Hoje acordei gorda (2021 – 1999).

Neste janeiro reescrevi meu primeiro livro (Hoje acordei gorda, 1999, Editora Rocco) para uma futura produção audiovisual. Ela pode ou não vingar, pode ou não se tornar uma série, mas a minha parte cumpri com prazer: atualizar o texto do livro, afinal, em 22 anos muita coisa mudou em nossa sociedade e em mim (ainda bem). Por isso quis fazer uma transformação radical no conto que dá título ao livro (os demais contos permaneceram com poucas alterações). Aqui estão minhas duas interpretações para a mesma ideia: uma em 2021, outra em 1999.

Antes que eu encerre essas observações, preciso repetir: o melhor prefácio da literatura brasileira foi escrito por Mario Prata para o “Hoje acordei gorda”. Era meu livro de estreia e o autor, brilhantemente, inventou que eu não existia, que Stella Florence era um pseudônimo que ele resolveu criar e com o qual assinava aquele livro. Na época, a confusão gerou muitas risadas – e uma preciosa divulgação.

Hoje acordei gorda (2021)

Hoje acordei gorda. Estiquei o corpo todo, tão bom… Olhadela no relógio: oito e meia da manhã. É domingo, poderia dormir até o meio-dia se quisesse, mas com esse sol incrível lá fora? Nem pensar. Saltei da cama, a ardósia fria sob os pés desnudos me lembrou da casa da minha tia em Itapeva, onde eu passava as férias andando de bicicleta, escalando árvores e tomando leite da vaca, direto da vaca mesmo. Tia Neusa colocava duas latas de cinco litros no porta-malas do carro e lá íamos nós pegar leite num sítio próximo. O gosto era tão bom! Quando eu era criança havia um leite concentrado chamado Mococa no qual bastava acrescentar 5 partes de água para fazer um litro de leite. A embalagem era pequenina, em forma de pirâmide. Mamãe ficava furiosa comigo porque eu sempre roubava alguns da despensa e tomava puro: que água que nada, não quero nada diluído nessa vida! Tirei a camisola num movimento rápido e no outro abri o chuveiro. Ah, como eu fiz bem em cortar os cabelos! Tão mais fácil de lavar e ainda fico sempre arrumada. Me lembro do dia em que decidi cortá-los: eu estava na fila do supermercado e a minha frente uma moça muito elegante me chamou a atenção. Ela inspirava confiança, era extremamente feminina e possuía uma beleza nem um pouco óbvia. Inebriada com aquela presença, fiquei ali tentando compreender o que a tornava tão especial. Suas roupas eram informais como as minhas, os traços do seu rosto e seu corpo não possuíam nada de extraordinário, por que então ela parecia infinitamente mais arrumada, mais altiva, mais sedutora do que eu? Ah, os cabelos! Enquanto eu os trazia presos com uma piranha e alguns grampos, ela os exibia soltos, naturais, num corte moderno, curto. Ali resolvi mudar meu visual; não copiar o dela, pois que ela era outra pessoa, mas sim escolher um corte que revelasse o melhor de mim o tempo todo. Qual o sentido de, na maior parte do tempo, eu manter os cabelos presos, às vezes com mais ou menos capricho, mas sempre agarrados ao cocuruto? Ora, ou eu assumia uma rotina de cuidados para mantê-los compridos, bem cuidados e soltos (ou eventualmente presos de um modo elegante) ou ousava mudar – eu mudei. Como é bom me olhar no espelho sempre assim: linda! Como estou em casa? Linda. Como estou no trabalho? Linda. Como estou no jantar com meu namorado? Linda. Como estou no metrô às seis e meia da tarde? Desculpa aí: linda. Saí do banho, calcei minhas sandálias preferidas, um vestido leve e fui para a rua. Hoje meu café da manhã será especial: caldo de cana e pastel de feira. Ah, eu adoro caminhar pela Uruana: ela é uma daquelas ruas largas, cheias de árvores imensas que polvilham o chão de mil tons de verde, amarelo e vermelho. O sol, coado pelas folhas, nos chega morno. As maritacas dão seus gritinhos alegres aqui e ali e eu as tento identificar nos galhos: é inútil, elas não param quietas, mas eu adoro tentar. Encontro minha ex-professora do centro espírita, tia Ailema, na porta de casa, podando as plantas. Ela é botânica, portanto podas bem feitas só podem beneficiá-las: seu jardim é o mais bonito da rua. Me ofereço para lhe trazer algo da feira, mas ela diz que já foi bem cedo, obrigada. Depois da pequena fila na barraca, sento num muro e me lambuzo com pastel de queijo pelando de quente e o caldo de cana geladinho: que delícia! Trouxe duas sacolas: é hora de fazer a feira. As encho com banana maçã, uvas verdes, erva-doce, abacate, salsinha, limão, caqui e um pacote de castanhas de caju. Opa, me esqueci da banana da terra. Dei meia volta. Um dos meus doces favoritos é assim: corto a banana da terra em fatias finas, besunto-as no ovo, depois na farinha de rosca e frito. Ao lado preparo uma travessa com uma mistura de açúcar e canela. Após escorrer a fritura, ponho as fatias nessa travessa. O calor irá fazer com que elas adquiram uma camada de açúcar caramelizado com sabor de canela. Hum, não vejo a hora! Em casa, higienizo e guardo tudo: quem, depois da pandemia, consegue trazer compras para casa e não higienizá-las? Eu, não. Pego um copo de suco gelado e me sento com os pés para cima. Ponho aquela música que adoro: alto o bastante para eu ouvir sem miséria e baixo o bastante para não incomodar os vizinhos. Um beijo, um cheiro, um olhar demorado… é tão bom. Ainda não disse que o amo, ele também não, embora seja óbvio: nossos olhos (e peles) não mentem. Hoje é seu aniversário. Depois do plantão de ontem ele ainda deve estar dormindo. Às sete ele passará aqui para irmos jantar no Tao. Apanho o laptop: vou escrever uma carta como presente. Qualquer dia é bom para declarar amor, mas será especial que eu o faça através de uma carta no dia do seu aniversário e será mais especial ainda para mim porque agora eu, finalmente, me amo – e ele sabe, ele sente. Como é possível amar alguém sem se amar? Pois é. Não foi um caminho fácil nem curto e de vez em quando minha confiança dá umas rateadas, mas só de vez em quando. O sol já alcançou a esfera revestida de pedaçinhos de espelho sobre a estante e por isso minha sala está toda estrelada de luz. Hoje vou dizer todas as coisas lindas que estão guardadas aqui dentro e depois, irei mantê-las como bandeiras eternamente desfraldadas, irei corajosamente vivê-las, todos os dias da minha vida. E esse passo que faltava, o passo de ter coragem de dizer “eu te amo” vai ser dado hoje porque hoje, meu bem, eu acordei gorda!

Hoje acordei gorda (1999)

Hoje acordei gorda. Desgrudei os cílios, olhadela no rádio-relógio: mais de meio-dia.  Domingo, não me importo.  Ainda na cama pensei que o melhor almoço seria a pizza e o guaraná que sobrou do lanche de ontem. O bolo de milho meio solado da tia Cleide serviria de sobremesa.  Bom, vontade mesmo era comer quindim… Rápida inquisição à memória: não havia sequer um ovo na geladeira.  Sair, com esse frio?  Até que poderia, se eu não tivesse acordado gorda. Em duas horas almocei, em quinze minutos voltei a dormir: frio, gorda.  Acordei quando já estava anoitecendo, o que vou jantar?  Pesada, saí da cama e fucei a geladeira: restos.  Juntei todas as sobras da semana numa panela, disfarcei com creme de leite e alguns temperos.  Muito bom. Ressuscito uma lata de bolachas estrangeiras amanteigadas do armário e uns pedaços de ovos de Páscoa velhos.  Depois do Fantástico, volto para cama e o sono vem devagar.  Suavidade, mulher gosta de suavidade, um beijo, um afago, um olhar bem demorado, eu gosto. Ele me trata assim… Às vezes faço umas besteiras tão grandes…  Hoje: eu poderia, aliás deveria, se já não fosse tão tarde, iria mesmo sair correndo e voltar lá, só para dizer o quanto eu o amo, que não importa mais nada, que meu desejo é ficar com ele, e que vou lutar, sim! Porém de um minuto para o outro fica tão difícil suportar as pressões e, sem querer, eu cedo… e acordo gorda.  Ah… amor, me desculpe. Ontem você foi embora sob meu olhar flácido, não fui atrás, deixei que os outros dissessem, agissem, pensassem por mim, naquela impotência de deixa-para-depois. Amanhã: eu juro.  Sempre se tem esperança quando existe uma segunda-feira por vir: dia dos arremates, dos consertos, dos começos. Amanhã é segunda e eu vou, vou me jogar nos seus braços e gritar a plenos pulmões que não posso viver sem você, “vamos começar tudo de novo”?  Amanhã vou dizer que te amo.  Amanhã.  Hoje não tenho forças.  Me desculpe.  Hoje acordei gorda.

O exercício da escrita como desabafo.

Orquídea Te Abraça está em Ile-de-France, France.
Como narrar a violência e se libertar do trauma?
Quinta-feira teremos a alegria de receber para uma conversa Stella Florence, escritora brasileira que tem uma fala, ao mesmo tempo potente e sensível, leve e impactante, sobre o exercício escrita como desabafo e libertação.
Se você tem interesse, junte-se a nós e convide também aquela amiga que precisa saber mais sobre esse assunto!
O encontro será via ZOOM, pelo link: https://zoom.us/j/95576128099

O grupo “Orquídeas te abraça” oferece ajuda legal e psicológica às brasileiras que sofrem violência doméstica na França. Foi uma alegria poder abraçar, mesmo que virtualmente, através das minhas palavras, tantas mulheres em carne viva, além das companheiras que lhes oferecem precioso apoio para a cura dessas feridas. Cada mulher salva é um universo que finalmente poderá se expandir.

Na Universidade Europeia de Lisboa, 2

A violência contra a mulher é uma pandemia que nos atinge há milênios! Tive a honra hoje, neste 25/11/2020, de participar do evento “A eliminação de todas as formas de violência contra as mulheres” na Universidade Europeia de Lisboa. Parabéns à UE(@ueuropeia) pela iniciativa, pela coragem, pela acolhida às diversas abordagens de tão delicada questão. Me senti honrada por mais esse convite da Universidade Europeia, pelos confrades de tamanha envergadura que partilharam essa jornada comigo (Professor Dr. Eduardo Vera-Cruz Pinto, Professora Teresa Morais, Dra. Elisabete Brasil, Dr. Daniel Cotrim e, na coordenação virtual, Dra. Andreia Pereira) e pelas ricas participações dos telespectadores. Mudar toda uma cultura se faz assim: pouco a pouco, com seriedade e continuamente.

Um manifesto contra o estupro.

Carta da personagem ficcional Karina ao seu estuprador (retirada do meu romance “Eu me possuo”, sobre superação de um estupro, pela Panda Books):

Gustavo, se você não se sentisse culpado, essa conversa não existiria. Mas já que sua consciência está viva, eu tenho algumas coisas para te dizer. E vou dizê-las sem pressa.  

Você não se identifica como um estuprador porque pensa que estupros são feitos apenas por criminosos em esquinas escuras. Mas eu faço questão de abrir sua mente quanto a isso. Portanto, me ouça.

Há maridos que estupram suas esposas, há namorados que estupram suas namoradas, há amigos que estupram suas amigas. E muitos desses relacionamentos continuam, em meio às mordaças da necessidade, do medo, e até mesmo do amor asfixiado.

Você quer exemplos do que é estupro? Talvez você não queira, mas precisa deles para compreender a realidade. E, infelizmente, é muito fácil encontrá-los.  

Se você insiste em transar com uma mulher alcoolizada, sem que ela tenha condições de resistir às suas investidas, isso é estupro.

Se após o enterro do pai da sua namorara ela te pedir um calmante e você triplicar a dose para servir-se do corpo desacordado dela, isso é estupro.

Se você ameaça uma mulher dizendo que vai abandoná-la ou que vai matar sua irmã ou que vai tirar os filhos dela ou que vai procurar outra ou que vai demiti-la até que ela abra as pernas para você com olhos de horror, isso é estupro.

Se você faz sexo violentamente até a mulher, que em princípio te desejava, chorar, se encolher, ter medo de você, isso é estupro.

Se, em pleno ato, ela pede para você parar, seja por dor, por medo, por falta de vontade, por tristeza, por vergonha, o que for, e você não para, isso é estupro. 

Se ela não quer transar e você ignora seu “não”, tanto faz se essa pessoa é sua esposa, namorada, amiga, ficante, estranha, freira, virgem, mendiga, viúva, prostituta, isso é estupro.

Se durante o sexo a mulher paralisa, emudece, trava, e você continua, você nem pergunta o que houve, você segue sobre um corpo inerte até onde for conveniente ao seu prazer, isso é estupro. Há pessoas que não conseguem dizer nada quando se sentem agredidas e a paralisia em seus corpos é o efeito mais comum, sabia?

Creio que eu nem preciso falar sobre crianças, homens e trans – ou você acha que só mulheres são estupradas?

Será que eu ainda preciso dizer que se você convida uma moça para jantar na sua casa e você rasga seu vestido, você se enfia nela sem camisinha e à força, você estrangula seu corpo brutalizado, você permite que ela volte a respirar apenas porque seu gozo estúpido já terminou, você reclama dela estar menstruada, quando ela não estava, você vai se lavar no banheiro e depois, sem olhar para ela, diz “eu preciso trabalhar amanhã cedo” e a bota pra fora suja de sangue, será que eu preciso dizer que isso é estupro, Gustavo?

Quanto às suas justificativas, eu as ouvi e quero comentá-las uma a uma.

O fato de eu ter me sentido atraída por você, ter ido a sua casa, ter desejado transar com você, não significa que você poderia me violentar. Desejar um homem não é o mesmo que desejar ser estuprada por ele.

Você disse que era apaixonado por uma moça e que, após descobrir que ela saía com outro homem, outro para quem ela dava tudo o que negava a você, a ideia de sair comigo pareceu uma boa vingança. Daí veio o convite para jantar que eu aceitei. Após você me beijar no seu apartamento sem nenhuma delicadeza, eu me retraí. Você disse que errou ao supor que meu retraimento fosse rejeição a você e um deboche para com seus desejos. Eu nunca vi alguém debochar do outro chorando – e eu estava chorando. Mas e se fosse deboche? E se eu estivesse mesmo te rejeitando? Então um estupro seria uma reação justa? Imagine se mulheres saíssem por aí currando os homens que as tivessem rejeitado ou debochado delas. Imagine que elas acreditassem estar cobertas de razão. Seria um mundo seguro pra você, Gustavo?

Você diz que despejou sobre mim toda a raiva que sentia da outra moça – isso significa, de acordo com suas palavras, que você apenas errou o alvo porque quem merecia a violência era ela. Essa moça que saía com você, que se negava a você e se dava a outro, merecia apenas que você parasse de sair com ela, que desse um fora nela, que a ignorasse. Ela não merecia ser estuprada, como eu também não merecia.

Você disse que se soubesse que eu era virgem, não teria agido daquele modo. E se eu fosse uma mulher liberal, como sou hoje? E se eu tivesse dado pra meio mundo e quisesse dar pra você também? Aí o estupro faria sentido? Eu ser virgem me tornou mais injustiçada? Mais merecedora de compaixão? De acordo com esse raciocínio, não há problema algum em estuprar uma prostituta, por exemplo.

Mas você não parou o assunto aí: você disse que eu deveria ter te contado que era minha primeira vez e que isso faria você transar comigo com mais delicadeza e não como normalmente se faz. Gustavo, não me faça rir. Talvez essa desculpa fosse aceita por uma mulher sem qualquer experiência sexual como eu era, mas esse não é mais o meu caso. O que aconteceu aquela noite não foi um sexo normal, natural, desejado, vigoroso, gostoso, que duas pessoas experientes fazem – e você sabe disso.

Suas justificativas, como você pode ver, se tornam novas condenações.

Não, eu não aceito jantar com você. Não ouse supor que você me enternece dizendo que ainda se sente atraído por mim: minha inteligência é maior do que minha vaidade. A única reparação que me interessa é você jamais fazer com outra pessoa o que fez comigo.

Você disse que tem ido ao meu bar a fim de se desculpar por alguma má impressão que tenha deixado em mim. Você não deixou uma má impressão. Você cometeu um crime. Talvez agora você me pergunte por que eu não te denunciei já que afirmo que você é um criminoso.

Naquela noite, eu dei um nó no meu vestido para disfarçar o rasgo que você fez e me limpei como pude no elevador. Fiquei perambulando pela rua meio tonta, depois entrei num táxi e fui para casa da minha avó. Fui direto para o chuveiro limpar aquilo de mim. Me senti suja, me senti culpada, me senti inferior, me senti até ruim de cama: carreguei por muito tempo acusações que serviam para você, não para mim. Minha falta de experiência me fez acreditar que a culpa era minha, que eu apertei algum botão maldito em você e que talvez sexo fosse aquele horror mesmo. Por isso eu me mantive em silêncio. Mas meu corpo gritava! Em três meses eu engordei quinze quilos tentando me tornar incapaz de instigar desejo num homem, tentando criar uma segunda e grossa pele que me afastasse da dor. E pelos seis anos seguintes eu me mantive trancada.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu diria àquela menina assustada o que permiti que minha avó me dissesse anos mais tarde no chão do seu banheiro: que eu não tive culpa, que a sujeira daquilo tudo não estava em mim, que aquela coisa medonha tinha nome e que o nome feio dela é estupro, que sexo não era aquilo e que aquela experiência não poderia me definir nem definir o resto da minha vida. Foi um caminho longo e árduo, mas terminou.

Hoje essa carne mais macia, mais fértil de células e sensações, é parte de mim. Meu corpo não me afasta da vida, do prazer, dos homens interessantes – dos óbvios, sim, mas os óbvios eu não quero.  Hoje eu gozo, Gustavo, no sexo e muito além dele. E quem forjou a chave para abrir meu cativeiro fui eu. A força que hoje me habita é criação minha. Eu me possuo. Ninguém mais.

Por isso eu não preciso que você assuma o que fez – eu sei muito bem o que aconteceu e esse saber foi minha libertação, assim como pode ser a sua.

Embora meu jugo tivesse terminado antes do nosso reencontro, embora eu já estivesse livre, posso dizer que foi bom conversar com você, é bom escrever essa carta. Se você tivesse morrido ou sumido de vez, eu deveria te escrever do mesmo modo. Depois plastificar o papel e plantar a carta sob uma pedra robusta numa boa mata. Nessa pedra, eu entalharia o meu vitorioso nome. Aos sobreviventes, todas as honras!

Quanto a você, eu deposito uma semente de esperança no seu futuro e isso me faz bem. Sim, eu acredito que você tenha salvação: você se sente culpado, é indício de que tem sentimentos morais. Eu desejo, portanto, que nossa conversa sirva para que você se torne o homem que gostaria de ser. Desejo que no dia da sua morte, essa seja a única mancha do seu passado e que ela já tenha sido largamente coberta pelo amor que você doou aos outros. Desejo que você tenha uma esposa sensibilizada a te fechar os olhos. Que no último palpitar do seu coração, ao ver os olhos dela úmidos de uma saudade prematura, você sinta a alegria íntima de saber que foi um bom marido, um bom homem, um bom ser humano. Que o túmulo te seja leve. Que o reencontro com seu pai seja honrado e você não precise baixar a cabeça cheio de vergonha como está agora. Se você conseguir se tornar esse homem, Gustavo, estará perdoado.

Adeus.

Karina.

P.S.: Conheçam o https://podegritar.wordpress.com/

Na Universidade Europeia de Lisboa

A violência sexual exige atenção máxima e permanente em todo o mundo. Portugal e Brasil se irmanaram mais uma vez neste 16/10/2020 para discutir o tema em profundidade. Parabéns à Universidade Europeia de Lisboa pela iniciativa, pela coragem, pela liberdade que tivemos e pelo respeito às diversas abordagens de tão delicada questão. Me senti honrada pelo convite, pelo espaço generoso de conferência, pelos confrades de tamanha magnitude que partilharam essa jornada comigo e pelo resultado, pois mudar toda uma cultura se faz assim: pouco a pouco, com seriedade e continuamente. Da esquerda para a direita: Dr. Raimundo Neto, Professor da Universidade Europeia de Lisboa (por via remota); Dra. Teresa Morais, Professora da Universidade Europeia de Lisboa, Deputada e ex-Ministra da Cultura de Portugal (por via remota); Dr. Eduardo Vera-Cruz Pinto, Diretor do Curso de Direito da Universidade Europeia de Lisboa (presencialmente); Stella Florence, escritora, conferencista convidada e embaixadora do projeto “Pode Gritar” em Portugal (presencialmente) e Dra. Elizabeth Accioly, advogada e Professora da Universidade Europeia de Lisboa (presencialmente). Encontro: “O Direito e a Prevenção da Violência Sexual”. Local: Auditório da Universidade Europeia, Quinta do Bom Nome, Carnide. Data e horário: 16/10/2020, das 11h às 13h.

Playlist de “Enquanto o tempo não passa”.

Que tal, além de ler meu mais recente livro, “Enquanto o tempo não passa”, ouvir a playlist que montei especialmente para ele no Spotify? Aqui segue uma lista contendo o título de cada crônica do livro e as canções correspondentes, além do link para acessar a playlist. Vem!

Observação: Você encontra “Enquanto o tempo não passa” apenas em e-book (Amazon, Apple Store, Google Play Livros, Kobo Livraria Cultura, Saraiva) e pode comprá-lo através do site da e-galáxia: https://www.e-galaxia.com.br/produto/enquanto-o-tempo-nao-passa/ por R$ 14,90.

Branca de Neve, com ou sem príncipe (Overture, Snow White)

O Fantasma da Ópera: duas interpretações fascinantes (Think of me, The Phantom of the Opera)

Catfish (Movement, Hozier)

Grite! (Intuição, Oswaldo Montenegro)

O imenso Lupicínio Rodrigues (Felicidade, Caetano, de Lupicínio)

A força de Maria Madalena (Clair de Lune, Suite Bergamasque)

Hoje eu quero voltar ao tempo da escola (A dança das fadas, A cor do som)

A louca em você e as canções infantis (Ocean tree, Feathered Sun)

Gullen é aqui? (AmarElo, Emicida com Belchior)

Nem pequeno, nem príncipe (Je te pardonne, Pilule bleue e Sai)

Não suportamos ser plateia (Desde que o samba é samba, Gil e Caetano e Um Canto de Afoxé para o Bloco do Ilê, Caetano)

Gota d’água: a mulher que precisa morrer em nós (Gota d’água, Chico Buarque)

A arte não pode sofrer (Fernanda Takai, Terra plana)

Super-homem ou Clark Kent? (Toxic, Scott Bradlee’s Jukebox)

Terceirizar os filhos (Tango para Teresa, Angela Maria)

O psicopata nosso de cada dia (Afterhour, Kalabrese)

Gordelícias e o mal-estar na civilização (Jinguba, They must be crazy)

Por que você detesta certos personagens? (Pessoa nefasta, Gil)

Blanche e Martinón (Bandolins, Oswaldo Montenegro, Na Boca da Noite, Toquinho)

A síndrome de Norma Desmond (In heaven, Lady in the Radiator Song, David Lynch e Alan R. Splet)

A vida acontece enquanto a gente se recupera (Swimswimswim, Tosca)

Ratos, homens e mulheres (I’m not afraid, Jill Scott)

O pior tipo de egoísta (You’re the top, Ella Fitzgerald)

O senhor das moscas (The End, Monolink)

Por que os livros de Chico Xavier são tão populares? (O Sal da Terra, Beto Guedes)

O artista da fome (Não enche, Caetano)

Os guardas do Taj (Anunciação, Alceu Valença)

 

Enquanto o tempo não passa: livro novo!

Livro novo em plena pandemia? Sim! “Enquanto o tempo não passa” traz crônicas sobre diversas formas de arte: filmes, livros, peças, canções. Aqui a conversa é livre e eu conto tudo, de O fantasma da ópera a Lupicínio Rodrigues, de O poderoso chefão a Franz Kafka, de Branca de neve a Sob a pele do lobo, de Super-homem a Um bonde chamado desejo, de Catfish a O pequeno príncipe.

Por que um livro como esse agora? Respondo na introdução: “A arte está tão entranhada no nosso cotidiano que, muitas vezes, sequer a percebemos, mas ela continua lá, garantindo nossa sanidade, protegendo nossa humanidade. Ontem vi na TV o depoimento de um enfermeiro estadunidense. Ele contava que após um plantão especialmente difícil, ao voltar para casa, ligou o rádio do carro e foi invadido por uma linda música que o fez cair no choro. A canção o relembrou como a vida costumava ser antes da pandemia e que, a despeito da guerra que atravessava no hospital, ainda havia beleza no mundo. Não duvide: beleza gera esperança. E esperança ativa molda vida nova.”. O tempo (e esse tempo estranho que aparentemente não passa) não tem apenas duração, pode ter também profundidade .

Você encontra esse livro apenas em e-book (Amazon, Apple Store, Google Play Livros, Kobo Livraria Cultura, Saraiva) e pode comprá-lo através do site da e-galáxia por R$ 14,90. Vem!

O Fantasma da Ópera: duas interpretações fascinantes!

Não há dúvida de que “O Fantasma da Ópera” é um fenômeno, mas por que essa história nos atrai tanto?  Por que, muito antes do musical de Andrew Lloyd Weber, nós já nos debruçávamos estranhamente absortos sobre o livro de Gaston Leroux, de 1910 (um livro que, do ponto de vista literário, não chega aos pés dos grandes romances do século XX)?

Em toscas pinceladas, o livro (e o musical) trata de Christine, uma jovem soprano que se divide entre seu misterioso professor de música (Érik, o Fantasma da Ópera) e seu belo amor de infância (Raoul, o Visconde de Chagny).  Estamos então a falar de um banal triângulo amoroso? De modo algum.

A trama nos leva a duas interpretações diferentes e igualmente fascinantes.

A primeira razão para que “O Fantasma da Ópera” seja tão atraente, a maior, a mais profunda, a mais universal é que todos somos Christine e o Fantasma e Raoul estão dentro de cada um de nós. A história é um mito moderno, um símbolo de como se definem as decisões no fundo das nossas almas. O Fantasma simboliza nossa força criativa, nossa vida interior, nossos desejos mais íntimos e vitais, muitas vezes considerados loucos pela sociedade; Érik habita o nosso inconsciente (não à toa ele vive nos subterrâneos do teatro). Já Raoul é a vida exterior, que acontece sobre o palco, à vista de todos, é se encaixar nos padrões da sua cultura e do seu tempo, é fazer tudo conforme esperam de você, sem espaço para dúvida, desafio, mudança.

Portanto, se escolhermos Raoul e a vida de superfície, teremos um perfil no Instagram cheio de curtidas, uma vida exterior invejável, uma família tradicional, muitos ternos e vestidos no armário, mas seremos secos, vulgares, ocos. Já se escolhermos o Fantasma, seremos provavelmente chamados de loucos, mas faremos aquilo que fomos talhados para fazer, aquilo que nossa alma realmente deseja. Quando tentamos silenciar o Fantasma, quando não o aceitamos, não o incorporamos de algum modo à luz da ribalta, ele se torna agressivo, destruidor, se transforma em sintoma, doença, fobia, e nada diminuirá sua fúria, nem mesmo uma dezena de psicotrópicos.

Desse modo fica claro que o que parece ser um triângulo amoroso é, na verdade, a dúvida que enfrentamos cada vez que temos de fazer uma escolha, seja ela pequena ou grande. Por que temos raiva da contínua incerteza da personagem Christine? Por que nos sentimos fascinados pelo Fantasma, mesmo quando ele se torna violento? Por que torcemos para que Raoul pacifique aquele drama logo de uma vez? Por que ora queremos que Christine fique com Raoul, ora com o Fantasma? Porque nós somos ela. O mito do Fantasma da Ópera, portanto, simboliza tudo que nos divide, que nos move, que nos petrifica, que nos expande.

Eu tenho minhas dúvidas se Gaston Leroux sabia que estava escrevendo um romance com esse alcance todo, mas aposto que Andrew Lloyd Weber, que o adaptou para os palcos em 1986 e para o cinema em 2004, sabia muito bem o que estava fazendo. É inegável que ele aperfeiçoou a história. Apesar de um detalhe desnecessário na sua biografia (um trecho da canção “The music of the night” é igual ao de uma ópera de Puccini e um acordo entre as partes solucionou a contenda em sigilo), seu talento é inquestionável, mesmo levando em conta as escolhas seguras que ele fez em termos musicais. Menção honrosa para Charles Hart e Richard Stilgoe que compuseram as letras das canções, hoje tão populares, como All I ask of you, Angel of Music, The Phantom of the Opera, Think of me, Masquerade: cada uma dessas letras sustentaria um novo e detalhado texto a respeito.

“Christine, é preciso que me ame!”: essa é a primeira frase que o Fantasma da Ópera diz no livro e ela nos coloca no caminho da nossa segunda interpretação.

Érik e Raoul são ambos homens abusadores, que submetem sua amada a um inferno no qual a última coisa que importa é o que ela realmente quer. Há, porém, uma diferença fundamental entre Érik e Raoul: o Fantasma é um abusador consciente, irremediável, perverso, sádico, psicopata; já Raoul é um abusador inconsciente, ignorante, tolo, porém não mau.  Na vida há também essas gradações: há aqueles homens (ou mulheres) que sentem prazer em provocar sofrimento e submeter o outro às suas vontades, como também há aqueles que são abusadores por falta de bons exemplos, de uma boa formação, de uma cultura que privilegie a parceria no amor.

Raoul é inconveniente e abusador no livro, já no musical isso foi bastante suavizado, ele mais tenta ajudar Christine do que ditar seu destino. Quanto ao Fantasma, porém, tanto no musical como no romance de Gaston Leroux, é inquestionável que ele é um abusador da pior espécie.

Christine não acreditava no Fantasma da Ópera, mas sim no Anjo da Música, prometido por seu pai: “Quando eu estiver no céu, prometo que vou enviar o anjo para você”, ele disse. Desse modo quando começou a ouvir uma voz maviosa em seu camarim que dizia ser o Anjo da Música, voz cujo dono era invisível e lhe oferecia aulas sublimes, ela aceitou. A ilusão era mantida por um engenho arquitetônico (Érik estava atrás das paredes) e outro vocal (o Fantasma treinou sua voz para projetá-la em qualquer lugar). É sempre assim: num relacionamento abusivo há dois responsáveis, mas só um culpado. Christine era parte daquela relação, era também responsável por ela, mas estava iludida quanto à verdadeira natureza do Anjo da Música, ela não agia com malícia e uma agenda prévia como ele, ela era toda entrega e esperança. Essa disposição não se assemelha a incontáveis casos de abuso?

Christine melhorou muito seu canto a partir das aulas, pois o Fantasma era de fato talentoso, como a maioria dos abusadores. Quantas coisas maravilhosas essas pessoas cheias de energia e verve poderiam fazer caso se pautassem pelo que é justo, nobre e bom?

Em apenas três meses Érik, o Fantasma, havia se tornado não apenas o mestre de Christine, mas seu dono. O Anjo da Música (ou a Voz, como ela também costumava chamá-lo) a proibia de se casar e dizia que se ela o desobedecesse ele iria embora para sempre. Essa não era uma ameaça qualquer: o pai de Christine a ensinara que os músicos geniais o eram porque haviam recebido a visita do Anjo da Música. Ela acreditava, portanto, que perder o Anjo seria perder o dom de cantar!

Certo dia, cansado de ser apenas uma voz, o Fantasma sequestra Christine. Ali, nos subterrâneos, ela é apresentada à figura deformada daquele a quem ela acreditava ser um espírito, o Anjo da Música (é preciso dizer que Andrew Lloyd Weber embelezou muitíssimo o Fantasma, no livro ele é uma criatura inteiramente repulsiva). Em seus domínios, Érik submete Christine a todo tipo de constrangimento até o ponto em que ela tenta se matar. Quando finalmente é libertada, ela diz a Raoul: “Se eu não voltar para junto dele, grandes desgraças poderão acontecer”. Raoul pergunta: “Ele a ama tanto assim?”. E ela responde “Ao ponto de cometer um crime!”. O nome desse sentimento não é amor, mas era assim confundido, como o é até hoje. Abusadores não amam ninguém, mas amam usar todos.

No entanto não eram apenas ameaças que faziam com que Christine voltasse ao Fantasma. Havia também o fascínio: “Ele canta!… E eu o escuto e fico!”. Não é segredo que todo abusador perverso costuma ser cheio de carisma e magnetismo e que mantém a vítima ao seu lado mesmo depois de ela saber que vive uma relação abusiva justamente porque, ao lado da violência, há o encanto. Christine, mais tarde, sintetizaria sua situação dizendo: “É triste, mas eu não era mais dona de mim mesma: eu era um objeto nas mãos dele”.

Assim estava nossa protagonista: sofrendo de um lado chantagens emocionais, exigências descabidas, ameaças e até sequestros feitos pelo Fantasma da Ópera, um abusador perverso, de outro, suportando a insistência de Raoul em ter seu amor correspondido (no livro isso é muito claro, no musical, não) e em convidá-la sem tréguas a fugir, abandonar a carreira e se casar com ele (coisa que acontecerá no final, com um detalhe nem um pouco desprezível: Christine nunca mais voltará a cantar). Seja com o Fantasma ou com Raoul, Christine não é livre.

Talvez alguém diga que um homem como Raoul, que não sente prazer em fazer Christine sofrer, que até mesmo supõe a estar libertando, é um abusador que pode ser salvo, que pode ser mudado. De fato, com o tempo, ele pode ser salvo – mas por ele mesmo, mais ninguém. Esse não é um trabalho que compete a sua parceira ou ao seu parceiro. Na vida real, se afastar do abusador e romper todo tipo de relação com ele é a única saída. É preciso se transformar numa parede, num muro, num monolito de mármore perfeitamente liso e impenetrável, sem nenhuma fresta, rachadura, fissura por onde ele possa entrar. Christine, porém, não se torna um monolito.

No final da história temos uma transformação milagrosa. Novamente sequestrada por Érik, Christine aceita se casar com ele para salvar Raoul. O Fantasma, pela primeira vez, beija alguém e a emoção é tão grande que ele começa a chorar. Cheia de compaixão Christine chora com ele e suas lágrimas se misturam. Esse ato de amor verdadeiro faz com ele a liberte. Na vida real, porém, isso não acontece. Supor que se é capaz de transformar um abusador perverso é uma estrada para o abismo.

No livro, o Fantasma morre pouco depois de abrir mão de Christine (como se ele não conseguisse existir sem ser perverso). No musical, porém, ele permanece vivo e acompanhando, à distância, os passos da amada.

Uma frase de Gaston Leroux nos mostra o destino de quem, como Christine, se deixa tragar por tudo que é superficial (de acordo com a interpretação mítica) ou por um relacionamento abusivo (no caso do segundo modo de ver a história). A partir do casamento com Raoul, o autor nos informa que “A terra nunca mais ouviria falar da sublime e misteriosa cantora”. Ela esqueceu de si mesma, de sua arte, de sua força. Portanto, seja qual for a perspectiva sob a qual analisarmos “O Fantasma da Ópera”, Christine é um modelo que não deve ser seguido.

 

Eu e você somos um perigo para a paz mundial.

É comum ouvir por aí que iniciativas como o 21 de setembro, Dia Internacional da Paz, são demagógicas e inúteis. O ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, explicou que um único dia de cessar-fogo e não-violência faz com que se possa, nas zonas de conflito, prestar assistência humanitária mais facilmente, como retirar civis dessas áreas, erguer abrigos, vacinar crianças, etc.

Aparentemente a questão da paz mundial é grande demais e escapa da nossa esfera de influência, mas a realidade é outra. Não tenho eu a pretensão de ser a emissária da paz com auréola de escritora politicamente correta, meu objetivo é outro: quero fazer com que você perceba o quanto você é violenta ou violento. Não olhe para os lados, estou falando com você, sim. Eu? Eu já sei que sou feroz – e tento não ser justamente porque sei que sou.

Impossível não haver violência em massa porque nós somos todos belicosos (com exceção a missionários obscuros espalhados pelo globo). Qualé, ainda ontem estávamos no Coliseu levantando polegares! Basta colocar o orgulho de lado para chegar a essa conclusão.

Amplifique sua fúria para com o vizinho que arranhou a porta do seu carro e você terá um perfeito George Bush. Você era contra a Guerra do Iraque, claro, mas não suporta que alguém te dê uma fechada no trânsito e, se puder, vai dar um jeito de ultrapassar o… o… quem é mesmo que está ali atrás daquela direção? O inimigo!

Como consequência de um povo belicoso temos uma cultura da truculência. As pessoas falam com orgulho que são do tipo que “não leva desaforo para casa”. Todas as vezes em que eu não levei desaforo para casa, levei outras coisas: remorso, gastrite, cabelos brancos, rugas, pesadelos, dores de cabeça, músculos tensos. Sem contar que dessa forma acrescentei novos problemas ao problema original.  Dar chilique em qualquer lugar que não seja sozinha-trancada-no-banheiro é ridículo, primata, patético. E mesmo sozinha-trancada-no-banheiro, ainda assim, eu contribuo para a pestilência vibracional do meu ser, da minha casa e do planeta.

Um desdobramento dessa cultura agressiva se vê claramente nas redes sociais. Parece uma ofensa particular alguém pensar diferente de nós. Parece que é uma declaração de guerra. Parece que estão marchando sobre o nosso gramado. Pra quê tantos dentes rilhados? Outro dia escrevi que discordar é uma arte que tem de ser sempre exercida com elegância e que concordar é uma arte que tem de ser sempre exercida sem lisonja. Desarmar nossas palavras talvez seja um início.

A verdade é que eu e você somos um perigo para a paz mundial. Lutar pela paz, portanto, começa por proteger os outros de nós.

 

Todas nós somos Blanche Dubois

Você conhece Blanche Dubois? Não? Nesse caso, preciso urgente te apresentar à famosa personagem de Tennessee Williams. A razão é simples: eu sou Blanche, você é Blanche, todas nós somos, em alguma medida, essa mulher que mergulha no desejo como oposição à morte, que foge da luz da realidade tanto quanto da luz física que expõe em seu rosto a desesperadora passagem do tempo, que toma banhos como Lady Macbeth lava as mãos, que sempre dependeu da bondade de estranhos, que vê as coisas como elas deveriam ser e não como são, essa mulher que inventa seus amores, que os veste de encantos e qualidades que eles jamais tiveram, que se dedica tão freneticamente a tal invenção que está à beira de um colapso absoluto.

Blanche é tão grandiosa que já foi interpretada por Jessica Tandy, Vivien Leigh, Eva Wilma, Maria Fernanda, Ann-Margret, Glenn Close, Leona Cavalli, Natasha Richardson, Cate Blanchett, e recentemente foi trazida à luz de forma emocionante, visceral e estupenda por Maria Luísa Mendonça. Pausa para as palmas. Muitas!

Blanche

Antes de continuar é preciso que você conheça a história de “Um bonde chamado desejo”. Atenção: mil spoilers a seguir!

Stella Kowalski está grávida e perfeitamente adaptada a uma vida sem luxos, mas repleta de desejo, junto ao marido, o cafuçu-tesão Stanley Kowalski, quando sua irmã, a sofisticada e coquete Blanche Dubois, chega falida, de mala e cuia. Os três passam assim a dividir um pedaço de cortiço: intimidade, raiva, orgulho, culpa, medo e desejo de sobra, privacidade nenhuma.

Esse convívio é demais para Blanche, que acaba por enlouquecer no final. Muitos sustentam que ela perde a razão já instável depois que o cunhado machão a estupra. Mas ela rompe com a realidade de vez quando Mitch, um namorado e pretendente a marido, rompe com ela. Não é, portanto, a brutalidade de Stanley Kowalski que retira sua última esperança de sanidade e amparo, mas sim o abandono de Mitch. Eis o maior dos medos femininos: o abandono.

Apenas com Mitch ela alcança dois preciosos momentos de contato com a realidade, da qual sistematicamente fugia. No primeiro deles, após um passeio, Blanche, que é viúva, conta a Mitch sobre seu casamento com um jovem gay, o flagrante sexual, o suicídio dele e, deixando de lado qualquer manipulação para seduzi-lo, desabafa que depois de perder o ex-marido, que era seu sol, nunca mais houve outra luz em sua vida que fosse mais forte que uma pobre luz de vela. Mitch então propõe que ambos unam suas solidões e fiquem juntos. É uma cena tocante e repleta de esperança.

Havia a possibilidade de que uma relação verdadeira fosse construída entre Blanche e Mitch, seriam então dois náufragos que conscientemente se agarrariam um ao outro, reverenciando com serenidade esse modo de sobreviver. Stanley, porém, furioso com Blanche, que costuma expor a diferença de estirpe que há entre ele e as irmãs Dubois, conta a Mitch tudo que descobre sobre o passado dela, o que gera o rompimento.

O segundo contato de Blanche com a realidade, através de outro encontro com Mitch, se dá quando ele não aparece em seu aniversário e, depois que a festa amarga termina, ele chega bêbado, exigindo vê-la sob a luz, exigindo aquilo que ele não teve todo o verão, querendo chegar às vias de fato. Blanche diz que, sim, teve muitas intimidades com estranhos depois do suicídio do marido. “Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro.” Depois, ela pede, “case comigo, Mitch!”, mas ele retira sua última esperança de proteção, ele fecha a última fenda na rocha do mundo na qual ela poderia se abrigar, dizendo “você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe”, e é aí, nesse exato ponto, que ela perde de vez o contato com o real. Quando Stanley chega da maternidade na qual deixou Stella internada à espera do bebê, encontra Blanche já em surto, travestida como em um carnaval romântico.

Havia um pássaro caindo com ambas as asas quebradas: esta é a Blanche que o estilingue-estupro de Stanley atinge. Um pássaro já ferido de morte e em franca queda ao abismo.

Blanche Dubois é mais do que uma boa personagem: ela é um riquíssimo arquétipo feminino. Eu chegaria mesmo a dizer que Blanche e sua irmã Stella abarcam todos os aspectos do feminino romântico porque, enquanto Blanche escolhe a fantasia, Stella, ao contrário, cavalga e domina o real. E nessa mesma gangorra nos debatemos nós, mulheres modernas. A sorte é que nossos destinos não estão traçados desde o início, como o de Blanche: nós ainda podemos escolher não a fantasia que enlouquece, mas a realidade que estrutura.