O pulo do gato da relação a dois

Quando decidiram morar juntos, ambos tiveram medo.  O medo é uma terra vasta em que cabe tudo: barata, ficar sem emprego, altura, palhaço, gato, trem, touro, mouro, espírito, perder a memória, ficar doente, boca de lobo, farol apagado, mar, tempestade, túnel, presunto pata negra, ganso, parede verde de hospital, hotel antigo, gongo, grito do pai, silêncio do pai, giz rasgando a lousa, elevador, boneco de Olinda, caverna, escola vazia, abandono, etc., etc., etc. Por isso, quando dividiram a primeira refeição na casa nova, ele se encontrou com os medos dele e ela com os dela. Para conviver seria preciso, portanto, um tacho a mais de compreensão.

Depois dos 30 (e, às vezes, bem antes disso) nós somos como campos minados. Cada experiência mal sucedida, cada desejo romântico frustrado, cada amante que vai embora deixa uma quantidade maior ou menor de bombas enterradas em nós. Quando o novo amor se aproxima, inconsciente dessas minas cuja potência varia ao infinito, ele pode sem querer pisar numa ou em várias delas. Essas minas, quando pressionadas, sempre explodem: por dentro ou por fora.

Por exemplo, um ex dela tinha o hábito de gritar à menor contrariedade. Hoje, se o novo companheiro levantar a voz, talvez apenas para pedir uma toalha ao sair do banho, uma mina vai explodir dentro dessa mulher, seus cabelos da nuca vão se arrepiar, uma dor sutil beliscará seu estômago e ela precisará de inteligência e boa vontade para compreender que as situações não são as mesmas. Mas ela não pode fazer esse trabalho terapêutico sozinha: ele também a ajudará, acostumando-a aos poucos, gentilmente, com eventuais gritos felizes de quem chama alguém distante para a brincadeira da vida. Ainda assim, resta uma questão: e se as situações forem iguais? Se essa mulher escolheu um novo companheiro com os mesmos defeitos do anterior? E se esse homem também grita por qualquer coisa como uma gralha neurastênica? Bem, nesse caso não é uma relação nova: é a mesma, com outro ator.

É fato: pisaremos nas minas terrestres uns dos outros, haverá explosões e estilhaços, mas o que quer que aconteça entre um casal resultará da intenção de acertar – e ter consciência disso é o pulo do gato da vida a dois. Quando se ama, os erros são inocentes. Não foi por mal que ele esqueceu o aniversário dela, não foi de propósito que ela pôs alvejante nas toalhas pretas. Psicanalistas dirão que não é bem assim, que há muitos atos falhos expondo o estofo dos nossos desejos, mas até Freud compreendeu que às vezes um charuto é apenas um charuto.

A priori, no amor tudo é feito com um bom propósito, até os erros. Claro, há exceções e elas ficam por conta de quem está vivendo uma relação abusiva (ou eu deveria dizer, quem está morrendo numa relação abusiva). Nesse tipo de envolvimento há dois responsáveis, mas só um culpado: só uma das partes fere com o intuito de ferir. Em todos os outros casos, porém, é um alívio e uma alegria saber que o outro errou com boa intenção, saber que basta uma conversa tranquila para que o terreno em que aquela mina explodiu seja limpo, aplainado, arado, fertilizado, florido. Desse modo, onde antes havia bombas e destroços, surgirá um jardim necessária e deliciosamente cultivado a quatro mãos.

 

O que ela tem que eu não tenho?

Quando a nova namorada dele sentou bem ao meu lado no salão de beleza, eu me senti humilhada. O que ela tem que eu não tenho?

Ela nunca soube da minha existência. Está aí uma vantagem em não postar nada nos perfis pessoais da internet: ninguém sabe com quem eu fico ou deixo de ficar, em contrapartida eu vejo o que acontece na vida de quem me interessa. E ele me interessa. Por isso sei quem é ela e ela não sabe quem fui eu. Essa criatura conquistou em tempo recorde o posto de namorada que por um ano eu desejei. O que ela tem que eu não tenho?

Eu o convidei para ir ao cinema, o convidei para jantar, o convidei para ir ao parque, a shows, exposições, palestras… e nada. Ele só me encontrava para transar. O que ela tem que eu não tenho?

Para que ele saísse comigo (ou melhor, entrasse em mim), havia um roteiro que eu deveria encenar. Desde que já houvesse passado um mês do nosso último encontro, eu inventava alguma frase para iniciar a conversa, repetia uma dança de lugares-comuns e, por fim, perguntava se ele queria passar a noite comigo. Nunca foi fácil, nunca foi mais do que uma vez por mês e ele nunca realmente passou a noite comigo. Dormir era intimidade demais. Quando os passarinhos começavam a cantar, ele se vestia para ir embora. O que ela tem que eu não tenho?

Levei um susto quando vi as fotos do romance na internet. Ele nunca tirou uma foto comigo. De mim, já. Comigo nunca. Na tela estampavam-se para o mundo mais do que fotos: havia comentários de amigos, primos, sogra. Aquilo era namoro! A fim de ter uma confirmação positiva dos seus lábios, encenei a tal conversa mensal como se não suspeitasse de nada e, após a dança de sempre, quando o convidei a me ver, ele disse que adoraria, mas estava namorando. O que ela tem que eu não tenho?

Decidi ouvi-la. Fingi que prestava atenção na TV e fiquei ali, recolhendo dados a fim de matar minha dúvida: o que ela tem que eu não tenho?

Foi um suplício, mas até conversei com ela. Ao fim de quarenta minutos em que fizemos as unhas lado a lado, encontrei as respostas.

O que ela tem que eu não tenho? Burrice.

O que ela tem que eu não tenho?  Vulgaridade.

O que ela tem que eu não tenho? Arrogância.

O que ela tem que eu não tenho?  Tagarelice. Tagarelice. Tagarelice.

O que ela tem que eu não tenho? Insensatez.

O que ela tem que eu não tenho? Dependência.

O que ela tem que eu não tenho?  Possessividade.

O que ela tem que eu não tenho? Um homem que definitivamente não me merece.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia

Numa estrela pode brilhar com o coração partido (uma crônica de amor rasgado)

Você nunca saberá que eu fiquei petrificada naquele banco à sua espera muito depois de você ter dito que não viria. Você nunca saberá da saudade com que eu te esperava e do destino dessa saudade agora sem porto.

Você nunca saberá que tenho esfregado minhas costas contra o asfalto selvagem na esperança de que asas brotem em meio à carne viva e me tirem daqui.

Você nunca saberá que não há ninguém no mundo que eu queira mais abraçar de novo do que você e que não há ninguém no mundo que eu tema mais abraçar de novo do que você.

Você nunca saberá da noite de desespero em que me sentei no chão, debaixo de uma tempestade gelada de raios e ventos, nunca saberá que a luz acabou, que um gerador gemia de vez em quando no fim do quarteirão com sua claridade verde espectral, que os raios brancos e tortos como veias me faziam ver que o mundo ainda estava lá, apesar de eu mesma duvidar de que estivesse, e de que ali, sob a chuva, por muito, muito tempo eu implorei a Deus para que tirasse você de dentro de mim.

Você nunca saberá que ouvir Hozier é uma faca com a qual eu voluntariamente me estripo todos os dias e que nessa faca está escrito seu nome.

Você nunca saberá que comprei uma árvore de arame e luz. E que agora retorço seus galhos tentando recriar a forma da árvore sob a qual nos beijamos a primeira vez.

Você nunca saberá que vi “Stardust” e em qual parte chorei. Nunca saberá que “sim, eu sei que o amor é incondicional; mas também sei que ele pode ser imprevisível, inesperado, incontrolável, insuportável”. Nunca saberá que, apesar de nenhuma estrela poder brilhar com o coração partido, eu estou fazendo o melhor que posso. Nunca saberá o quanto eu lamento por você e por todos os homens que não escolhem as mulheres-estrelas.

Você nunca saberá que antes de morrer, na última lufada que meu peito expelir, quando eu estiver definitivamente vazia de oxigênio, quando houver apenas uma vitalidade infinitesimal no meu corpo sem ar, será em você que eu irei pensar, será por você que eu condensarei minha última umidade humana e derramarei a última lágrima quente.

Você nunca saberá que continuarei a te procurar debaixo da terra fria. E que meus cabelos crescerão como raízes e seguirão crescendo século após século, até te encontrar de novo. E quando isso acontecer, meus fios cansados sentirão os seus cabelos famintos em busca de outra mulher. Você nunca saberá, mas vai continuar a me ferir e a me abandonar e a me assombrar para todo, todo o sempre.

(Não deixe de ver o vídeo: há uma mensagem fundamental nele).

Uma fórmula diferente para o ano novo

Agora você pode parar de fingir. Aqui não é o Facebook ou o Instagram, não é seu escritório, não é a festa de família em que primos se veem apenas uma vez por ano, não são seus amigos sociais: aqui é sua escritora favorita (ao menos, a favorita de hoje) e comigo você pode respirar.

Escritores, quando têm alguma decência, fazem isso: através do seu trabalho, ficcional ou não, descerram a realidade, te aproximam dela, te aproximam de você, às vezes suavemente, às vezes num susto.

A crônica de hoje é para quem está preso num sarcófago que o isola de si mesmo e, por consequência, da vida abundante que existe, dentro e fora. Em medidas diferentes, todos nós estamos nesse sarcófago, uns mais, outros menos. Portanto, repito: aqui você pode parar de fingir.

E, para isso, eu tenho uma fórmula de presente. Sim, uma fórmula, uma simpatia, uma provocação, chame-a como quiser. Vamos lá?

Você vai baixar, alugar, emprestar ou comprar a trilogia de “O Poderoso Chefão”. É fundamental que você veja os três filmes em sequencia e em silêncio. Se puder fazer isso de madrugada e sem ninguém por perto, melhor ainda.

É provável que você já tenha visto um ou todos os filmes, mas dessa vez você os assistirá com um olhar diferente: você irá prestar atenção não nos crimes, não na brutalidade, não nas traições, você irá ver apenas a contenção de Michael Corleone. Sua brutal contenção. E vai perceber que todos nós, em medidas diferentes, somos como ele, o homem que dois minutos antes de sofrer um infarto (na verdade é uma crise de diabetes, mas parece um infarto) sussurra ao seu sobrinho: “Nunca deixe ninguém saber o que você está pensando”. Pois é. Estamos todos fazendo um ótimo trabalho, não? Estamos seguindo as lições do mafioso: ninguém sabe o que pensamos. Nem nós mesmos.

No silêncio que desperta, você chegará ao fim da trilogia. Chegará até o momento em que Michael Corleone, com um acúmulo de dores graúdas (dores engendradas por ele mesmo), finalmente, dá um grito. Um único, absoluto e profundo grito de desespero.

Tome fôlego e grite como ele. Grite, escreva, fale, se ajoelhe, ligue, aceite, vá, volte, peça, impeça, implore, diga, procure, perdoe, ouse se abrir…  Talvez do outro lado haja alguém esperando por esse seu grito para gritar também e, a partir daí, construir uma nova tessitura nas relações do dia a dia. De alguma forma, grite! Por favor, não espere tanto quanto Michael Corleone.

Quem é você na travessia do lago?

Quem é você na travessia do lago na Quinta da Regaleira? Será inevitável que você descubra. Do que eu estou falando afinal? Calma, eu explico. Após explicar, porém, quero que você me dê a resposta mais sincera que seu ego permitir. Temos um acordo?

Muito bem. Em Sintra, Portugal, existe uma parada turística das mais surpreendentes. Nem vamos chamar de ponto de turismo, pois isso fazem os que não têm olhos de ver: a Quinta da Regaleira é uma experiência. Repito devagar, pois é preciso: a Quinta da Regaleira é uma experiência!

Para vivê-la o mais plenamente possível, recomendo que se escolha a visita guiada, em que profissionais mais do que preparados vestem os nossos passos com uma síntese do conhecimento humano: ciência, filosofia, religião, arquitetura, astronomia, sincretismo, botânica, história, literatura, maçonaria, mitologia, etc.

A Quinta, ideia do brasileiro Antônio Carvalho Monteiro que contratou o arquiteto Luigi Manini, é um complexo de edificações com significados ocultos ao primeiro olhar (e muitas vezes ao segundo também). Temos ali a Gruta da Leda, da Virgem, do Oriente, do Labirinto, o  Palácio, o Portal dos Guardiães, a Fonte da Abundância, a Torre, a Oficina das Artes… e o Poço Iniciático.

Imagine um imenso fosso circular esculpido no meio da rocha, ladeado por uma escada em espiral na qual se desce até o fundo, onde não há água lodosa, mas uma rosa dos ventos. Após chegar ao fundo do poço (um símbolo para a morte, ou melhor, para o esgotamento absoluto de uma situação), seguimos por um túnel até o lago. E para atravessar esse lago é preciso andar sobre as águas. Como? Através de um caminho de pedras estrategicamente colocadas: ao pisar nas primeiras você apoia as mãos na parede da gruta, depois é por sua própria conta, risco e equilíbrio. Ali temos o desafio que, uma vez vencido, leva ao renascimento, a um novo começo. (Importante dizer que caso você não se sinta seguro é possível fazer outro caminho, basta avisar o guia.).

E lá estava eu, após o fim do poço da morte, após o túnel do purgatório, olhando para o Lago do renascimento. Equilíbrio físico não é minha mais sólida característica: eu já torci os tornozelos tantas vezes que perdi as contas, fraturas também foram várias. Ainda assim, eu decidi atravessar o lago através das pedras. São poucas, não deve ser tão difícil, pensei. Vamos lá! Primeira, segunda, terceira, tudo bem, segui apoiada na parede da gruta. Nas últimas pedras porém, sem qualquer apoio ao redor, eu me desequilibrei. O frio era enregelante e úmido. Uma onda de adrenalina esquentou meu corpo, especialmente o peito e o rosto. Nesse momento, em vez de parar numa das pedras e recuperar o equilíbrio, mesmo que de forma precária, pois elas são pequenas, eu fiz o contrário: acelerei de modo a chegar o mais rápido possível do outro lado.

Todos os passos incertos que dei sobre essas pedras gritaram que eu estava prestes a cair no lago gelado – e me molhar, nessa situação, seria o menos pior que poderia me acontecer. Foi então que, naqueles poucos segundos na saída do Poço Iniciático, eu descobri quem sou, ou melhor dizendo, descobri uma parte insuspeita de quem eu sou. Sou uma criatura imprudente que, diante do perigo, se deixa dominar pelo desespero e toma decisões temerárias. Exagero? Nem um pouco. Com os tornozelos incertos que eu sei que tenho, não seria melhor pedir ao guia que me mostrasse o outro caminho? Minha experiência na Quinta da Regaleira seria menos impactante e lisérgica por conta disso? (Sim, aquele é um lugar lisérgico). Claro que não. Todavia, quando uma encruzilhada se apresentou, eu escolhi a impulsividade adolescente e o desespero do improviso incerto.

O fato de não ter caído não tornou a experiência um sucesso porque eu realmente quase caí. Eu, que me julgava prudente, fiquei surpresa com o que o espelho dessa experiência me mostrou.  Agora me diga: e você? Não é preciso estar aqui em Sintra para pensar nessa resposta. Quem você é na travessia do lago na Quinta da Regaleira?

Todas nós somos Blanche Dubois

Você conhece Blanche Dubois? Não? Nesse caso, preciso urgente te apresentar à famosa personagem de Tennessee Williams. A razão é simples: eu sou Blanche, você é Blanche, todas nós somos, em alguma medida, essa mulher que mergulha no desejo como oposição à morte, que foge da luz da realidade tanto quanto da luz física que expõe em seu rosto a desesperadora passagem do tempo, que toma banhos como Lady Macbeth lava as mãos, que sempre dependeu da bondade de estranhos, que vê as coisas como elas deveriam ser e não como são, essa mulher que inventa seus amores, que os veste de encantos e qualidades que eles jamais tiveram, que se dedica tão freneticamente a tal invenção que está à beira de um colapso absoluto.

Blanche é tão grandiosa que já foi interpretada por Jessica Tandy, Vivien Leigh, Eva Wilma, Maria Fernanda, Ann-Margret, Glenn Close, Leona Cavalli, Natasha Richardson, Cate Blanchett, e recentemente foi trazida à luz de forma emocionante, visceral e estupenda por Maria Luísa Mendonça. Pausa para as palmas. Muitas!

Blanche

Antes de continuar é preciso que você conheça a história de “Um bonde chamado desejo”. Atenção: mil spoilers a seguir!

Stella Kowalski está grávida e perfeitamente adaptada a uma vida sem luxos, mas repleta de desejo, junto ao marido, o cafuçu-tesão Stanley Kowalski, quando sua irmã, a sofisticada e coquete Blanche Dubois, chega falida, de mala e cuia. Os três passam assim a dividir um pedaço de cortiço: intimidade, raiva, orgulho, culpa, medo e desejo de sobra, privacidade nenhuma.

Esse convívio é demais para Blanche, que acaba por enlouquecer no final. Muitos sustentam que ela perde a razão já instável depois que o cunhado machão a estupra. Mas ela rompe com a realidade de vez quando Mitch, um namorado e pretendente a marido, rompe com ela. Não é, portanto, a brutalidade de Stanley Kowalski que retira sua última esperança de sanidade e amparo, mas sim o abandono de Mitch. Eis o maior dos medos femininos: o abandono.

Apenas com Mitch ela alcança dois preciosos momentos de contato com a realidade, da qual sistematicamente fugia. No primeiro deles, após um passeio, Blanche, que é viúva, conta a Mitch sobre seu casamento com um jovem gay, o flagrante sexual, o suicídio dele e, deixando de lado qualquer manipulação para seduzi-lo, desabafa que depois de perder o ex-marido, que era seu sol, nunca mais houve outra luz em sua vida que fosse mais forte que uma pobre luz de vela. Mitch então propõe que ambos unam suas solidões e fiquem juntos. É uma cena tocante e repleta de esperança.

Havia a possibilidade de que uma relação verdadeira fosse construída entre Blanche e Mitch, seriam então dois náufragos que conscientemente se agarrariam um ao outro, reverenciando com serenidade esse modo de sobreviver. Stanley, porém, furioso com Blanche, que costuma expor a diferença de estirpe que há entre ele e as irmãs Dubois, conta a Mitch tudo que descobre sobre o passado dela, o que gera o rompimento.

O segundo contato de Blanche com a realidade, através de outro encontro com Mitch, se dá quando ele não aparece em seu aniversário e, depois que a festa amarga termina, ele chega bêbado, exigindo vê-la sob a luz, exigindo aquilo que ele não teve todo o verão, querendo chegar às vias de fato. Blanche diz que, sim, teve muitas intimidades com estranhos depois do suicídio do marido. “Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro.” Depois, ela pede, “case comigo, Mitch!”, mas ele retira sua última esperança de proteção, ele fecha a última fenda na rocha do mundo na qual ela poderia se abrigar, dizendo “você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe”, e é aí, nesse exato ponto, que ela perde de vez o contato com o real. Quando Stanley chega da maternidade na qual deixou Stella internada à espera do bebê, encontra Blanche já em surto, travestida como em um carnaval romântico.

Havia um pássaro caindo com ambas as asas quebradas: esta é a Blanche que o estilingue-estupro de Stanley atinge. Um pássaro já ferido de morte e em franca queda ao abismo.

Blanche Dubois é mais do que uma boa personagem: ela é um riquíssimo arquétipo feminino. Eu chegaria mesmo a dizer que Blanche e sua irmã Stella abarcam todos os aspectos do feminino romântico porque, enquanto Blanche escolhe a fantasia, Stella, ao contrário, cavalga e domina o real. E nessa mesma gangorra nos debatemos nós, mulheres modernas. A sorte é que nossos destinos não estão traçados desde o início, como o de Blanche: nós ainda podemos escolher não a fantasia que enlouquece, mas a realidade que estrutura.

 

Homem com pegada

 

Obs.: Essa crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Sempre que ouço a frase “homem de verdade tem de ter pegada”, repetida à exaustão em bares e aplicativos de paquera ou em qualquer esquina em que o assunto seja ventilado, me pergunto: mas afinal o que é um homem com pegada?

No senso comum, homem com pegada é um cara que pega a mulher com força na hora do sexo. Hum, isso me parece moleque contando vantagem das suas falsas conquistas para os primos mais novos. Muitos meninos crescem ouvindo conselhos estúpidos de primos ou amigos mais velhos como “pegue na cabeça dela e a force a engolir seu pau: ela vai pirar!”. Não, a gente não pira. E o quanto de força se usa no sexo é algo muito pessoal, uma sintonia fina, uma descoberta que se faz a dois com cuidado e não uma receita popular.

Sabe o que é um homem com pegada para mim? Homem com pegada é aquele que te pega no colo quando você precisa – e quando não precisa também.

Homem com pegada pega um dente de leão num canteiro à beira do caminho porque sabe que você gosta de assoprá-los; pega na sua cintura para te proteger na multidão, pega um resfriado porque te agasalhou com sua jaqueta quando a tempestade caiu.

Homem com pegada pega sopa fumegante na padaria para te aquecer no inverno, pega pão com mortadela porque é gostoso subverter o jantar, pega picolé de fruta para te refrescar no calor.

Homem com pegada pega os filhos na escola, pega os edredons na lavanderia, pega o carro pra te buscar na porta do metrô em dias de chuva.

Homem com pegada pega nos seus cabelos para fazer cafuné, pega nos seus ombros para fazer massagem, pega no seu rosto para assoprar um cisco que te incomoda.

Homem com pegada, no sexo, sabe como, quando e com quem pegar fogo – e pega!

Sobretudo, um homem que verdadeiramente tem pegada não precisa fazer alarde das suas qualidades: ele simplesmente é.

Mulheres que marcam os homens

Obs.: Este texto pertence ao livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia. Minha amiga Mariana Xavier fez uma linda leitura desta crônica (que fiz para ela). Deixo aqui o link para que vocês vejam a versão dela e a minha.

Eu sei que você não vai ficar comigo. Porque há mulheres que marcam os homens e há mulheres que ficam com eles – e eu pertenço ao primeiro time.

Ouça minhas palavras como uma profecia – porque é exatamente isso que elas são. Você sairá com uma sequência de moças bonitinhas que provocarão em você apenas decepção e tédio. Nenhuma delas – lembre-se, isso é uma profecia –, nenhuma delas causará as sensações que eu causei. Você procurará minha boca em todas elas, minha pele em todas elas, minha umidade eterna em todas elas, meus gemidos em todas elas, sem encontrar. Você irá achá-las sempre pouco estimulantes, pouco voluptuosas, pouco ativas, pouco criativas, pouco carnudas, pouco macias, pouco soltas, pouco inteligentes, pouco tudo. Elas serão sempre menos do que você espera – porque elas não são eu.

Mas nem tudo está perdido: qualquer uma delas pode ser cômoda o bastante para ficar com você. Eu posso te ver dentro de cinco anos numa sala com sua TV imensa e sua esposa mansa com quem você terá um sexo honesto e confortável. E, tão claro quanto vejo minhas mãos agora, posso ver que você vai sonhar comigo enquanto dorme com ela.

Nas suas insônias, que serão muitas – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai pensar o que aconteceria se você tivesse ficado comigo e para quais lugares teríamos viajado juntos e quantas coisas novas teríamos aprendido e quantos bons-dias teríamos nos desejado um dentro do outro.

Sua fome por mim amanhã será maior que o seu medo hoje, bem maior. Nessas horas e em muitas outras – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai desejar me escrever, me ver, ter alguma resposta minha, mas já será tarde para isso.

Porque há mulheres que marcam os homens e há mulheres que ficam com eles – e eu pertenço ao primeiro time. E você, ao time dos que não são viscerais o bastante para quebrarem tolas maldições e amargas profecias.

 

A tortura pela esperança

Talvez nenhum sentimento seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é ela que faz com que sigamos em frente todas as manhãs. No entanto, a esperança também pode ser uma tortura – e uma tortura muito comum no amor romântico. Para explicar isso melhor, preciso contar uma história.

O escritor francês Villiers de L’Isle Adam (1838-1889) criou um conto estupendo sobre o tema usando sua refinada e cruel ironia. O título não poderia ser mais claro: “A tortura pela esperança”. Nele, um Inquisidor espanhol visita, na masmorra, o rabino Aser Abarbanel, que, há mais de um ano, vinha sendo torturado pela Santa Madre Igreja.

O Inquisidor, num momento de agudo sarcasmo, diz que ele mesmo sofre demais ao brindar o acusado com os rigores da tortura, tortura cujo objetivo é conduzi-lo ao caminho do Senhor. Como seus esforços foram inúteis, no dia seguinte o rabino Aser Abarbanel será queimado vivo.

Após o longo discurso (de fazer inveja a qualquer psicopata), o Inquisidor sai da masmorra, deixando atrás de si a porta mal fechada. Eis uma chance para o rabino escapar! Com o corpo crivado de feridas e fraturas, o prisioneiro se arrasta por um longo corredor até alcançar a liberdade. Ao se ver num jardim perfumado, sob a proteção das estrelas, Aser Abarbanel estende os braços e ergue os olhos aos céus em agradecimento. Todavia, nesse instante, alguém o abraça: é o Inquisidor! O rabino então compreende que ele havia acabado de passar pela mais terrível das torturas: a da esperança.

Você sabe bem o que é isso. Após ouvir palavras tão lindas, tão amorosas, tão balsâmicas para o seu coração, você se deita sorrindo, aquele sorriso contínuo que não conseguiriam tirar do seu rosto nem sob uma máscara de ferro. Você dorme acreditando que finalmente sua alma saiu daquela marquise suja sob a qual você tentava sem sucesso se abrigar da garoa e do vento gelados da solidão. Você acha que ganhou um cobertor quentinho, uma cama, um quarto protegido, um endereço emocional e que nunca mais, nunca mais irá sentir frio.

Dias depois, ao encontrá-lo novamente, você alegre, você ingênua, você apaixonada, lê um poema que separou com ternura, lê aberta como uma flor descuidada, flor sem cerca, sem arame farpado. Ao ouvir suas palavras sobre o mar, porém, ele se lembra de areia e cascalhos; ao ouvir sobre o pólen fecundo, ele fala da devastação definitiva do deserto; ao ouvir perfumes, ele te chama para um rio Tietê de dúvida e opacidade. E, assim, ele repudia o seu afeto.

Está doendo um tanto mais agora, eu sei, porque você estava repleta da seiva da esperança. Mas calma, querida, vai passar. De fato, a esperança é a última que morre, mas morre – para renascer mais lúcida em outro endereço.

Obs.: Este texto pertence ao livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Fuja da sua loucura de estimação! (De Profundis)

Ao reler esta semana “De Profundis”, a longa carta que Oscar Wilde escreveu no cárcere ao seu amante, eu fiz algo insólito.  A cada página lida, eu a arrancava do livro e a rasgava. Sim, rasguei todas elas, uma por uma. Meu “Obras completas” está para sempre mutilado – e eu sinto um grande alívio.

A causa da ruína, prisão e morte prematura do escritor aos 46 anos foi apenas uma: ele se rendeu à sua exigente loucura de estimação, que atendia (desde que lhe acenassem com dinheiro) pelo nome de Alfred Douglas. Exigente, para dizer o mínimo. Se bem que todas as loucuras de estimação pedem muito e se doam pouco. Que digo? Não se doam absolutamente.

Você também deve ter uma loucura de estimação. Aposto que você queria isolar o exato instante em que ele ainda te desejava. Queria retroceder ao momento em que, trepada nas raízes ossudas de uma árvore a fim de ficar com a mesma altura dele, você o abraçou pela primeira vez. Enquanto seus cabelos se misturavam, você soube que estava perdida. Ou foi depois? Foi quando ele se despiu das roupas e seu olhar vazio meteu-se em você como uma faca nova? Quando você soube que estava perdida? Houve um momento em que você soube.

Não existe nada mais difícil do que se manter afastada de uma loucura de estimação: se afastar é fácil, já se manter afastada é a prova suprema. Porque, apesar de essa criatura não te amar, de ela não te querer e de todos os enganos que você vê, ainda assim estar sob o seu jugo aflito é o que você mais deseja.

Loucura de estimação é uma doença afetiva da qual você não consegue se curar, uma paixão sem tréguas, um vício agridoce que te alimenta e te devora. É como mergulhar num pântano lisérgico: você supõe estar no paraíso, mas basta respirar fundo para descobrir que está no lodo – e completamente sozinha. É como sofrer da Síndrome de Estocolmo: o homem que abusa de você, que te manipula, que se serve de você quando quer, que não te dá nada, que não se dá de modo algum, que te mantém prisioneira, é justamente o homem que você quer.

A loucura de estimação emite mensagens contraditórias e te sustenta com migalhas. Os suplícios que essa pessoa te inflige se baseiam em te dar cada vez menos alimento para ver até quando você consegue se manter de pé. Ou de joelhos.

Por isso eu rasguei as páginas do “De Profundis”. Parece uma reflexão sobre a dor e a arte, parece uma forma diferente de pensar os Evangelhos, parece o testamento furioso e melancólico de um injustiçado, mas é apenas o lamento de um amante pedindo à sua loucura de estimação que volte, que escreva, que o machuque, que o engane, que o assombre.

Rompa esse relacionamento destinado ao aborto eterno, esse fígado de Prometeu todos os dias reconstituído à espera do predador, e fuja o quanto antes! Fuja de um jeito heroico ou humilhante, não importa como, apenas fuja! Abandone essa luta: uma loucura de estimação só pode te destruir e te causar dor; muito mais dor que prazer, infinitamente mais dor que prazer. Não escreva seu próprio “De Profundis”. Só por hoje, fuja!

Obs.: Esta crônica pertence ao livro “Loucura de Estimação” da e-galáxia.