amor se revela maior que tudo isso, porém, evitando a ideia falsa de que o amor cura tudo, ou pior, de que um novo amor é mesmo a melhor solução para qualquer problema.

Do mesmo modo Stella busca o sexo. Mas não o sexo resumido ao orgasmo e ao gozo, e tampouco um sexo afirmativo, no sentido de uma performance vulcânica, embora tais pontos não escapem. Stella pergunta pelo sexo no qual há encontro, entrega e ambos os corpos são felizes considerando tanto a diversidade e a cumplicidade que há quando algo é feito a dois quanto a singularidade que envolve o momento.

É preciso coragem para falar de carinho, atenção, cuidado e gentileza, enquanto grandes forças ativas, quando o sexo tornou-se principalmente o monotema de todo pancadão e de todo MC moralista.

Dos desencontros nasce a loucura, especialmente esta loucura de estimação, e o desencontro é, a meu ver, o grande personagem que Stella cria para este livro. O desencontro entre os afetos e a indiferença, o desencontro entre a traição e a confiança, o desencontro entre a generosidade e sexo, o desencontro entre o amor e o mundo. As nossas ações, guiadas para o sexo e o amor, também se desencontraram. Nós nos perdemos. Mas não estamos perdidos – ainda.

Vários desencontros, um seguido de outro, e todos eles em uma só jornada, em uma só busca – a busca pelo próprio encontro. E assim encontrar a si mesmo, encontrar um bom amigo, quem sabe encontrar um amor. Mas podemos também encontrar novos caminhos para experiências melhores e sem qualquer estima pela loucura.

Loucura de estimação é uma experiência melhor. Stella Florence já trilhou parte desse caminho e, bem lá da frente, nos chama para junto dela. Ler e  reler este livro é dar longos passos na direção da força e da lucidez.

Pablito

Assédio: a cultura da insistência

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“Não seja uma mulher fácil, minha filha!” Nós crescemos ouvindo isso. E, como boas meninas, obedecemos. Nos tornamos tão difíceis, mas tão difíceis, que nos perdemos até do nosso próprio desejo. E ainda sedimentamos nos homens, sem querer, a ideia de que eles precisam insistir para nos conquistar.

Essa cultura da insistência é um dos elementos que fazem com que alguns homens não respeitem o nosso “não” e confundam assédio com paquera. Qual a diferença entre eles? Simples: o consentimento. Quem respeita o “não” de uma mulher jamais será um assediador.

Atenção: exceções lamentáveis e criminosas como haver uma parcela ínfima que denuncia falsos crimes ou de algumas mulheres também assediarem ou, ainda, de existirem homens que são vítimas desse constrangimento, nada disso pode ser usado como tática para minimizar e desqualificar a realidade: a maioria esmagadora de assédios que destroem carreiras, relacionamentos e vidas são feitos por homens tendo mulheres como alvo. Portanto dizer “ah, mas tem mulher que inventa assédio pra prejudicar o cara” ou então “ah, mas homens também são assediados” não é defesa e é vergonhoso tentar usá-las como tal.

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Eu insisto na questão porque tudo se resume a isso: não haveria dúvida sobre o que é paquera e o que é assédio se o “não” das mulheres fosse respeitado. O desejo é livre e sempre será: ele não está sob ataque. Quando é recíproco pode se tornar concretização de prazer; já forçar a pessoa a realizar seu desejo contra a vontade dela é crime. Assédio e paquera não se parecem em nada!

Os homens, porém, se perguntam: como saber quando ela diz realmente “não” ou quando está apenas fazendo charme para supostamente se valorizar porque assim lhe foi ensinado? Um “não” constrangido é bem diferente de um “não” mimoso e coquete, mas aqui vai uma dica útil: insista, no máximo, uma vez.

Ouvi outro dia um conhecido dizer: “Se eu não tivesse insistido muito não teria me casado com minha mulher”. Teria, sim. Sua esposa deve ter sido criada com os valores que tão bem conhecemos e que precisamos mudar para as próximas gerações serem mais felizes. No entanto, se você tivesse insistido apenas uma vez e depois seguido com sua vida, ela daria um jeito de te mostrar que gostaria de receber um novo convite. E se ela, diante da interrupção da sua insistência, desistisse de você, restaria uma questão a ser feita: vale a pena se casar com alguém cujos preconceitos sufocam o amor? Com uma pessoa que é tão vaidosa a ponto de exigir que o homem rasteje vinte quilômetros esfregando a cara no asfalto por ela? Eu acho que não.

Agora é hora de nós, mulheres, fazermos a nossa parte. Além de denunciar os agressores (desde que a vítima tenha estofo emocional para isso – e deve-se respeitar o fato de que nem sempre ela tem) é preciso acabar com essa atitude de fazer-se de difícil, de esconder nosso desejo, de fazer jogo, de manter a cultura da insistência ativa. É válido dar um tempo para conhecer o outro? É bom querer saber onde se está pisando? É útil se certificar de que a experiência não será uma fria completa? Sem dúvida! O que não é válido, nem bom, nem útil é podar nosso desejo em nome da regra “não seja uma mulher fácil” e, involuntariamente, acabar fornecendo munição para assediadores e estupradores se justificarem. A tarefa é longa, mas nós já a começamos. Afinal, #timesup!

Assedio2

Escrever é um acerto de contas

 

Os escolhidos, nos filmes, sempre cumprem seu destino: Frodo leva o anel até Mordor, Neo ganha uma moratória para Zion e reinventa Matrix. Mas você não é Neo nem Frodo: você era o meu escolhido e me abandonou. Você é como Anakin, aquele que se corrompe e termina por se esconder atrás do ridículo escafandro de Darth Vader. Você é um engano respirando com a ajuda de aparelhos. E como Obi Wan grita em seu desespero e frustração, eu grito também:

– Você era o escolhido!

Você me ligou e desligou como um sabre de luz num dia de pouca luta. E agora? Agora eu morro? Sim, você espera que eu siga o script até a última página. Saída discreta pela esquerda, quase uma personagem incidental. Só tem um problema: eu me recuso. Até aqui você ditou as regras, agora mando eu.

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Compreenda quem eu sou: eu sou uma escritora. Compreenda o que escritores fazem: escritores escrevem. Compreenda como escritores escrevem: através da ficção, nós acertamos as contas com a realidade. É isso que nós fazemos. E, apesar de você não ter me dado quase nada, desse quase nada eu posso fazer uma crônica, um livro, uma saga ou um poema num guardanapo de papel. Eu posso fazer de você qualquer coisa que eu quiser.

Você não me amou, certo? Certo. Nada além de um incômodo para você e uma ferida para mim, tão igual a milhares de outros incômodos e feridas que infestam o mundo. Mas quando eu escrevo que você não me amou eu dou a essa ocorrência precária uma beleza que será só dela, eu permito que esse pouco e insuficiente amor saboreie alguma eternidade, ganhe um corpo, uma razão de ser, uma vida que valha a pena.

Mesmo que eu escreva dezenas de versões sobre a mesma ocorrência precária, ainda outras dezenas diferentes poderiam ser escritas. E, no instante seguinte, outras mil. Conter a vida é impossível. Conter a imaginação ainda mais. Escrever, portanto, não é conter ou limitar: é ampliar, é inscrever algo no eterno.

Se a realidade me favoreceu ou não, pouco importa ao meu ofício: quando eu escrevo, eu engravido de significados o que deveria ter sido e não foi. E a literatura é tão generosa que não pede credenciais e provas de bravura, ela a tudo aceita. Ela aceita, veja só, até o seu pouco amor por mim.

Por isso, onde eu deveria morrer, eu vivo. Onde eu deveria me calar, eu falo. Onde eu deveria seguir em frente, eu estanco. Onde eu deveria esquecer, eu lembro. Porque aqui, na ponta dos meus dedos em que dançam essas giletes, ao menos aqui nestas páginas, meu precário amor, você não tem nenhum poder sobre mim.

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Vai demorar muito tempo para você me amar

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Ainda vai demorar tanto tempo para você me amar, tanto… Como uma semente vai demorar até que a árvore rasgue o céu com sua copa, como um livro vai demorar a ser composto, letra a letra, como a água captada pelas raízes vai demorar até ser abundante a ponto de sustentar chalanas, canoas e barcos, como tudo que é construído, como tudo que é bom, como tudo que é puro, você vai demorar muito tempo para você me amar.

A vida é lenta. Só a destruição é imediata, só o choque é urgente, só a tragédia é súbita, por isso, não se afaste, não destrua, se aproxime devagar.

O fato de você realmente só perceber o meu amor agora não significa que eu já não estava em curso nas suas veias desde que o primeiro desenho rupestre foi rabiscado na primeira caverna pela primeira mão humana. Eu estava ali. E você também. E ali eu já sabia que iria demorar muito tempo para você me amar.

Nós ainda temos tantos sonhos para materializar, tantas terras e asfaltos para seguir, tantos filmes e peças a dissecar, tantos temperos e alimentos para comer, tantas salivas e suores a misturar, tantas gargalhadas para chacoalhar os ossos, tantos livros para compreender juntos, tantos bons silêncios a compartilhar…

Eu posso ver no abismo das suas pupilas que você vai me amar, mesmo que não agora. Posso sentir no calor que seu corpo exala ao falar comigo que você vai me amar, mesmo que não já. Posso perceber na resistência e no desejo da sua substância em relaxar na minha, que você vai me amar, mesmo que não hoje.

Há quantos séculos eu te sorvo em silêncio? Deixe então que o tempo continue a fazer em você, o mesmo trabalho que já fez em mim.