Todas nós somos Blanche Dubois

Você conhece Blanche Dubois? Não? Nesse caso, preciso urgente te apresentar à famosa personagem de Tennessee Williams. A razão é simples: eu sou Blanche, você é Blanche, todas nós somos, em alguma medida, essa mulher que mergulha no desejo como oposição à morte, que foge da luz da realidade tanto quanto da luz física que expõe em seu rosto a desesperadora passagem do tempo, que toma banhos como Lady Macbeth lava as mãos, que sempre dependeu da bondade de estranhos, que vê as coisas como elas deveriam ser e não como são, essa mulher que inventa seus amores, que os veste de encantos e qualidades que eles jamais tiveram, que se dedica tão freneticamente a tal invenção que está à beira de um colapso absoluto.

Blanche é tão grandiosa que já foi interpretada por Jessica Tandy, Vivien Leigh, Eva Wilma, Maria Fernanda, Ann-Margret, Glenn Close, Leona Cavalli, Natasha Richardson, Cate Blanchett, e recentemente foi trazida à luz de forma emocionante, visceral e estupenda por Maria Luísa Mendonça. Pausa para as palmas. Muitas!

Blanche

Antes de continuar é preciso que você conheça a história de “Um bonde chamado desejo”. Atenção: mil spoilers a seguir!

Stella Kowalski está grávida e perfeitamente adaptada a uma vida sem luxos, mas repleta de desejo, junto ao marido, o cafuçu-tesão Stanley Kowalski, quando sua irmã, a sofisticada e coquete Blanche Dubois, chega falida, de mala e cuia. Os três passam assim a dividir um pedaço de cortiço: intimidade, raiva, orgulho, culpa, medo e desejo de sobra, privacidade nenhuma.

Esse convívio é demais para Blanche, que acaba por enlouquecer no final. Muitos sustentam que ela perde a razão já instável depois que o cunhado machão a estupra. Mas ela rompe com a realidade de vez quando Mitch, um namorado e pretendente a marido, rompe com ela. Não é, portanto, a brutalidade de Stanley Kowalski que retira sua última esperança de sanidade e amparo, mas sim o abandono de Mitch. Eis o maior dos medos femininos: o abandono.

Apenas com Mitch ela alcança dois preciosos momentos de contato com a realidade, da qual sistematicamente fugia. No primeiro deles, após um passeio, Blanche, que é viúva, conta a Mitch sobre seu casamento com um jovem gay, o flagrante sexual, o suicídio dele e, deixando de lado qualquer manipulação para seduzi-lo, desabafa que depois de perder o ex-marido, que era seu sol, nunca mais houve outra luz em sua vida que fosse mais forte que uma pobre luz de vela. Mitch então propõe que ambos unam suas solidões e fiquem juntos. É uma cena tocante e repleta de esperança.

Havia a possibilidade de que uma relação verdadeira fosse construída entre Blanche e Mitch, seriam então dois náufragos que conscientemente se agarrariam um ao outro, reverenciando com serenidade esse modo de sobreviver. Stanley, porém, furioso com Blanche, que costuma expor a diferença de estirpe que há entre ele e as irmãs Dubois, conta a Mitch tudo que descobre sobre o passado dela, o que gera o rompimento.

O segundo contato de Blanche com a realidade, através de outro encontro com Mitch, se dá quando ele não aparece em seu aniversário e, depois que a festa amarga termina, ele chega bêbado, exigindo vê-la sob a luz, exigindo aquilo que ele não teve todo o verão, querendo chegar às vias de fato. Blanche diz que, sim, teve muitas intimidades com estranhos depois do suicídio do marido. “Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro.” Depois, ela pede, “case comigo, Mitch!”, mas ele retira sua última esperança de proteção, ele fecha a última fenda na rocha do mundo na qual ela poderia se abrigar, dizendo “você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe”, e é aí, nesse exato ponto, que ela perde de vez o contato com o real. Quando Stanley chega da maternidade na qual deixou Stella internada à espera do bebê, encontra Blanche já em surto, travestida como em um carnaval romântico.

Havia um pássaro caindo com ambas as asas quebradas: esta é a Blanche que o estilingue-estupro de Stanley atinge. Um pássaro já ferido de morte e em franca queda ao abismo.

Blanche Dubois é mais do que uma boa personagem: ela é um riquíssimo arquétipo feminino. Eu chegaria mesmo a dizer que Blanche e sua irmã Stella abarcam todos os aspectos do feminino romântico porque, enquanto Blanche escolhe a fantasia, Stella, ao contrário, cavalga e domina o real. E nessa mesma gangorra nos debatemos nós, mulheres modernas. A sorte é que nossos destinos não estão traçados desde o início, como o de Blanche: nós ainda podemos escolher não a fantasia que enlouquece, mas a realidade que estrutura.

 

Mulheres que marcam os homens

Obs.: Este texto pertence ao livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia. Minha amiga Mariana Xavier fez uma linda leitura desta crônica (que fiz para ela). Deixo aqui o link para que vocês vejam a versão dela e a minha.

Eu sei que você não vai ficar comigo. Porque há mulheres que marcam os homens e há mulheres que ficam com eles – e eu pertenço ao primeiro time.

Ouça minhas palavras como uma profecia – porque é exatamente isso que elas são. Você sairá com uma sequência de moças bonitinhas que provocarão em você apenas decepção e tédio. Nenhuma delas – lembre-se, isso é uma profecia –, nenhuma delas causará as sensações que eu causei. Você procurará minha boca em todas elas, minha pele em todas elas, minha umidade eterna em todas elas, meus gemidos em todas elas, sem encontrar. Você irá achá-las sempre pouco estimulantes, pouco voluptuosas, pouco ativas, pouco criativas, pouco carnudas, pouco macias, pouco soltas, pouco inteligentes, pouco tudo. Elas serão sempre menos do que você espera – porque elas não são eu.

Mas nem tudo está perdido: qualquer uma delas pode ser cômoda o bastante para ficar com você. Eu posso te ver dentro de cinco anos numa sala com sua TV imensa e sua esposa mansa com quem você terá um sexo honesto e confortável. E, tão claro quanto vejo minhas mãos agora, posso ver que você vai sonhar comigo enquanto dorme com ela.

Nas suas insônias, que serão muitas – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai pensar o que aconteceria se você tivesse ficado comigo e para quais lugares teríamos viajado juntos e quantas coisas novas teríamos aprendido e quantos bons-dias teríamos nos desejado um dentro do outro.

Sua fome por mim amanhã será maior que o seu medo hoje, bem maior. Nessas horas e em muitas outras – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai desejar me escrever, me ver, ter alguma resposta minha, mas já será tarde para isso.

Porque há mulheres que marcam os homens e há mulheres que ficam com eles – e eu pertenço ao primeiro time. E você, ao time dos que não são viscerais o bastante para quebrarem tolas maldições e amargas profecias.

 

A tortura pela esperança

Talvez nenhum sentimento seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é ela que faz com que sigamos em frente todas as manhãs. No entanto, a esperança também pode ser uma tortura – e uma tortura muito comum no amor romântico. Para explicar isso melhor, preciso contar uma história.

O escritor francês Villiers de L’Isle Adam (1838-1889) criou um conto estupendo sobre o tema usando sua refinada e cruel ironia. O título não poderia ser mais claro: “A tortura pela esperança”. Nele, um Inquisidor espanhol visita, na masmorra, o rabino Aser Abarbanel, que, há mais de um ano, vinha sendo torturado pela Santa Madre Igreja.

O Inquisidor, num momento de agudo sarcasmo, diz que ele mesmo sofre demais ao brindar o acusado com os rigores da tortura, tortura cujo objetivo é conduzi-lo ao caminho do Senhor. Como seus esforços foram inúteis, no dia seguinte o rabino Aser Abarbanel será queimado vivo.

Após o longo discurso (de fazer inveja a qualquer psicopata), o Inquisidor sai da masmorra, deixando atrás de si a porta mal fechada. Eis uma chance para o rabino escapar! Com o corpo crivado de feridas e fraturas, o prisioneiro se arrasta por um longo corredor até alcançar a liberdade. Ao se ver num jardim perfumado, sob a proteção das estrelas, Aser Abarbanel estende os braços e ergue os olhos aos céus em agradecimento. Todavia, nesse instante, alguém o abraça: é o Inquisidor! O rabino então compreende que ele havia acabado de passar pela mais terrível das torturas: a da esperança.

Você sabe bem o que é isso. Após ouvir palavras tão lindas, tão amorosas, tão balsâmicas para o seu coração, você se deita sorrindo, aquele sorriso contínuo que não conseguiriam tirar do seu rosto nem sob uma máscara de ferro. Você dorme acreditando que finalmente sua alma saiu daquela marquise suja sob a qual você tentava sem sucesso se abrigar da garoa e do vento gelados da solidão. Você acha que ganhou um cobertor quentinho, uma cama, um quarto protegido, um endereço emocional e que nunca mais, nunca mais irá sentir frio.

Dias depois, ao encontrá-lo novamente, você alegre, você ingênua, você apaixonada, lê um poema que separou com ternura, lê aberta como uma flor descuidada, flor sem cerca, sem arame farpado. Ao ouvir suas palavras sobre o mar, porém, ele se lembra de areia e cascalhos; ao ouvir sobre o pólen fecundo, ele fala da devastação definitiva do deserto; ao ouvir perfumes, ele te chama para um rio Tietê de dúvida e opacidade. E, assim, ele repudia o seu afeto.

Está doendo um tanto mais agora, eu sei, porque você estava repleta da seiva da esperança. Mas calma, querida, vai passar. De fato, a esperança é a última que morre, mas morre – para renascer mais lúcida em outro endereço.

Obs.: Este texto pertence ao livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Fuja da sua loucura de estimação! (De Profundis)

Ao reler esta semana “De Profundis”, a longa carta que Oscar Wilde escreveu no cárcere ao seu amante, eu fiz algo insólito.  A cada página lida, eu a arrancava do livro e a rasgava. Sim, rasguei todas elas, uma por uma. Meu “Obras completas” está para sempre mutilado – e eu sinto um grande alívio.

A causa da ruína, prisão e morte prematura do escritor aos 46 anos foi apenas uma: ele se rendeu à sua exigente loucura de estimação, que atendia (desde que lhe acenassem com dinheiro) pelo nome de Alfred Douglas. Exigente, para dizer o mínimo. Se bem que todas as loucuras de estimação pedem muito e se doam pouco. Que digo? Não se doam absolutamente.

Você também deve ter uma loucura de estimação. Aposto que você queria isolar o exato instante em que ele ainda te desejava. Queria retroceder ao momento em que, trepada nas raízes ossudas de uma árvore a fim de ficar com a mesma altura dele, você o abraçou pela primeira vez. Enquanto seus cabelos se misturavam, você soube que estava perdida. Ou foi depois? Foi quando ele se despiu das roupas e seu olhar vazio meteu-se em você como uma faca nova? Quando você soube que estava perdida? Houve um momento em que você soube.

Não existe nada mais difícil do que se manter afastada de uma loucura de estimação: se afastar é fácil, já se manter afastada é a prova suprema. Porque, apesar de essa criatura não te amar, de ela não te querer e de todos os enganos que você vê, ainda assim estar sob o seu jugo aflito é o que você mais deseja.

Loucura de estimação é uma doença afetiva da qual você não consegue se curar, uma paixão sem tréguas, um vício agridoce que te alimenta e te devora. É como mergulhar num pântano lisérgico: você supõe estar no paraíso, mas basta respirar fundo para descobrir que está no lodo – e completamente sozinha. É como sofrer da Síndrome de Estocolmo: o homem que abusa de você, que te manipula, que se serve de você quando quer, que não te dá nada, que não se dá de modo algum, que te mantém prisioneira, é justamente o homem que você quer.

A loucura de estimação emite mensagens contraditórias e te sustenta com migalhas. Os suplícios que essa pessoa te inflige se baseiam em te dar cada vez menos alimento para ver até quando você consegue se manter de pé. Ou de joelhos.

Por isso eu rasguei as páginas do “De Profundis”. Parece uma reflexão sobre a dor e a arte, parece uma forma diferente de pensar os Evangelhos, parece o testamento furioso e melancólico de um injustiçado, mas é apenas o lamento de um amante pedindo à sua loucura de estimação que volte, que escreva, que o machuque, que o engane, que o assombre.

Rompa esse relacionamento destinado ao aborto eterno, esse fígado de Prometeu todos os dias reconstituído à espera do predador, e fuja o quanto antes! Fuja de um jeito heroico ou humilhante, não importa como, apenas fuja! Abandone essa luta: uma loucura de estimação só pode te destruir e te causar dor; muito mais dor que prazer, infinitamente mais dor que prazer. Não escreva seu próprio “De Profundis”. Só por hoje, fuja!

Obs.: Esta crônica pertence ao livro “Loucura de Estimação” da e-galáxia.

50 tons de cinza: o segredo real de seu sucesso

Os anos passam e a dúvida permanece: como explicar o sucesso da franquia de 50 Tons de Cinza? Será por conta do sexo abundante, dos chicotes e algemas, da virgindade de Anastasia ou do dinheiro de Grey? Não, isso é só purpurina. O segredo real é algo muito diferente e subterrâneo.

Mas antes tenho uma pergunta: por que a autora, cujo nome verdadeiro é Erika Mitchell, criou o pseudônimo E.L. James? Por que J.K. Rowling também usa iniciais? Será que um nome neutro, que pode ser o de um homem, inspira mais respeito no mercado? Fica a reflexão.

A gente já sabe que 50 Tons de Cinza é uma fanfic da saga Crepúsculo (fanfic é ficção escrita por fã, tendo como base sua história preferida). Portanto Anastasia Steele é a jovem Bella e Christian Grey é o vampiro Edward, numa versão adulta e humana. Mas e Jacob, o lobisomem? Quem é ele em 50 Tons de Cinza? Ninguém, ele não existe. A autora excluiu de sua fanfic o único personagem que representa, em Crepúsculo, o amor real, o amor possível. O lobisomem é também humano, possui calor, pode ter vários filhos naturalmente e criá-los ao lado de Bella, pode envelhecer com ela, ser um companheiro de verdade. Tem lá seus defeitos, como virar lobo de vez em quando, mas na vida também há problemas – vida real que, com o sumiço de Jacob, foi excluída da fórmula de E. L. James.

O que tornou 50 Tons de Cinza um fenômeno foi a realização de um dos mais comuns e intensos desejos femininos: mudar nosso homem. E, de quebra, se tornar a mulher mais especial de sua vida. Até conhecer Anastasia, Christian nunca havia sido fotografado com uma garota, nunca se ouviu falar que tenha namorado, jamais havia dormido de conchinha com alguém, não levara moça alguma para jantar na casa dos pais e só tocava numa mulher depois de ambos assinarem um contrato. A jovem aparentemente ingênua faz Grey mudar todos esses hábitos.

Dizer que Anastasia é submissa é ver apenas as aparências: aquela moça tem a personalidade de uma dominatrix, com o disfarce da voz mansa e dos olhinhos baixos. Ela é muito inteligente, tem paciência e sabe manipular a seu favor as circunstâncias. Se você duvida, se lembre da cena em que ela leva uma surra de Grey e vai embora dizendo que aquilo ultrapassou seus limites. Quando ele vai atrás dela no elevador, o que ela faz? Chora? Se joga em seus braços? Implora que ele pare com aquilo? Diz que o ama? Não. Ela estende a mão como um guarda de trânsito e grita: pare! E ele para. Quem domina quem?

Anastasia Steele realiza a fantasia de todas nós. Você sai com aquele cafajeste, aquele chato, aquele mandão, aquele golpista, aquele vagabundo, aquele violento, aquele mentiroso, aquele alcoolista, aquele irresponsável, aquele abusador e acredita que o seu amor vai mudá-lo. Mas os homens da vida real, por mais que desejemos isso, não são moldáveis como Christian Grey.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Como usar a palavra “literalmente” de modo correto

De tempos em tempos, algum vício de linguagem, erro de português ou uma invenção inútil se espalha pelo Brasil como fogo em campo ressequido.

Recentemente tivemos a ditadura do “a nível de” e o despropósito do “vou estar fazendo”. Agora estamos mergulhados até o pescoço no uso equivocado do “literalmente”.

Curioso que essas formas esdrúxulas tenham se popularizado pela mesma razão: vaidade. Um ortopedista acha mais imponente dizer “o atleta não tem nenhuma lesão a nível de joelho” do que simplificar “ele não tem lesão no joelho”. A operadora de telemarketing acha mais chique dizer “vou estar transferindo sua ligação” em vez de um simples e correto “vou transferir sua ligação”. Numa tentativa de parecer mais culto, todo mundo se tornou mais estúpido.

Já o “literalmente” não me parece fruto de vaidade: é apenas um engano. Literalmente significa ao pé da letra. Ele não é sinônimo de realmente, não confere ênfase a uma ideia e não pode ser usado como uma espécie de exclamação. Mais fácil dar exemplos, não é?

“Ele saiu literalmente do armário!”. Para alguém sair literalmente do armário, ele precisaria estar dentro de um armário de verdade, abrir a porta (supondo que a porta abra por dentro), colocar um pé para fora, depois outro e sair com seu corpinho inteiro do tal armário.

“Eu estou literalmente morta de cansaço!”. E como é que você está falando?  Chamaram um médium?

“Eu viajei literalmente na maionese!”. Não, não viajou. Nem chefe de cozinha viaja literalmente na maionese – a não ser que o apelido do carro dele ou dela seja maionese. Você conseguiria confeccionar uma moto, uma carroça, um riquixá que seja de maionese para viajar nele?

“Esse homem me deixou literalmente louca!”. Opa, essa pessoa precisa correr ao psiquiatra para internação de emergência – e dá-lhe benzodiazepínicos e outros que tais na veia!

“Ele literalmente faz milagres!”. Estamos falando de Jesus Cristo?

“Essa menina é literalmente um doce!”. “Menina” é a marca de um biscoito de chocolate? De um doce de caramelo? De uma bala de mel? Não? Então a menina não é literalmente um doce.

“Ele literalmente roubou meu coração”. Gente, como essa criatura está andando por aí sem coração? Chama o SAMU, isso é caso para transplante urgente!

“Nossa, isso é literalmente um mico!”. Se estivermos no zoológico, na Mata Atlântica, na Amazônia, em Bonito diante de um macaco pequenino, tudo bem. Caso contrário…

“Minha namorada me leva na coleira literalmente!”. Rapaz, sua namorada é dominatrix? E te leva aonde te puxando pela coleira?

“Você tem de pensar literalmente fora da caixinha”.  Que caixinha, cara-pálida? Só se for a craniana! A única maneira de seguir esse conselho é ser um zumbi com os miolos de fora.

“Caí literalmente na folia!”. Levou um tombo no baile de carnaval? Que dó.

“O sorriso dela literalmente aquece meu peito!”. Como? Ela esquenta os dentes com bolsa térmica e encosta no seu peito a boca escancarada?

Portanto, fica a dica: se você estiver saindo com um homem e ele, à beira da cama, disser “quero te comer literalmente”, torça para que ele seja apenas um dos muitos que fazem confusão com o termo, e não um confrade do doutor Hannibal Lecter.

 

Uma carta de desamor (Porcos não reconhecem pérolas)

Há algum tempo, condoída pelo fora que uma amiga levara, escrevi um texto de presente para ela: uma carta de desamor.

Na época, fez bem a ela ter a experiência materializada em texto: texto que poderia ser entregue ao dito cujo (e foi), texto que poderia ser impresso e simbolicamente queimado (e foi), texto que poderia fazê-la erguer a cabeça e a autoestima (e fez).

Se ele ajudou uma mulher, pode ajudar duas, três… Acrescente o que você quiser ao miolo dessa carta e torne-a sua: o final (um dos meus mantras preferidos) é o que realmente importa.

***

Me desculpe por eu ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter almoçado com você tantas vezes. Me desculpe por ter ligado.

Me desculpe pela chuva que tomamos subindo a Augusta. Me desculpe por ter acreditado nas suas mensagens. Me desculpe por ter rido das suas piadas.

Me desculpe pelos machucados que sua ex deixou em você. Me desculpe por eu ter vindo logo depois dela. Me desculpe por tentar entender seu silêncio.

Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe por eu ter subestimado o que foi ruim e superestimado o que foi bom.

Me desculpe por eu não ter usado máscara. Me desculpe por querer mais. Me desculpe por supor que você também quisesse mais.

Me desculpe por ter dito “sim”. Me desculpe por eu confiado em você. Me desculpe pela cinta-liga que eu comprei para te agradar.

Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonito. Me desculpe por, em algum momento, eu ter acreditado que você era o homem da minha vida.

Me desculpe pelos seus erros de português. Me desculpe pelos erros de português da sua nova namorada. Me desculpe por a sua nova namorada achar que margaridas são flores menos nobres.

Me desculpe pelos 130 quilômetros de congestionamento que eu atravessei para te ver. Me desculpe pela barata que eu tive de matar na sua cozinha. Me desculpe por eu ter permitido que você deixasse a TV ligada no jogo do Palmeiras enquanto nós transávamos.

Me desculpe por eu ter acreditado que você compreendia meu olhar. Me desculpe por eu ter dito coisas lindas para você. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu disse.

Mas, sobretudo, me desculpe por pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você: são para mim. Afinal, porcos não reconhecem pérolas.

 

O que um homem faz na cama com você, ele fará também fora dela.

do livro “Os Indecentes – crônicas sobre amor e sexo” por Stella Florence

O que um homem faz na cama com você, ele fará também fora dela.

Se ele insiste em pedir a você uma segunda mulher na cama, ele já tem (ou em breve terá) uma segunda mulher fora dela.

Se ele não deixa você mudar de posição quando você quer gozar, ele cortará suas possibilidades de gozo na vida.

Se ele sente prazer em te machucar na cama sem que você deseje isso, ele procurará maneiras de te machucar na vida.

Se ele toma banho imediatamente após transar com você, ele irá se livrar de qualquer vestígio seu fora da cama também.

Se ele reage mal quando você o acorda de madrugada para transar, ele reagirá mal quando você o acordar de madrugada frágil por conta de um pesadelo.

Se ele não fala bobagens e ri dessas mesmas bobagens enquanto se esfrega em você noite adentro, ele será rígido, sem humor e sem entrega na vida também.

Se ele insiste para que você goze apenas porque isso lhe conferirá o status de macho provedor de orgasmos, ele te dará aparente companheirismo na vida apenas para que o seu cartão de visitas social não seja arranhado.

Se ele só vê os desejos dele na cama, só verá os desejos dele na vida.

Se ele é inseguro e pede licença para enfiar a mão entre suas pernas – já sendo seu homem –, ele será um poço de insegurança em tudo o mais.

Se ele tenta te convencer a tirar a camisinha sem te oferecer fidelidade e exames de sangue, ele tentará fazer com que todas as suas proteções na vida caiam a fim de você fique em risco também.

Se ele não te beija na boca durante o sexo, não vai te beijar no elevador, muito menos no meio do estacionamento vazio e menos ainda sob a chuva (ou na fazenda ou numa casinha de sapé, etc., etc., etc.).

Se ele duvida do seu gozo, irá duvidar de tudo o mais sobre você.

Se ele vive te comparando a outras mulheres, outras que faziam gostoso todas as aberrações que você se recusa a fazer, se ele traz o espectro dessas outras para a sua cama, ele irá seguir te humilhando vida afora sempre que tiver uma oportunidade.

Eu citei apenas alguns dos cenários torpes que mulheres (e homens) encontram nesta Babilônia romântica em que vivemos, e é claro que existem os bons cenários e até mesmo os maravilhosos. Porém, contra esses, não há necessidade de se prevenir.

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado.

 

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado. Quando o abuso degenera em crime, porém, a responsabilidade de uma das partes desaparece: naquele momento, impotente diante da violência extrema, ela deixa de ser coparticipante para se tornar vítima. No entanto, no dia seguinte, a responsabilidade volta a ser dela – e a capacidade de mudar seu destino também. (Trecho da crônica “Estupro numa relação abusiva” publicada originalmente no livro “Os Indecentes” e atualizada por mim para o portal Exnap.

Loucura de Estimação: vídeo do lançamento na Martins Fontes

Eu e o portal  Exnap estivemos no Sarau Conversar, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo), dia 24/04/2018, falando sobre amor, recomeços e o lançamento do “Loucura de Estimação”, pela E-Galáxia. Aqui está uma edição da minha fala nessa noite especialíssima. Veja as fotos do evento, pela incrível Kriz Knack, lá na minha fanpage. Vem!

Veja um tutorial para baixar o livro: