O que é a cultura do estupro?

Você está confusa quanto à expressão “cultura do estupro”? Vamos resolver isso já!

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A palavra cultura vem do latim e significa “cultivar”. Uma cultura do estupro, portanto, significa o cultivo de ideias, palavras e atitudes que mantém esse tipo de violência.

É claro que a maioria do povo brasileiro repudia o estupro, no entanto, sem perceber, cultiva no seu dia-a-dia valores e práticas que o mantém: isso é cultura do estupro, filha do machismo.

Uma dúvida, porém, surge: como pode o machismo ser o pai da cultura do estupro se uma parte das vítimas é feita de meninos e homens? A resposta é simples e triste: seja quem for o agressor, ele submete a vítima, a viola, a invade, a expõe, a humilha, colocando-a, de acordo com os valores machistas, na posição de mulher (ou, como se diz vulgarmente, “mulherzinha”).

É importante lembrar que estupro não é sexo (para isso deve haver consenso). Estupro é violência, é o domínio de um ser sobre outro – e esse outro pode ser um menino de 7 anos, uma mulher de 49, um rapaz de 18, uma moça trans de 25, uma adolescente de 16, pode ser alguém de qualquer idade, gênero, orientação sexual ou classe social.

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Há muitos anos eu recebo desabafos de incontáveis leitoras e alguns leitores quanto aos seus dramas secretos. Após o lançamento de “Eu me possuo” (Panda Books, 2016), um romance sobre superação de um estupro e empoderamento da mulher, esses relatos se multiplicaram em volume e intensidade. Posso dizer, sem medo de errar, que se todas as vítimas de estupro fossem marcadas por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, não haveria mais noite no mundo. Eu exagero? Pareço falar de uma epidemia?  Não há exagero algum. Já estamos vivendo uma epidemia – e uma das mais violentas porque coberta pelo medo e silêncio.

De acordo com Anuário Brasileiro de Segurança Pública, atualizado em outubro de 2015, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil (apenas 1% desse total resulta em condenação do agressor). Já de acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os estupros que chegam a ser denunciados representam apenas 10% do total.

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O silêncio da maioria das vítimas é a prova da existência de uma cultura do estupro. Sua mais forte característica é distorcer os fatos para colocar, sempre, a culpa na vítima.

Como então desmontar essa cultura? Punindo. Educando. Refletindo. Vigiando. Conversando com firmeza e serenidade – os melhores argumentos, se usados com fúria, acabam por provocar mais raiva. É preciso que nossos meninos sejam criados não só para respeitarem as meninas, conhecidas ou estranhas, mas também para as protegerem caso elas estejam numa situação vulnerável. É preciso que os homens se libertem do machismo, em primeiro lugar, em benefício da sua própria saúde física, emocional e psíquica (recomendo vivamente o documentário “The mask you live in” sobre o quanto o machismo oprime e maltrata meninos e homens). É preciso que as meninas tenham autoestima e credibilidade. Enquanto nosso “não” for ignorado e nosso “sim” for condenado, haverá muito trabalho a ser feito! O primeiro passo é esse: acordarmos.

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Blackbird (de “O livro branco”)

Publicado em “O Livro Branco”, 2012, Editora Record (coletânea de textos inspirados nas canções dos Beatles), organizado por Henrique Rodrigues.

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Blackbird singing in the dead of night, take these sunken eyes and learn to see. All your life, you were only waiting for the moment to be free.

A pergunta que mais me fazem, tantos anos depois, continua sendo a mesma: o que eu senti quando arranquei meus olhos? Não apenas não me furto a respondê-la, como o faço com toda tranquilidade: não há medo na minha resposta, como não houve medo no meu ato.

Soube de teses que escreveram me associando à figura mítica de Édipo, como se a realidade ao meu redor fosse monstruosa demais para que eu continuasse a enxergá-la. Embora isso faça sentido, não foi algo tão racional e encaixado que me fez caminhar em silêncio até minha casa, pegar a pequena faca de cozinha sempre afiada, voltar até o monturo em que jogaram o corpo injustamente violado da minha filha e, com uma suavidade de anestesia, arrancar meus próprios olhos.

Não me preparei para praticar tal ato em público e ser, como de fato fui, filmada e fotografada em todos os ângulos possíveis, para horror da mídia internacional e dos órgãos de defesa dos direitos humanos, a fim de dar voz a minha tragédia. Não! Se ali, naquele momento, havia um tumulto com visibilidade global ou um isolamento de caverna funda, a mim, pouco importava. Eu apenas tinha de ver mais uma vez o corpo morto da minha filha e purgar em mim aquela dor imensa, caso contrário não conseguiria viver nem mais um instante.

O que senti, portanto, ao arrancar meus olhos foi um imenso alívio. Não houve dor. Nem mesmo quando, no hospital, descarnaram minhas órbitas para evitar infecções. Nada poderia doer mais do que perder minha filha numa cerimônia injusta e desumana como é o estupro coletivo. Minha pequena menina morreu durante a barbárie, mas das meninas que sobreviveram, das meninas que ainda sobrevivem, a maioria acaba por se suicidar: a vergonha é sua sentença de morte.

Mas por que vergonha? Vergonha de ser uma vítima absoluta? Um cordeiro imolado a nenhum Deus? Vergonha por ser tratada indignamente como um objeto de posse, de honra ou de vingança? Esse foi o grito cego que atravessou o mundo e me trouxe até aqui, nesta noite, para receber este prêmio: a vergonha, meus amigos, quem deve sentir são esses homens bárbaros, são os mantenedores desses costumes bárbaros, são os que se calam diante desses costumes bárbaros, são os coniventes com esses costumes bárbaros, estejam eles no Paquistão, na Inglaterra, no Marrocos, na Holanda, na China, no Quênia ou aqui na Suécia.

No ano em que minha filha morreu, outras 792 moças inocentes foram sentenciadas ao estupro coletivo no meu país por disputas materiais ou morais entre seus maridos, pais, irmãos, primos, tios e até vizinhos. A coisa se dá de forma muito simples: um homem se incomoda com uma cabra que invade seu quintal ou com um menino de casta inferior que olha de soslaio para sua filha. A briga degenera em questão de honra. A questão de honra é levada à jirga, sistema tribal de justiça com suas próprias regras, incompatível com a com a lei comum (cara e acessível a poucos) e com a religião (que muitas vezes se submete à força dos chefes tribais). Desse modo, por causa da cabra vadia ou do menino sutilmente curioso, uma mulher da família ofensora deve pagar. Seu nariz será arrancado ou ácido será jogado sobre seu corpo virgem ou alguns dedos serão extirpados de suas mãos diligentes ou ainda (eis a punição preferida) a mulher indicada para o sacrifício será submetida a um estupro coletivo, num local escuro para que a vítima não identifique jamais seus algozes, sendo, depois do ato, seu corpo brutalizado e seminu exposto, vivo ou morto, em frente à turba delirante. As mulheres que suportaram tal vergonha, que escaparam do suicídio e procuraram a justiça legal, foram assassinadas por sua ousadia.

Eu não tenho medo e meu cajado não me consola. A única coisa que me faz seguir de tribo em tribo, vila em vila, cidade em cidade, país em país, a expor tão sórdidas misérias é gritar por quem não tem voz. Se hoje os estupros coletivos no meu país caíram de 804 por ano para ainda indecentes 272, número que me causa vergonha e repulsa, se há um decréscimo dessa barbárie em todo o mundo, se isso pode ser comemorado, estou certa de que vocês compreenderão o porquê de minhas mãos não levantarem a taça do brinde. Não esta noite. Não ainda. Embora caminhemos para isso, ainda não estamos livres, não somos senhoras e autoras do nosso destino, nem mesmo das nossas desgraças.

Quando meus olhos naufragaram na minha dor, quando arrancá-los se tornou um ato político, eu aprendi a ver muito mais longe. E enquanto houver um grito, um único grito abafado que seja na noite paquistanesa, eu vou continuar cumprindo meu voo cego de clarividente, vou continuar cantando através da escuridão, dessa escuridão que é toda, toda nossa.

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Lançamento de “O Livro Branco”, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, 2012: Simone Campos, Zeca Camargo, Henrique Rodrigues, André de Leones, Stella Florence e Felipe Pena.

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Não suportamos ser plateia.

Você descobre que seu artista preferido fará um show na sua cidade, corre para comprar o ingresso e, toda feliz, acessa a playlist com as canções que você adora a fim de antegozar o prazer que terá ao vivo e em cores. A experiência só pode ser incrível, certo? Hum… não exatamente.

Ao sair de casa para assistir a qualquer espetáculo é preciso considerar que, no mínimo, metade do seu prazer não virá do artista, mas da plateia na qual você mergulhará. Sua sorte estará nas mãos de estranhos que podem transformar sua noite no que eles bem entenderem.

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Há alguns meses assisti ao show de Caetano Veloso e Gilberto Gil na turnê “Dois amigos, um século de música”. Prazer superlativo? No palco, sim. Do palco, também. Mas na plateia…  Ao observar o comportamento patético dos seres ao meu redor, percebi algo muito triste: não suportamos mais ser plateia, queremos o tempo todo ser protagonistas.

Eu me explico. Preciso, porém, voltar um passo.

Todos os vacilos de todas as plateias cabem nas palavras inadequação e egoísmo. Uma micareta pede um código de comportamento, já um sofisticadíssimo show de voz e violão, como aquele, pede outro. Parece óbvio – e é, mas a multidão não compreende o óbvio. A velha máxima de que o seu direito termina onde começa o do outro também costuma ser ignorada.

O que tivemos durante o show? Barulho. Atrasos. Mudanças de lugar. Conversas altas. Pessoas arrotando suas vozes desafinadas em orelhas alheias a todo volume, competindo – e muitas vezes ganhando em volume – com o som que vinha do palco (isso nos momentos em que os artistas não haviam pedido a participação do público e o show exigia ainda mais silêncio). Sujeira: pipocas, latas, papéis de doces, chicletes, farelos de pão, restos de frios, garrafas, copos, taças, baldes de gelo derretido. Parecia que uma turba de bárbaros viera das cavernas para aquele espaço, usando como escritura de posse a frase porca “eu estou pagando!”.

Foi então que chegamos ao auge: quatro mulheres a minha frente resolveram tirar uma selfie, com flash, e postar imediatamente no Instagram e no Facebook. Detalhe: o show não havia acabado! E, embora num grande teatro, estávamos num show intimista! Elas tiraram a selfie, repito, com flash, durante o show, fazendo com que Gil e Caetano se tornassem a plateia delas, plateia dos seus sorrisos postiços, da sua ridícula felicidade alcoólica que se esgotaria quatro segundos e meio depois que a foto fosse postada.

Em cada tela acesa, twitando, gravando, publicando, curtindo, lançando emojis ao mundo, havia uma não plateia, uma não sintonia com os artistas. O propósito não era registrar a coisa, mas se registrar na coisa. Empunhando celulares, havia egos inchados a ponto de não suportar o desfrute do talento alheio por sequer meia hora. Todos, para escapar de sua miséria íntima, precisavam ser protagonistas. Gil e Caetano foram apenas sua plateia.

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Gota D’água [a seco]: a mulher que precisa morrer em nós.

 

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O peso da história não falta à “Gota D’Água [a seco]”, mas não é sobre isso nem sobre metáforas sociais nem sobre a precisão das músicas de Chico Buarque inseridas na peça que vou falar aqui. Por eu ser apenas uma espectadora do teatro brasileiro posso rasgar meu peito sem totem de ambição para falar do cerne da peça: o amor perdido, a ilusão romântica, a energia que concentramos nos nossos homens e que termina por nos destruir.

Para que você saiba a que me refiro quando falo de história, aqui vai uma breve explicação: em 400 A.C., Eurípedes escreveu “Medeia” (minha tragédia grega favorita, na qual Medeia, abandonada por Jasão, que a troca por uma mulher mais nova e nobre, se enche de fúria vingativa e mata os dois filhos do casal, não permitindo que ele sepulte seus pequenos corpos); na década de 70, Oduvaldo Vianna Filho transportou esse clássico para os nossos dias encenando-o num programa da Rede Globo; em seguida, Chico Buarque e Paulo Pontes transformaram o programa em musical no teatro, em que Medeia/Joana  foi vivida pela soberba Bibi Ferreira. E agora…

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Agora o diretor Rafael Gomes, que, para nossa sorte, não tem medo de recriar clássicos (leia “Um bonde chamado desejo”), seca a peça restringindo-a (para ampliá-la) aos dois personagens centrais. Mas a secura do título me lembra mesmo as babas de amor que não existem mais entre Joana e Jasão: não há mais suor, saliva, umidades femininas, sêmen. Amor vivo é molhado, amor findo é seco.

Joana, como incontáveis mulheres, fez de Jasão sua obra-prima, se doou inteira, jogou toda sua energia em construí-lo forte (para bem poder amá-lo). Nem mesmo os filhos alteram esse foco: o homem amado é o esteio da sua vida, sua razão de ser. Sua força é concentrada no lugar errado: no outro. Faz todo sentido que Joana mate não só os filhos, mas, ao contrário da tragédia grega, mate também a si mesma no final: ao simbolizar a mulher que anula suas potencialidades imensas concentrando-as todas no homem, fazendo dele seu único ideal, ela precisava morrer. De fato, esse modelo de mulher precisa morrer em nós.

Assistindo à Joana no palco (interpretada pela estupenda Laila Garin), eu chorei pensando em todas as vezes em que nos damos amplamente aos nossos homens sem perceber que quando fazemos isso estamos matando, além de nós mesmas, também o amor que tanto prezamos. Num determinado momento, Jasão (o ótimo Alejandro Claveaux) diz que abandonou a esposa e mãe dos seus filhos não pelo dinheiro da nova companheira, mas porque Joana era intensa demais e ele queria sossego (na convivência do dia a dia, ele queria uma mulher submissa e opaca). Joana é intensa porque se concentrou toda no amor, se doou toda para Jasão, e isso, invariavelmente, sufoca o outro. Sempre.

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Há tantas cenas tocantes (como o monólogo de Jasão sobre as cadeiras fazerem os homens, a maldição de Joana tecida na macumba, o rolo de amarguras quanto à maternidade e o futuro dos filhos, os encontros do casal sempre recheados de verdade, fúria e desejo, as canções brilhantemente inseridas, como “Mulheres de Atenas” no final – palmas para a direção musical de Pedro Luís), há tantas soluções incríveis (como o cenário metálico móvel, a ampulheta gigante feita com um garrafão de água e areia, os muitos e simbólicos panos que vem e vão no figurino de Joana), há tanto amor ali, tanto talento e entrega que não ir ao teatro ver “Gota D’água [a seco]” (desde que você possa fazer isso) é optar pela cegueira.

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Uma frase me chamou especialmente a atenção (várias chamaram, mas minha memória coxa só conseguiu gravar uma): “A mulher é uma espécie de poltrona que se molda à vontade alheia”. Por isso é preciso matar Joana em nós. É urgente que a matemos. Temos de ser árvores: ampliar as raízes e sugar vitalidade de muitas fontes, espargindo pureza ao mundo inteiro, não a um único par de narinas que não quer e não precisa de tanto oxigênio.

 

Todas nós somos Blanche Dubois.

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Ontem encontrei dois gênios do nosso teatro: Rafael Gomes e André Cortez, respectivamente diretor e cenógrafo da peça “Um bonde chamado desejo” (uma paixão minha que eles materializaram de modo espetacular). Aproveito para postar o texto que escrevi há alguns meses sobre essa obra-prima. (Abaixo: Rafael Gomes, eu, André Cortez e Danielle Crepaldi Carvalho.)

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Acabo de comprar ingressos para ver de novo a peça “Um Bonde Chamado Desejo”, com Maria Luísa Mendonça dando vida brilhantemente a uma das mais importantes personagens do teatro, Blanche Dubois. A modéstia que vá para os diabos: eu conheço melhor do que a palma da minha mão essa peça, eu a estudei, a reli uma centena de vezes, escrevi um romance inspirado nela (“32”), portanto acredite em mim quando digo que Tennessee Williams, o autor, falecido em 1983, cujo rosto colossal, estampado num pôster, domina minha sala, aplaudiria essa montagem de pé. De pé e urrando: “Bravo”!

Preciso apresentar Blanche Dubois a você. Porque eu sou Blanche, você é Blanche, todas nós somos, em alguma medida, essa mulher que sempre dependeu da bondade de estranhos, que mergulha no desejo como oposição à morte, essa mulher que foge da luz da realidade tanto quanto da luz física que expõe em seu rosto a desesperadora passagem do tempo, que é julgada violentamente pela quantidade de homens que passaram por sua cama, que toma banhos como Lady Macbeth lava as mãos, essa mulher que inventa seus amores, que os veste de encantos e qualidades que eles jamais tiveram, que se dedica tão freneticamente a tal invenção que está à beira de um colapso absoluto.

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Blanche é mais do que uma boa personagem: ela é um riquíssimo arquétipo feminino. Eu chegaria mesmo a dizer que Blanche e sua irmã Stella (personagem vivido de forma impecável e emocionante por Virgínia Buckowski, comigo na foto abaixo) abarcam todos os aspectos do feminino romântico. Porque, enquanto Blanche escolhe a fantasia, Stella, ao contrário, cavalga e domina o real. Ela abandona a decadente propriedade de sua família, deixa Blanche cuidando dos parentes doentes, se casa com o cafuçu-tesão Stanley Kowalski e vai morar com ele num cortiço. Stella está perfeitamente adaptada a uma vida sem luxos, mas repleta de desejo, quando Blanche chega de mala e cuia, depois de ser expulsa da cidade em que vivia, graças a sua derrocada financeira, moral e psíquica. Stella, Stanley e Blanche passam assim a dividir um pedaço de cortiço: intimidade demais, privacidade nenhuma.

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Blanche, professora desempregada de literatura, romântica num nível além do prejudicial, de uma beleza agora madura que a desespera, nervosa, instável, senhora de frases absolutas, cuja vida se baseia em ver as coisas como elas deveriam ser e não como são: seu último recurso é viver com a irmã e o cunhado. Stella, grávida, apaixonada por seu marido cafuçu-tesão cujos limites ela conhece e aceita, tão presa à culpa por ter abandonado Blanche que a trata como uma criança mimada: entre dois amores tão distintos, a irmã e o marido, ela se divide como pode. Stanley, bruto, machão, provedor, orgulhoso, cheio de sexualidade viril, igualmente apaixonado pela esposa Stella, furioso com a cunhada Blanche, que o lembra minuto a minuto tudo o que ele não é, tudo o que ele não tem e, principalmente, tudo o que ele jamais será. O pavio está aceso e a gasolina é abundante.

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Palmas para o diretor Rafael Gomes (abaixo) não o conheço e já o amo. As pequenas adaptações na peça acrescentaram um tempero moderno e vital ao texto perfeito. (Atenção: spoilers a seguir). Usar a luz como fio condutor da loucura de Blanche, cujo ápice está num holofote que estupra seu rosto em surto no final da peça; fazer com que ela rode num sentido, enquanto Stella e Stanley rodam em sentido contrário é de tirar o fôlego e o chapéu! O cenário ao mesmo tempo amplo e claustrofóbico criado por André Cortez, o lindo figurino de Fause Haten, a iluminação exata (mais uma personagem, na verdade) de Wagner Antônio, a trilha sonora lisérgica: tudo está na medida certa, a serviço dessa montagem extraordinária.

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Vamos a um ponto delicado da peça. Muitos sustentam que Blanche perde a razão já instável por causa do estupro cometido por Stanley. Mas ela rompe com a realidade de vez quando Mitch (o ótimo Donizeti Mazonas, abaixo em cena com Maria Luísa), um pretendente a marido, diz que não se casará com ela por ela não ser limpa o bastante para entrar na casa de sua mãe. Então Blanche começa a gritar “fogo, fogo!” e enlouquece de fato. Não é, portanto, Stanley quem retira sua última esperança de sanidade, é Mitch.

Com Mitch, ela alcança dois preciosos momentos de contato com a realidade, da qual ela sistematicamente fugia.

 

No primeiro desses momentos, após um passeio, Blanche conta a Mitch seu casamento com um jovem gay, o flagrante sexual, o suicídio dele, e, deixando de lado qualquer manipulação para seduzi-lo, ela desabafa que depois de perder o ex-marido, que era seu sol, nunca mais houve outra luz em sua vida que fosse mais forte que uma pobre luz de vela. Mitch então propõe que ambos unam suas solidões e fiquem juntos. Ele, um homem sem fêmea numa sociedade de machos, inseguro, um homem dominado pela mãe e em vias de perdê-la. Havia uma esperança de encontro real ali – sem qualquer desejo da parte de Blanche, mas com a paz das almas vencidas.

 

Se esse momento tivesse se repetido haveria a possibilidade de existir uma relação verdadeira entre Blanche e Mitch, seriam então dois náufragos que conscientemente se agarrariam um ao outro, reverenciando com serenidade esse modo de sobreviver. Stanley, porém, conta a Mitch tudo que descobre sobre o passado de Blanche e, por conta disso, ele termina com ela. O destino de Blanche estava traçado desde o início: desde o início de sua vida, em que a fantasia foi sua companheira.

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O segundo contato de Blanche com a realidade, através de outro encontro com Mitch, se dá quando ele não aparece em seu aniversário e, depois que a festa amarga termina, ele chega bêbado, exigindo vê-la sob a luz, exigindo aquilo que ele não teve todo o verão, querendo chegar às vias de fato. Blanche diz que, sim, teve muitas intimidades com estranhos depois do suicídio do marido. “Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro.” Depois, ela pede “case comigo, Mitch!”, mas ele retira sua última esperança de proteção, ele fecha o último abrigo na rocha do mundo no qual ela poderia se esconder dizendo “você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe”, e é aí, nesse exato ponto, que ela perde de vez o contato com o real. Quando Stanley chega da maternidade na qual deixou Stella internada à espera do bebê, encontra Blanche já em surto travestida como em um carnaval romântico.

 

Havia um pássaro caindo com ambas as asas quebradas: esta é a Blanche que o estilingue-estupro de Stanley atinge. Um pássaro já ferido de morte e em franca queda ao abismo.

Bem antes do final trágico, temos a icônica cena três, em que Stanley se embriaga e dá umas bordoadas em Stella, que foge para a casa da vizinha. Stanley então começa a urrar para que sua mulher volte. Os gritos de “Stella! Stella!” são dos mais célebres do cinema, já que “Um Bonde chamado desejo” também é filme, cuja melhor versão é com Marlon Brando e Vivien Leigh.

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Nesta montagem, tivemos dois atores na pele de Stanley. Primeiro, Eduardo Moscovis, que arrasou todos os cortiços com sua excelente interpretação. A ideia de fazer Stanley, após os clássicos berros, se jogar no chão chorando pela mulher em uivos bêbados e em posição fetal (Stella, a quem ele acaba de agredir, está grávida) é brilhante! Confesso que prefiro o Stanley de Du Moscovis até mesmo ao de Marlon Brando: eu vejo (algo absolutamente particular) o marido de Stella daquele modo bruto e assustador que Du tão bem encarnou; não existe ternura em Stanley, ela se confunde com a própria sensualidade. Nesta segunda fase, entra em cena Juliano Casarré, que se aproxima mais de um Stanley cínico, e inseriu uma cena impactante: após estuprar Blanche, Stanley sai do centro do palco rastejando como um animal. É de arrepiar! 

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Virgínia Buckowski tem a difícil tarefa – que consegue cumprir de forma espetacular – de se impor com delicadeza entre dois personagens estentóricos.

Eu deveria, por fim, falar da estupenda Blanche Dubois de Maria Luísa Mendonça, que deixa a todos estupefatos com tamanha entrega, mas sua performance deixou esta escritora sem palavras – uma escritora que é apaixonada por Blanche, mas se chama Stella.

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(Eu, Maria Luísa Mendonça e Danielle Crepaldi Carvalho.)

P.S.: Uma máquina só funciona em sua capacidade plena se todas as peças, das menores às maiores, estão azeitadas e em perfeita sintonia. Meu carinho e gratidão também para os atores Fabrício Licursi, Fernanda Castello Branco e Matheus Martins, para Morente Forte e todos os profissionais envolvidos.

Por que os livros de Chico Xavier são tão populares?

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Como escritora, tenho de reconhecer a qualidade dos livros psicografados por Chico Xavier: fato. A quantidade deles impressiona: são mais de 450 títulos, mais de 45 milhões de exemplares vendidos (para se ter uma ideia, isso é o dobro do que já vendeu Paulo Coelho), com a renda total dos direitos autorais doada à caridade.

A psicografia em si nunca foi motivo de espanto para mim, espírita que sou, além de filha e neta de espíritas – pasmem: houve um tempo em que ser espírita no Brasil era crime passível de prisão!

Por falar em atos violentos, descabidos e arbitrários, vale lembrar um dado curioso: a última ação perpetrada pela Inquisição Espanhola, então impossibilitada de queimar seres humanos, foi a queima de 300 livros espíritas (entre eles “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”) em praça pública. O auto de fé de Barcelona foi conduzido pelo Bispo Antonio Palau Y Termes, às dez e meia da manhã do dia 09 de outubro de 1861, sob os gritos populares de “Abaixo a Inquisição!”. Pasme: mesmo as obras tendo sido confiscadas e queimadas, Allan Kardec teve de pagar as taxas alfandegárias correspondentes. Conhecemos bem esses absurdos burocráticos, não é?

Voltando ao assunto, o que mais me intrigava, portanto, não era a existência da psicografia em si, mas por que Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier, 1910 –2002) se tornou uma unanimidade que ultrapassa credos e rótulos? Eu me perguntava: por que a obra de Chico é aceita por 100% dos centros e por uma massa de leitores de todos os credos que simpatiza com os temas espíritas? Por que ela é tão popular? Seria ela mais bem escrita? Maior? Melhor? Mais substanciosa? Mais variada? Mais rica? Mais fecunda em emoção e conteúdo? A resposta é sim, mas nada disso seria suficiente para torná-la aceita por todos.

Em certa época, algumas pessoas aconselharam Chico a suspender as atividades de assistência aos aflitos para se concentrar apenas na psicografia dos livros. Chico respondeu que se fosse forçado a escolher, ele preferiria ajudar o próximo e abandonar os livros, pois esse foi o exemplo que Jesus Cristo nos deixou. Chico era fiel ao modelo que escolheu seguir. E foi justamente por causa do seu exemplo de uma vida inteira de doação, de humildade, de abnegação, de desinteresse material, de, numa palavra, amor, que a sua obra se tornou inquestionável.

Portanto não teríamos uma obra intelectual tão grandiosa se não houvesse o coração de Chico a embasá-la. Ela teria se perdido na poeira do tempo ou não seria levada a sério como esses borbotões de títulos psicografados que soterram nossas livrarias (e que não chegam aos pés dos recebidos por Chico).  Rendo todas as graças à inteligência, mas reconheço que sem amor ela é casca oca destinada à deterioração. No fim das contas, o amor é o lastro de tudo.

Quanto tempo vocês ficaram juntos?

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É a primeira vez que você vai ao salão de beleza depois dele ter te abandonado. Sua autoestima não anda lá essas coisas, é claro, e cuidar da aparência certamente fará você se sentir um pouco melhor.

Nos primeiros dez minutos, você pensa numa lista das coisas que detesta em salões de beleza. Primeiro, o barulho: sempre tem uma televisão ligada ou um rádio, competindo com secadores e cacarejos humanoides. O cheiro também te incomoda: cremes, esmaltes, ceras quentes, chapinhas, fumaças de todos os tipos. Porém, o que mais te aborrece é a obrigatoriedade de interagir: sorria, cumprimente, converse. Não, você não quer conversar. Não quer ouvir nada sobre paqueras, produtos, doenças, artistas, fofocas. Você quer apenas chorar.

– Quanto tempo vocês ficaram juntos?

Seus olhos estão obviamente inchados e a partir deles supuseram um resfriado. Você negou que estivesse gripada e meio sem querer a cabeleireira já sabia – e com ela o salão inteiro – que você havia levado um retumbante pontapé nos fundilhos.

Foi então que uma moça com aquele chapéu de papa com o qual se faz hidratação, uma moça que nem te conhece, pergunta quanto tempo vocês haviam ficado juntos. Por que ela não disse simplesmente “sinto muito”? Ou apenas manteve sua boca calada, o que já seria uma caridade? Todo seu rosto e sua postura corporal gritavam que você não queria falar sobre o assunto. Você se mantém em silêncio, mas a papisa repete a pergunta:

– Ei, quanto tempo vocês ficaram juntos?

Mulheres e abutres adoram revirar vísceras abandonadas como as suas. Você respira fundo e responde:

– Sabe, eu sou contra essa pergunta.

– Contra? Como assim?

A papisa ajeitou a orelha esquerda dentro do chapéu, olhando para você a espera de uma explicação.

Um secador foi desligado, depois outro. Manicures, cabeleireiros e suas clientes sentiram a tensão no ar e esticaram os pescoços. Você aumentou o tom de voz, mantendo, porém uma estranha suavidade.

– A dor que a gente sente quando é abandonada não tem o tamanho do tempo que durou o relacionamento. A dor tem o tamanho da esperança acumulada numa vida inteira de busca. Se você já sofreu bastante, já se decepcionou muito, a esperança de que finalmente algo bom, algo verdadeiro, algo definitivo acontecesse foi crescendo. E no meio dessa ansiedade apareceu um homem especial. E se esse homem tão esperado for embora, vai fazer diferença o tempo que ele ficou? Vai doer menos? E se ele ficou o tempo de um beijo, mas um beijo que tenha soterrado todos os outros? E se ele ficou só uma noite, mas uma noite que tenha sepultado todas as outras? Isso não seria o suficiente para ele se tornar o homem mais importante de todos? O tempo rígido do relógio não conta no amor.  É por isso que eu acredito que a dor de um rompimento tem o tamanho da nossa esperança, da nossa frustração, da nossa procura. Quanto tempo durou não faz diferença alguma, se, dentro da gente, o amor ainda dura.

Silêncio pós bombardeio nuclear no salão de beleza. E tudo que você quer, ainda, é apenas chorar.

 

Observação: Este texto também foi publicado no portal sobre separação Exnap (www.exnap.com.br) e fará parte do meu próximo livro de crônicas pela Panda Books.

Uma dúvida sobre o feminismo em “Eu me possuo”

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“A posse de si mesma começa quando Karina conta para a avó sobre o estupro, não quando ela passa a ter vida sexual ativa”. Stella Florence

(Atenção: essa troca de e-mails contém spoilers)

De: LM
Enviada em: domingo, 28 de agosto de 2016 01:47
Para: Stella Florence
Assunto: Re: Eu me possuo

Olá, Stella.

Fico muito feliz com sua resposta! Então, o que quero fazer é uma troca de ideias mesmo, não quero impor nada, nem assumir um certo ou errado nessa conversa, tudo bem? Pois bem, achei seu livro muito bom, e a temática muito importante. É muito legal juntar a linguagem cotidiana a um tema tão forte e pesado. Achei bonita a carta que Karina faz a Gustavo. Entretanto, o livro me passou uma impressão que me incomodou um pouco: parece que Karina só se “cura” ao transar com Thiago, um homem que a despreza, além de ser bastante misógino (que só sabe objetificar as mulheres com quem ele sai). Não sei, isso não me parece empoderador, me parece até mais motivo para depender da validação masculina para se sentir bem. Superar um estupro tem a ver com aceitar-se como humana, como mulher, e não esperar que outro homem faça isso por você.

Gostaria de saber sua opinião sobre isso, se me equivoquei com minha análise…

Um grande abraço e muito sucesso!

LM

De: Stella Florence
Enviada em: quinta-feira, 1 de setembro de 2016 22:25
Para: LM
Assunto: RES: Eu me possuo

L……, querida, obrigada pela paciência! Como te disse, eu demoro, mas respondo.

Agradeço pela delicadeza da sua mensagem e pela oportunidade de tratar das questões interessantíssimas que você levantou sobre o “Eu me possuo”.

No começo do livro, Karina não consegue identificar um homem na rua, nem de longe nem de perto: aquela cena é uma metáfora para sua incapacidade de avaliar as pessoas. Quem não consegue identificá-las, quase sempre se entrega a idealizações (coisa que ela faz mais tarde com Thiago). Já no final do livro ela sabe exatamente quem é cada homem (e cada mulher) em sua vida e o que pode trocar com eles. Não há mais idealizações. Porém, até Karina chegar nesse ponto, há um longo arco dramático que passa pela autonomia profissional, por uma relação diferente com a família e também pelo envolvimento com vários homens, entre eles Thiago.

Quanto a ele validá-la como mulher, há um trecho do livro em que escrevi, de propósito, o seguinte: “Seria machismo isso? Sentir-se mulher apenas depois de uma sequencia de experiências sexuais indiscutíveis e orgásticas? Thiago era o endereço daquele sentimento, mas ela poderia se sentir assim num encontro com outra mulher, se isso a interessasse. Então não era machismo, Karina não se sentia libertada por um homem, mas por um amor, por uma pessoa, e o fato dessa pessoa vestir uma roupa carnal masculina era um detalhe. Um detalhe delicioso, porém, em essência, um detalhe. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez sua libertação tivesse acontecido antes, no seu aniversário de 23 anos, quando ela finalmente conseguiu chorar e contar tudo o que aconteceu para sua avó. Ali ela havia começado a tomar posse de si mesma”.

De fato, a posse de si mesma começa quando Karina conta para a avó sobre o estupro, não quando ela passa a ter vida sexual ativa. A relação dela com Evelyn também não é um acaso: é uma representação da forte solidariedade entre mulheres.

Outro ponto: Karina não busca por amor e sexo como uma validação masculina para se sentir bem. Ela sai com homens por um único motivo: porque ela deseja. Nada além disso. E se ela deseja, ela pode. Pode inclusive escolher o que é melhor para ela, coisa que vai aprendendo a fazer com o tempo.

A maneira dela superar o estupro foi, a partir de um luto de anos, decidir não abdicar do sexo, decidir vivê-lo como e com quem quisesse (com ela mesma essa vivência sempre existiu). Como ela é heterossexual, esse sexo se dá com homens. Além disso, eu quis traçar um mapa mais amplo da masculinidade, não queria resumi-la ao estuprador, por isso há caras legais com quem a troca é muito rica, como na vida real.

No final, Karina não precisa de muito dinheiro nem de uma aliança no dedo nem aceitar amizades sem estofo nem de amores sugadores de energia. Ela está bem, está segura de si e tem seu prazer fincado na realidade.

Beijo grande e fique à vontade para continuar esta conversa.

Stella