Náufrago (no amor e sexo)

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(Esta crônica faz parte do livro “Os Indecentes”)

Em 1955 o destróier colombiano Caldas emborcou no Caribe e oito tripulantes desapareceram no mar. Apenas um sobreviveu. Luís Alexandre Velasco ficou dez dias numa balsa à deriva, sem água e sem comida, até chegar, semimorto, a uma praia deserta ao norte da Colômbia.

Após ter sido, a contragosto, transformado em herói pela então ditadura militar do país, Velasco ofereceu sua história ao jornal El Espectador. Para escrever seu depoimento, um repórter iniciante foi designado: Gabriel García Márquez, que se tornaria mais tarde um dos maiores escritores do planeta. Por conta dessa matéria, publicada em capítulos, o jornal foi fechado, García Márquez teve de se exilar em Paris e Velasco perdeu o cargo na Marinha e a fama recente. E onde estão o amor e sexo afinal? Estão no último parágrafo: confie em mim.

Peço agora que você pare e entre um instante na pele do náufrago. É quase meio-dia quando o destróier emborca. Velasco se agarra a uma balsa. Três de seus amigos se debatem ao redor. Inutilmente ele tenta salvá-los: em minutos, todos desaparecem.

Sozinho, Velasco acredita que o resgate não demorará. Olhos fixos no horizonte, ele acompanha o pôr-do-sol, a noite escura e o nascer de um novo dia. Aparecem aviões: três ao todo. O último deles esteve tão perto, enquanto Velasco agitava sua camisa no ar, que ele teve certeza de que havia sido visto. Mas não havia. Às cinco da tarde chegam os primeiros tubarões. Brilho de luzes na superfície do mar: apenas um novo nascer do sol. Desespero, fome, sede, dificuldade para respirar, dor, sono, a pele fervendo em bolhas. Outro dia, um navio aparece no horizonte. Velasco rema furiosamente contra o vento, mas o navio se afasta sem vê-lo. No quinto dia, torturado pela fome, Velasco captura com as mãos uma gaivota. No entanto, mesmo há tantos dias sem comer, ele percebe que não é capaz de comer qualquer coisa. Um novo dia, ondas altíssimas. A balsa vira. Velasco nada em agonia, consegue alcançá-la  e se amarra ao estrado com o próprio cinto. A balsa emborca de novo e ele quase se afoga preso debaixo dela. Sorte os tubarões estarem longe naquele momento. No dia seguinte, Velasco come os cartões de papel molhados que tinha no bolso e sente algum conforto. Depois tenta comer nacos do seu cinto e sapatos, mas eles são duros demais. Um grande peixe pula dentro da balsa tentando escapar dos tubarões. Velasco prova apenas dois bocados da carne crua antes que um tubarão o ataque roubando o peixe e engolindo seu remo. Outro dia, alucinações: o acidente se repete minuto a minuto. A água muda de cor e Velasco supõe estar perto da terra. Porém, mais um dia se passa sem que apareça sombra de costa no horizonte. Semi-inconsciente, ele tem certeza de que vai morrer. Nesse instante, vê contornos de coqueiros, mas julga ser apenas delírio. No dia seguinte, porém, os coqueiros estão mais próximos. Velasco decide nadar os 2 quilômetros que o separam da costa. Num esforço sobre-humano, ele se arrasta, com o corpo em carne viva, e chega até uma praia deserta.

Eu pedi que você entrasse na pele de Velasco, mas isso foi um blefe. Você já esta na pele dele. À deriva, sem alimento, sem água, castigada pelo sol, iludida por miragens, rondada por tubarões, com possibilidades de alimento que se mostram intragáveis, com aviões que te sobrevoam, mas não te veem e, ainda assim, você continua sua busca por terra firme. Quando pensa que suas forças se esgotaram, alguma coisa tola, como gaivotas ou a mudança da cor da água, te traz esperança para continuar. A questão é: quanto mais você aguenta viver à deriva?

 

Educação para a morte

Após enviar este e-mail a um amigo, recebi dele a seguinte resposta: “Compreendo que sua intenção é boa, Stella. Fiquemos por aqui quanto a esse assunto”. Creio que, embora se trate de um e-mail pessoal, não devo sonegá-lo de você, leitora. Aqui está seu conteúdo, na íntegra. Que ele te seja útil, no momento adequado.

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*****, querido, quanto à conversa que tivemos ontem, me permita dizer algumas palavras sobre a expressão que usei (“lamento que você não acredite na vida após a morte”). Tenho (mais do que o desejo) a obrigação de me explicar. No final, você entenderá minhas razões.

Eu sei que você lerá este e-mail como uma peça de ficção, mas não me importo com isso: apenas peço que leia até o fim. Considerando que em todos esses anos da nossa amizade eu nunca trouxe esse assunto à baila (e ontem ele surgiu naturalmente), creio ser um pedido razoável.

Eu trabalho como médium nas sessões de desobsessão do meu centro espírita há exatos 25 anos, duas vezes por semana (digo “meu centro” apenas por carinho, o correto seria “o centro que eu frequento”).

Muitos dos espíritos que usam as cordas vocais dos médiuns para se comunicar não acreditam na vida após a morte e estão há muito tempo perambulando entre nós, encarnados, julgando-se também vivos (embora estranhem o fato de ninguém os responder e tenham perdido há muito a noção do tempo).

Não é para menos: eles, que em vida não acreditavam em nada ou só acreditavam da boca pra fora, após uma doença, um acidente ou algo que tenha provocado a morte do seu corpo, continuam existindo, pensando, experimentando sensações “físicas” (fruto de ilusão) como fome, frio, sede, cansaço, dores (crendo-se ainda vivos, eles se prendem mentalmente às sensações da matéria e as recriam em seu corpo somático, chamado “perispírito”). Como diz muito bem o filme O Sexto Sentido: “Eles só veem o que querem ver”.

Espíritos amigos, bondosos ou familiares desencarnados, os conduzem a uma sessão espírita sem que eles percebam. Supondo comparecer a uma reunião qualquer cujo conteúdo não conseguem entender, eles começam a falar com o dirigente da sessão (alguém apto à conversa fraterna), crendo-se perfeitamente vivos.

Quando veem que falam através de um corpo que não é o seu, eles nos acusam de bruxaria ou prestidigitação, de termos dado alguma droga a eles, se julgam loucos, mas, devagar, começam a considerar a possibilidade daquelas informações sobre seu novo estado serem verdadeiras.

É nesse ponto que vemos, nas sessões, a cena (que seria risível se o nosso respeito não fosse total) de um espírito, através do médium, dizer: “Mas que besteira é essa de que eu morri?! Morreu, acabou! E eu estou vivo!”.  Como nós, eles veem o que querem ver.

Seus olhos só se abrem para a realidade de que apenas seu corpo de matéria densa morreu enquanto seu espírito continua vivo quando, ainda envolvidos pelos fluidos do médium que favorecem esse processo, eles conseguem ver algum amigo ou parente que desencarnou antes deles e que ali está para acolhê-los e apresentá-los à nova vida.

A surpresa é sempre grande e a vergonha também: nada mais natural – é muito difícil mudar de ideia sobre algo que guiou nossos passos por tantos anos. Provavelmente eles têm sido céticos por muitas vidas e sempre que mergulhados de novo na carne voltam ao apego material e à ideia arraigada de que nada existe além dos seus sentidos. A natureza não dá saltos. É compreensível que assim seja até que o espírito assimile profundamente o fato de que todos somos imortais e destinados à perfeição, na velocidade dos nossos esforços.

O que vale na vida após a morte não é a pessoa professar a religião A, B ou C (ou nenhuma), mas quanto bem ela fez, quanta caridade praticou, quanto se esforçou para se melhorar.

Nem todos os materialistas vivem esse processo após a morte: aqueles que foram pessoas caridosas têm muito mais mérito que os religiosos de carteirinha, pois praticaram a caridade sem esperar qualquer recompensa posterior. Pela vibração mais elevada que emitem, mais cedo conseguem ser levados às sessões espíritas (ou são esclarecidos por espíritos bondosos fora delas sem qualquer problema de incompatibilidade vibracional). Na verdade, quando um espírito se comunica numa sessão, muitos outros na mesma situação assistem à conversa e dela se beneficiam, sendo igualmente esclarecidos.

A ausência de uma educação para a morte, meu amigo, gera muita dor – e eu sou uma das incontáveis testemunhas dessa dor.

Talvez agora você suponha que o objetivo desse e-mail é te convencer, mas não é. Sei que você não irá mudar por enquanto. Como sei também que, um dia, você irá morrer e se lembrar dessas palavras onde estiver. Acredito que elas serão muito úteis no momento oportuno. E elas foram ditas porque eu me importo com você. Simples assim.

Sua amiga,

Stella

Depressão e as variações da Ilha de Caras

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Quantas pessoas você conhece que estão ou estiveram com depressão?  Veja que eu nem perguntei se você conhece alguém, eu já te pedi um número: quantas pessoas? Você provavelmente perdeu a conta. Eu já perdi.

Claro que sempre existiram estados depressivos na história da humanidade, mas é inegável, até mesmo para uma leiga completa como eu, que nós atravessamos uma epidemia mundial e inédita de depressão. E é com a liberdade de leiga, de escritora de literatura ficcional, nada mais, que eu ouso fazer algumas reflexões, naturalmente desqualificadas de qualquer cientificismo.

Ser feliz hoje se tornou uma obrigação social, uma urgência tácita te constrange a manter os dentes sempre à mostra. A virtude do sacrifício, por exemplo, passou a ser vista como absurda. E eu me pergunto: você pode ser um boa mãe ou um bom pai se não souber se sacrificar de bom grado? Sem abnegação você não dá conta sequer de uma noite de bronquite de uma criança.  E mais, sem sacrificar-se você nunca sentirá a doçura do abraço sadio dessa criança após uma noite em claro cuidando dela. A paz que se constrói com a abnegação pode ser chamada de uma felicidade segura, no entanto a que todos buscam hoje é a mais infantil e fugaz que existe.  É a felicidade do porre, do tiro, do auge, da adrenalina, das malas de dinheiro, da fumaça, do gozo branco, do gozo marrom, do gozo em pó, em cliques, em sorrisos falsos, como se criássemos em nossos perfis sociais infinitas variações da Ilha de Caras: fotos que enganam todas as pessoas, menos as que estavam lá.

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A depressão, a meu ver, é uma reação (psíquica, espiritual, física) a algo que se tornou rotina: a fuga da realidade e o fingimento da felicidade. Ninguém acorda das próprias ilusões, das mentiras que conta aos outros, que conta a si mesmo, muitas vezes por décadas seguidas, sem susto, sem dor.

Deprimir-se, portanto, além de uma doença cujos efeitos precisam ser medicados, talvez seja também um amadurecimento intransferível, um contato com a realidade tão insistentemente evitado. A realidade é como uma bola inflável que mantemos no fundo de uma piscina. Ao menor deslize, à menor invigilância, ao menor cansaço dos nossos músculos, a bola vai escapar e vir à tona.

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Talvez essa epidemia da depressão seja sinal de que, a duras penas, os homens estão sendo forçados a ver a brutalidade das suas instituições, o egoísmo das suas fronteiras, a puerilidade das suas conquistas. Talvez cada pessoa deprimida esteja finalmente vendo o ridículo dos seus preconceitos, a solidão do seu orgulho, o vazio das suas más escolhas. Todos nós sabemos quais são os nossos pontos fracos e o tanto de energia que gastamos para fugir deles, para ocultá-los do mundo e de nós próprios.

É possível, é bastante possível, que a depressão nos forçando, como indivíduos e como civilização, a um encontro doloroso, porém libertador, com a verdade, carregue dentro de si mesma o início da nossa cura.

 

Estupro e abuso infantil: tenho um pedido a fazer

Quero te pedir uma coisa. É delicado, eu sei, mas eu preciso fazer isso, assim, olhando nos seus olhos. Mas antes vou te contar uma das mais emocionantes situações pelas quais passei como escritora.

Após o lançamento do romance “Eu me possuo”, que trata da superação de um estupro, eu recebi ainda mais e-mails do que de costume de leitoras confidenciando as violências pelas quais passaram. Triste dizer que isso é uma rotina para mim, eu sei, mas é a verdade. Dentre esses relatos, quero contar um em particular.

Uma moça, casada há alguns anos, me relatou os abusos sexuais que sofreu de um familiar por toda a infância. Inspirada pela carta que minha personagem, Karina, escreve ao seu estuprador, ela decidiu escrever uma carta também, não ao seu abusador, que já estava morto, mas ao seu marido, contando tudo pelo qual ela havia passado, tudo que ele não sabia e que acabava por desaguar na vida íntima de ambos. A carta foi escrita e entregue, no entanto seu marido permaneceu dias e dias sem falar com ela, sem sequer mencionar o conteúdo bombástico daquelas revelações. Por fim, quando minha leitora começava a cristalizar em si uma nova mágoa, o marido a procurou para conversar a respeito da carta. Ele então disse que ficou muito abalado e em silêncio todo aquele tempo não só pelo drama que ela atravessara, mas porque ele também havia sido abusado na infância.

Acredito que ambos iriam se conectar nesse nível mais profundo, sem segredos fundamentais, em algum momento de suas vidas. Talvez o gatilho dessa revelação dupla fosse um filme, a palavra de um amigo, uma palestra, uma canção, mas eu me sinto tão honrada de que tenha sido um livro meu!

É por isso que eu preciso te fazer esse pedido. Se você foi abusada na infância, se foi estuprada na vida adulta, se sofreu violência sexual e se essa violência deixou traumas, considere seriamente contar para o seu parceiro (ou parceira) o que aconteceu. Conte. Sonegar essa informação é manter um muro invisível entre vocês. Sonegar essa informação é causar a falsa ideia de que o problema é ele. Sonegar essa informação é deixá-lo sem elementos para te ajudar, para te acolher. Isso sem contar com a possibilidade concreta de que tal violência também tenha acontecido com ele e ele sinta a mesma dificuldade que você (ou ainda maior) para revelar isso.

Seja lá o que tenha acontecido, independente das circunstâncias, você não tem nada do que se envergonhar. Quem tem de se envergonhar é quem comete a violência, não quem a sofre.

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Se, por exemplo, uma mulher for até a casa de um homem que ela deseja ou se ela for a um motel com ele, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador. Desejar transar com uma pessoa não é o mesmo que desejar ser estuprada por ela. Outro exemplo mais radical: se uma mulher for sem calcinha a um baile funk, beber, se drogar e decidir fazer parte de uma orgia no final da noite, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador.  Não é o comportamento da vítima que gera o crime, mas sim a existência de um criminoso.

Há alguns anos eu entrevistei uma delegada de polícia. Ela disse que essa ideia de que roupas provocantes ou comportamento extrovertido são causas de estupro são estatisticamente falsas. Estupradores fogem de mulheres espalhafatosas porque eles acreditam que elas os podem subjugar e para se sentirem superiores eles escolhem justamente as recatadas que, na sua fantasia, não lhes podem oferecer resistência.

Há manuais aconselhando as mulheres a evitarem um estupro: não saiam sozinhas, não bebam, não usem roupas provocantes, não confiem em estranhos, como se estivéssemos submetidas a um eterno toque de recolher (e como se a maioria dos violadores não fosse próxima e conhecida). No entanto, a verdade é que só há uma regra para evitar esse tipo de violência: estupradores, não estuprem!

Por fim, repetirei a frase que uso em todas as minhas palestras e que, infelizmente, é a mais crua verdade e um símbolo de quão longe ainda estamos de exterminar esse câncer: se todas as vítimas de estupro fossem marcadas por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, não haveria mais noite no mundo.

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Competição: quando todos nós perdemos

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Masterchef. The Voice. Big Brother. Dance Moms. The X Factor. Games de programas de auditório. Trânsito agressivo. Inveja entre colegas de trabalho. Irmãos ciumentos. Essa lista poderia continuar indefinidamente. Por quê? Porque estamos todos contaminados pelo vírus letal da competição.

O modo mais fácil de você desperdiçar sua vida, de se manter em coma, de ser uma morta-viva, um zumbi acéfalo, uma sonâmbula inconsciente dos machucados que gera em si mesma e nos outros, é se manter competindo o tempo todo.

Há pessoas que dizem com o peito estufado “eu não levo desaforo pra casa” ou então “eu sou muito competitiva”, como se esses comportamentos fossem qualidades! Toda vez que ouço alguém dizer isso, tenho vontade de mandar uma coroa de flores em memória àquela vida que já acabou faz tempo. Porque se um perde e o outro ganha, todos perdem.

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Aqui vai uma situação cotidiana para que você repense suas reações: experimente na próxima reunião profissional ou de família se calar assim que alguém te interromper e deixar que essa pessoa fale até esgotar o assunto. Quando ela terminar, você continua do exato ponto em que parou (a não ser que intervenção dela tenha acrescentado algo digno de nota, coisa que provavelmente não acontecerá: o ansioso não tem conteúdo). Não é competindo que você se destaca: é se negando a competir. Mas e se for um debate? Você será mais respeitada e ouvida falando 2 minutos serenamente do que meia hora esganiçando.

Enquanto você compete com tudo e com todos, você não vive, você vegeta. Viver não é competir, é o oposto: é cooperar. Vida pulsante, vibrante, quente, luminosa é cooperação. Qualquer atitude ou pensamento que seja colaborativo te expande, te acorda, te fortalece tanto quanto ideias e ações competitivas te amesquinham, enfraquecem, selam o seu corpo numa mortalha.

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Competir é algo tão danoso quanto comum – e acontece até mesmo nas ocasiões mais inesperadas. Outro dia soube que uma conhecida havia acabado de passar por uma situação dolorosa e a procurei: “Eu também já passei por isso, se você quiser desabafar, conta comigo”.  A resposta que essa moça me deu fez com que eu fugisse dela horrorizada. Erguendo a voz agressivamente (coisa que eu abomino), ela me disse: “Mas eu aposto que o seu caso não foi tão ruim quanto o meu!”. Oi? Ela estava competindo comigo para ver quem se ferrou mais? Não, obrigada. Minha oferta expirou ali.

Portanto, eu te peço algo simples e difícil: primeiro perceba o quanto você funciona no modo competição e depois desligue essa chave. Substitua, em todos os seus atos, a competição pela colaboração. Mesmo que só você faça isso, siga sem cessar de alma leve – porque competir é desperdiçar a vida numa anestesia cheia de pesadelos – além de ser burrice.

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Primeiro encontro

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“Todos os primeiros encontros são decepcionantes, todos!” Foi isso que ouvi uma amiga cuspir na minha orelha com toda fúria enquanto víamos uma exposição.

– Se você está numa vibe romântica – continuou ela, irritada –, o cara fica cortando sua onda. Se você quer transar com ele, ele fica apavorado para que você não se apaixone. Se você fica nervosa porque vai encontrá-lo, ele diz que isso é fruto de uma alta expectativa. Se você diz que não faz questão de jantar com vinho e velas, ele diz que você não está dando a atenção que ele merece. Não dá pra vencer esse jogo!

Enquanto ouvia os detalhes da sua mais recente aposta afetiva, fiquei pensando… Talvez o grande problema dos primeiros encontros esteja antes de sair de casa, nas conversas que foram travadas entre vocês, esteja na linha com que a mulher costurou esse encontro dentro da sua mente.

Mulheres (e homens) saem para um primeiro encontro pensando no que o outro pode lhes dar, nas suas necessidades, nos seus desejos, nas suas carências e frustrações. Desse modo elas exigem que o gajo em questão supra suas carências (de preferência todas) e sane suas frustrações (de preferência todas). E de preferência na primeira noite. Sei que, colocado desse modo, parece um desastre anunciado. E é! Não há possibilidade de que qualquer prazer, especialmente qualquer prazer duradouro, ecloda daí.

Um bom primeiro encontro deveria ser uma coroação do amor, mas eu não me refiro a esse amor romântico cheio de taxas sob a forma de elogios, promessas e lugares-comuns.

Uma mulher que sai para um primeiro encontro poderia ter não a preocupação do que aquele homem pode dar a ela, mas ao contrário, do que ela pode dar àquele homem. E, obviamente eu não me refiro a sexo, embora ele possa ocorrer.

Por que não ter como objetivo transformar algumas horas do dia desse homem numa experiência prazerosa? Por que não pensar que talvez haja um náufrago do outro lado da mesa e que esse náufrago queira apenas que alguém entenda isso? Talvez haja um sedento de inteligência, de gratuidade, de bobagens, de compreensão, de silêncio. Talvez haja um homem tão cansado de cumprir papéis quanto você e você vai sair para cobrar dele justamente mais um espetáculo nesse mesmo cansativo papel?

Em vez de querer amor, por que não sair para dar amor? Amizade é amor. Atenção é amor. Ficar em silêncio é amor. Dar as mãos sem a necessidade de nada mais é amor. Emprestar um livro ou um CD especial é amor. Se preocupar com o outro mais do que com você é amor.

Essa doação não significa se anular ou fingir ser alguém que você não é para agradar, até porque essa é a pior coisa que pode acontecer num primeiro ou num milésimo encontro. Quando você se ocupa em fazer bem ao outro, você forçosamente tem de ver quem ele é. Se você não vir, fará algo de bom de acordo com os seus critérios e não com os dele. Apenas saindo de si mesma você o enxergará – e essa posição é fundamental para que qualquer coisa verdadeira possa nascer. (Sabe quando você sofre a perda de alguém que você não conhecia muito bem?).

Você não tem nenhum controle sobre o que vai receber de alguém, mas tem controle absoluto sobre o que dá, então que tal fazer um uso generoso disso? Experimente pensar com carinho apenas no bem-estar do outro. Quem sabe esse outro não sai de casa com o mesmo intuito? Desse modo, talvez, apenas talvez, possa acontecer um bom primeiro encontro.

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Preconceito contra gordos: não confunda desejo sexual com respeito

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Quando você anda pela praia, por uma feira de rua ou por um evento social, você está se impondo sexualmente a todas as pessoas que cruzam seu caminho? Essas pessoas, todas elas, são obrigadas a se deitar com você? Claro que não – elas não têm a obrigação de te desejar nem você de desejá-las. Parece uma ideia óbvia, mas não é.

 A atriz Mariana Xavier, amiga de todas as horas e uma das pessoas mais lúcidas que conheço, deu um depoimento ao programa Saia Justa no qual disse: “Existe uma diferença entre você não ter preconceito com uma coisa e você desejar essa coisa. Os nossos gostos pessoais, as nossas preferências, elas existem e não são um preconceito. Eu posso olhar para alguém, respeitar aquela pessoa, mas não me sentir atraída por ela e é isso que eu peço para as pessoas: não precisa me achar bonita, mas me respeite, me deixa botar meu biquíni”. Mari, sempre brilhante, se refere ao preconceito contra os gordos, embora a reflexão sirva para todo tipo de preconceito.

Vamos combinar que além da palavra “gordo” não ser um xingamento, esse conceito é altamente questionável. De acordo com o IMC – Índice de Massa Corporal (que considero servir muito bem às indústrias farmacêutica, fitness, da moda e do emagrecimento) eu, Stella, deveria pesar 15 quilos a menos para ser normal. Será? Preocupação com a saúde também não é desculpa para discriminar: gordura não é sinônimo de doença, a não ser que ultrapasse limites bem elásticos.

Achar alguém atraente é da esfera do desejo, compartilhar um espaço com o diferente é da esfera da racionalidade, da civilidade, da humanidade, do respeito. São expressões distintas. Você não precisa desejar para respeitar. A pessoa não está lá para que você a ache bonita ou atraente. Você pode continuar não achando aquela pessoa atraente e respeitá-la. É claro que racionalmente você sabe que uma pessoa na praia não está se oferecendo para você, mas emocionalmente você age como se ela estivesse e assim a agride, a ofende, a rechaça. Isso é agir como se você fosse o centro do universo, como se você fosse a medida de tudo o que existe. Sabe quando a gente passa por um grupo de adolescentes e acha que eles estão rindo da nós? Isso é ser egocêntrico, é achar que tudo se refere a você: na verdade em 99% das vezes os adolescentes nem nos viram, eles estão rindo de outra coisa. É preciso crescer! Então vamos começar por aí: a pessoa gorda no seu biquíni ou negra com suas tranças ou down com seus olhinhos puxados não está se impondo a você, você não é obrigado a achá-la atraente, mas precisa, sim, respeitar o direito dela de estar no mesmo ambiente que você.

No livro “O mal-estar na civilização” Sigmund Freud diz que uma sociedade se estabelece escolhendo um grupo de excluídos sobre o qual jogará toda sua fúria. Podem ser os judeus, os negros, os gordos, os pobres, os homossexuais, os retirantes, os refugiados: tem sempre um grupo eleito para levar porrada. Excluindo o outro você procura saciar neuroticamente seu desejo se sentir especial, acolhido, pertencente a um grupo. Ser rejeitado é horrível, a gente se sente como uma lesma sob o sal, se encolhe, mas você reagir rejeitando o outro não vai te tornar amado. Quando um rejeita e o outro é rejeitado os dois perderam. Ao humilhar alguém você não vai se sentir superior, a sua fome de aceitação e amor vai continuar até que você entre em outra faixa que é a do respeito. Além de ser o certo a fazer, esse comportamento é inteligente, maduro e humano. Porque desejar é uma coisa e respeitar é outra.

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A invisibilidade também te atinge

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Por dez anos eu trabalhei como secretária executiva, seguindo uma rotina comum a inúmeras brasileiras: acordar cedo, bater ponto, cumprir tarefas, almoçar num restaurante por quilo, tricotar um ou outro assunto com os colegas, cumprir mais tarefas, pegar ônibus, voltar para casa.

Durante esses dez anos por diversas vezes experimentei uma estranha sensação: a de ser invisível. Eu poderia estar triste, feliz ou mesmo doente, poderia conversar com samambaias ou me vestir como uma drag queen: ninguém notava, nem mesmo meus chefes. Afinal, eu era uma secretária – e secretárias são invisíveis.

Da mesma forma que copeiras são invisíveis (a não ser que derrubem uma xícara de café no patrão), office-boys são invisíveis (a não ser que deixem de entregar um documento), porteiros são invisíveis (a não ser que demorem dois segundos para abrir a porta), moças nos caixas dos supermercados são invisíveis (a não ser que digitem algo errado), frentistas são invisíveis (a não ser que se esqueçam de calibrar os pneus), mendigos são invisíveis (a não ser que peçam um trocado).

É comum que um veículo de comunicação ou uma ONG traga à baila a questão do que fazer para que a cidade em que vivemos se torne mais humana.  O ato de trocar ao menos duas palavras, se aproximar, mostrar ao outro que ele não é invisível já seria o suficiente para o clima de qualquer cidade – e o nosso clima vibracional – melhorar. O que nos impede, então, de cultivarmos esse hábito?

Medo. Medo de que os outros se aproximem e roubem nosso tempo, peçam nosso dinheiro, se insinuem dentro das nossas casas. Medo de que, abrindo uma brecha, o terrível outro possa desestruturar nossa vida aparentemente segura. Esse medo, tão arraigado quanto nefasto, faz com que nos esforcemos para agir como se os outros fossem invisíveis. O pior é que, aos poucos, não só os rostos dos estranhos como também das pessoas mais próximas começam a perder os contornos.

Esse exercício que especialmente as cidades grandes (mas não só elas) nos impõem não está mais restrito a estranhos. Você vê seus amigos? Você vê seu pai? Ele te vê? Sim, porque você também está perdendo os contornos. Seu namorado te vê? Aqueles que você diz serem seus melhores amigos, te veem? Eles te veem quando você não posta nada no Facebook? Eles sabem quem é você? Sabem o que você sente de verdade? Você sabe?

Em breve, corremos o risco de não vermos mais ninguém – e de ninguém nos ver mais. A invisibilidade é voraz, ela contamina, cega. E não respeita limites.

Onde você está em “Sobre ratos e homens”?

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Muito já se falou do romance “Ratos e homens”, o clássico de John Steinbeck transposto para teatro e cinema.  De fato, a peça encabeçada por George e Lennie se presta a muitas reflexões, mas eu quero focar os holofotes hoje sobre uma personagem lateral: Mae, a única mulher da trama, vivida lindamente por Nattália Rodrigues na excelente montagem do diretor Kiko Marques. (Todos os atores estão ótimos em cena, preciso, porém, reverenciar especialmente Luiz Serra, responsável por tornar real e tocante o velho Candy. Bravo!)

Nessa sociedade de homens brutos, subjugados por um trabalho próximo à escravidão, um mundo em que deficientes mentais, negros e velhos não têm sequer o direito de sonhar, as mulheres, simbolizadas por Mae, estão numa posição ainda mais inferior – e seus sonhos, portanto, tem ainda menos espaço, ou seja, nenhum.

Na comunidade de trabalhadores braçais, a jovem Mae, recém-casada com o filho do patrão, é imediatamente catalogada por todos os homens como vagabunda. Ela dormiu com alguém, além de seu marido? Não. Alguém a viu se embolar no feno com um dos empregados? Não. No entanto, os excluídos excluem e assim Mae recebe a pecha de sedutora, causa de encrencas, ordinária. O que gera essa fama? Sua solidão. Tudo que ela quer é ter companhia, conversar, dividir suas ilusões de fama em Hollywood, seus desejos de ir a bailes dançar. Mae quer falar sobre o rigor da mãe e sobre a perda do pai – um pedófilo que a sequestrou e que ela, romântica e ingênua, transformou a hedionda noite de árvores pretas num doce conto de fadas sobre o carinho de um pai pela filha. Não era carinho, Mae, era violência – mas era o que você tinha. Não é só você que distorce o passado e confunde violência com atenção.

Existem algumas personagens irmãs no teatro: Blanche Dubois (“Um bonde chamado desejo” de Tennessee Williams), Senhorita Julia (“Miss Julie” de August Strindberg) e Mae fazem parte do mesmo grupo. Mais do que o embate entre sonho e realidade que as fustiga, todas são violentamente punidas por se entregarem ao desejo ou apenas por parecer que se entregam.

Lá está Mae com seus cabelos sedosos. Ela decide fugir: fugir do marido ciumento, do sogro bravo, da ausência de amigas, de um ambiente que não a acolhe. Veja, você também está naquele palco: as mãos que estrangulam Mae também te matam. O autor do crime apenas materializa na personagem a condenação de todos os homens. Cada vez que alguém censura uma mulher que deseja, que se entrega ou que apenas sonha, cada vez que uma mulher é chamada de vaca, vadia, vagabunda, Mae morre novamente.  No teatro, ela morre todas as noites. E na vida real, muitas mais morrem com ela.

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Quero ter o direito de ser educada.

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Crises de fúria me fazem muito mal. O desequilíbrio que experimento é tão grande que preciso de horas, às vezes dias, para voltar ao normal. Isso sem contar o arrependimento: dentro de mim, nunca vale a pena. Mas fora… infelizmente resolve. E friso: infelizmente.

Por que a gente não consegue resolver nada sem fúria neste país? Nada é exagero meu, refaço a pergunta: por que tantas coisas só se resolvem sob pressão?  Experimente ser calma, educada e me diga se você consegue solucionar qualquer mínima querela.

Quando mudei de endereço, gastei uma semana pedindo educadamente que minha internet rápida fosse transferida. Nenhum resultado. Então, passei duas horas berrando no atendimento ao cliente e impedindo que desligassem sem me dar uma resposta. Milagre: minha conexão foi restaurada no mesmo dia.

Há três anos eu emprestei a um amigo uma boa quantia em dinheiro. No primeiro ano, eu não o cobrei: sabia que ele estava em apuros. Nos dois anos seguintes, porém, eu pedi, com educação, que ele me pagasse. Adiantou? Não. Quando mandei a amizade para as cucuias, quando fui indelicada e grosseira (até porque ele não era um bom amigo em outros quesitos), pronto, em uma semana a grana estava na minha conta.

Repito a pergunta: por que tantas coisas só se resolvem sob pressão? Nós estamos sendo obrigados a nos irritar. Sim, pois se educadamente não conseguimos nenhum resultado e tocando o terror as coisas acontecem, estamos sendo constrangidos à violência e a todos os desarranjos físicos e mentais que ela acarreta. E olha que eu nem estou considerando aqui a realidade das vibrações pestilentas que se espalham a partir de uma cena de desequilíbrio, mesmo que você não esteja diretamente envolvido. Se você já presenciou, por exemplo, um levante de clientes insatisfeitos numa longa fila de supermercado ou um passageiro reclamando em altos brados no guichê de uma companhia aérea por ela ter vendido seu lugar a outra pessoa também, sabe do que eu estou falando. O clima pesa para todo mundo.

Eu tenho um sonho. Um bem simples. Quero ver problemas solucionados usando-se apenas a expressão “por favor”. Quero ter o direito de ser educada.