Tesouro

Loucura 30

Encontro fios de cabelo comprido no banheiro dele. Eu tenho cabelos curtos, como qualquer um pode ver. Brinco que a faxineira dele anda desleixada (leia-se “eu percebi sua falta de cuidado em esconder uma possível transa fortuita, baby”) e esqueço o assunto. Escolho esquecer porque realmente acredito que pode ter sido uma noite desimportante, fruto de uma pequena crise que tivemos ou, num cenário mais otimista, os fios poderiam pertencer a uma visita, a uma irmã, a uma amiga (alguns homens têm amigas com quem nunca transaram – como os meus amigos, por exemplo).

No entanto, ontem ele me leva para jantar e beija a palma da minha mão (sinto um frio na espinha: ele nunca fez isso), diz que eu sou incrível (lá vem algo ruim), que ele me adora (certamente vem algo muito ruim), que eu faço bem pra ele (me preparo para o baque), que me quer na vida dele para sempre seja de que modo for (seja de que modo for?) e que, sim, aqueles fios de cabelo eram de outra mulher com quem ele tem saído (ah, chegamos ao ponto).

Então enquanto eu me afogava de desejo, sozinha em casa, havia alguém com ele. Certo. Então ele me acha tão incrível que está saindo com outra. Perfeito. Se me achar um pouco mais incrível, a seguir ele puxará minha saia para limpar o cocô do cachorro sarnento no qual ele inadvertidamente pisou ali na esquina. E se me achar ainda mais incrível, não restará outra coisa a fazer, de acordo com esse raciocínio, a não ser me dar um tiro à queima-roupa.

Voltemos ao jantar. Fui civilizada, como sempre. Há algo mais inútil do que chiliques ou lágrimas? Eu não grito, não xingo, não brigo, não dou escândalos, não incorporo a fúria de mulher traída, apenas aceito as coisas como são e desapareço. E essa aceitação doída, porém resignada, essa imediata ação de sumir tem em mim um efeito de alvejante, de ácido: depois que passa a tristeza imensa, imensa, não resta mais nada. Algo ali se quebra, se esteriliza e é irrecuperável.

Eu me recuso a manter mágoa ou dor ou carinho ou compaixão por alguém que não percebeu que tinha um tesouro nas mãos. Um tesouro não se autoproclama: ele é. Aproveita o tesouro quem tem inteligência e sensibilidade: quem não tem, volta, cedo ou tarde, à sua própria miséria.

Loucura 9

Loucura de Estimação: vídeo do lançamento na Martins Fontes

Eu e o portal  Exnap estivemos no Sarau Conversar, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo), dia 24/04/2018, falando sobre amor, recomeços e o lançamento do “Loucura de Estimação”, pela E-Galáxia. Aqui está uma edição da minha fala nessa noite especialíssima. Veja as fotos do evento, pela incrível Kriz Knack, lá na minha fanpage. Vem!

Veja um tutorial para baixar o livro:

No amor e no sexo, você sabe receber?

Você compra as comidinhas preferidas do seu homem, troca os lençóis e as toalhas, encomenda o livro que ele estava procurando, marca o retorno dele no cardiologista, encontra um encanador para consertar o vazamento no escritório, escolhe dois filmes e uma série na Netflix para rechear o fim de semana, veste aquela calcinha que o excita e acende o incenso que ele aprecia. Embora esteja tudo aparentemente bem, algo não se encaixa. Você compensa esse estranhamento postando fotos românticas nas redes sociais: a cada like você tenta afogar aquela sensação ruim, no entanto, como grãos de areia escorrendo inexoravelmente por uma ampulheta, ela se torna cada vez mais incômoda. O desencaixe passa a desassossego que se transforma em irritação e por fim em desespero. Então, um dia (em mais um desses dias comuns nos quais você tão bem se amordaça), seu homem diz que está indo embora – e você, como a vítima que supõe ser, rebenta de dor.

O que ele fez de errado ou deixou de fazer não me importa, eu não estou falando com ele – estou falando com você e é pra você que eu proponho uma reflexão: será que, sem perceber, com a melhor das intenções, você não acabou sabotando seu relacionamento? E pior: se sobrecarregando no processo?

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Sim, é sabotagem se tornar mãe do seu homem – ele é perfeitamente capaz de marcar suas próprias consultas médicas, encontrar encanadores, compras seus livros e cuecas. Boicote claríssimo é dar, dar, dar sem deixar espaço para receber, sem ensinar o outro a te dar também. Ele não se sentia mais capaz de te ajudar em nada, não se via como gerador de novas experiências, parceiro nas dificuldades, amante de arroubos não programados, necessário. Diante de uma mulher que dá tudo e que não parecia precisar de nada, ele se sentiu impotente como uma criança, como um filho – e filhos sempre vão embora.

Quando alguém te dá uma colherada de creme de avelã e você fecha a boca, trinca os dentes, faz que não com a cabeça, ele não te oferece mais. No entanto, se você sorrir, botar a língua ansiosa para fora, comer tudo, beijá-lo toda melada de alegria, ele perceberá quão prazeroso é dar – e, sobretudo, o quanto você está aberta para receber.

Portanto, quando um novo amor chegar (porque todo deserto tem borda, fronteira, fim), elimine dois hábitos perniciosos da sua vida (aliás, elimine-os já): rejeição aos elogios e a triste frase “não precisa”.

Quando ele propuser cruzar a cidade para te pegar em casa em vez de vocês se encontrarem na porta do teatro, quando ele te oferecer uma massagem ou ajuda para guardar as compras nas prateleiras mais altas não diga “não precisa”, porque a verdade é que precisa, sim, e você adora o carinho dele, sim, e você quer a parceria dele, sim. Que tal aprenda a receber?

E quando ele disser que você está ainda mais linda aquela noite, que ele adora conversar com você, que você é a mulher mais gostosa do universo, nem pense em responder com os olhinhos baixos “imagina” ou “que é isso” ou ainda “ah, exagerado”. Simplesmente receba! Se refestele nos elogios, se lambuze neles, ensine-o que palavras como essas acendem o seu corpo. Mais tarde, quando ele fizer um longo sexo oral em você, não fique ansiosa para retribuir: relaxe e permita que ele tenha prazer em te dar prazer.

O meu desejo é que a partir de agora, no amor e no sexo, você receba tudo, tudo o que merece – sem culpa e sem sabotagem.

Prece (do livro “Loucura de Estimação”)

 

Senhor, daqui do fundo onde estou, nesse abismo onde só as migalhas chegam, migalhas sobre as quais me lanço como um chacal enlouquecido, eu, que já estou de joelhos, uso um resto de lucidez para chorar esta prece.

Pai, me impeça de me alimentar dos restos dos banquetes que não foram feitos em minha homenagem.

Não permita que eu esfregue minha língua no musgo amargo que cresce na soleira da porta dele.

Endureça meus joelhos, para que eu não me curve até lamber o chão em que ele pisa.

Rompa meus tímpanos, para que eu não me agarre a essa ou àquela palavra banal e a transforme em declaração de amor na minha alma faminta. Se eu ouvir qualquer coisa, Pai, eu vou acreditar que é amor, então, por misericórdia, me ensurdeça.

Quebra meus dentes para que eu não seja capaz de roer as paredes nas quais as mãos dele descansaram distraídas.

Me ensina a parar de rastejar, Senhor, a parar de me adaptar ao inaceitável, a parar de sorrir enquanto o punhal se acolchoa na minha carne.

Levanta meus olhos para além da existência desse homem-prisão.

Quando ele me der pouco, quando ele me olhar com pena, quando ele se mostrar evasivo, quando ele for violento, quando ele me espancar com seu silêncio, com suas palavras, com suas mãos, me ampare, me fortaleça, me ajude, Pai, de uma vez por todas, a ir embora.

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Loucura de Estimação: crônicas de amor e sexo

“Loucura de Estimação”, crônicas de amor e sexo, de Stella Florence, pela E-Galáxia: apenas em e-book na Amazon (http://amzn.to/2CFaPil) Livraria Cultura (http://bit.ly/2FsNfZf), Saraiva (http://bit.ly/2BLeGxE), Apple e Google Play (http://bit.ly/2EOiPzr). Preço: R$ 11,90 (não é promoção, é o preço de capa do livro). Prefácio por Daniel Bovolento: vem!

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Entrevista super bacana comigo para o EXNAP: http://www.exnap.com.br/loucura-de-estimacao-novo-romance-de-stella-florence/

 

Como adquirir um livro publicado pela e-galáxia é simples. Veja:

Passo 1: ESCOLHA A LIVRARIA de sua preferência: AmazonAppleGoogle PlayKoboLivraria Cultura e Saraiva. Se você já comprou em algum desses sites (mesmo que não um e-book), o seu cadastro está pronto. Isso facilita.

Passo 2: entre no site da livraria e utilize a ferramenta de BUSCA. Digite o título do livro ou o nome do autor que você procura, selecione o item e conclua a compra normalmente.

Passo 3: para ler um e-book, ele deve ser aberto em um APLICATIVO Reader (ou seja, um programinha para leitura de livros digitais). Cada livraria tem o seu. É só baixá-lo gratuitamente.

Para ler em TABLETS ou CELULARES, vá à loja de APP do seu aparelho, procure e baixe o aplicativo Reader da livraria (kindle, iBooks, iba, Play Books, Kobo LC, Saraiva reader).

Para leitura em COMPUTADORES, baixe o aplicativo Reader diretamente do site da livraria em que realizou a compra.

Passo 4: quando abrir o aplicativo Reader, insira e-mail e senha idênticos aos utilizados na livraria.

Pronto! O e-book estará disponível para leitura em alguns minutinhos.

 

Como dar um ​e-book de presente:

Veja como é fácil e simpático presentear seus amigos com um e-book:

  • entre no iBooks ou iTunes do seu celular ou tablet;
  • encontre o livro que deseja presentar;
  • uma vez encontrado o livro, clique no ícone “Compartilhar” no canto superior direito.

 

Ensaio sobre o Loucura de Estimação feito pelo professor de literatura Pablo Diassi.

Loucura de estimação – crônicas de amor e sexo (2018) é o mais recente livro da escritora Stella Florence no qual grandes questões da literatura são elaboradas com uma linguagem nua que despe e expõe o leitor minuciosamente ao próprio corpo e a tudo que a carne sente, inclusive, a carne da palavra.

Loucura de estimação tem a mesma atmosfera, o mesmo relevo apurado e o mesmo caráter instigante visto em Big little lies (2017). No entanto, no campo da literatura tudo é mais visceral, mais brutal e também mais pensado, mais reflexivo.

Amor e sexo são afetos que se voltam para a ação, ou seja, são relacionados com um fazer – a gente faz amor, a gente faz sexo.

Neste livro Stella Florence está bastante concentrada em pensar o que fizemos do amor e do sexo, no contexto contemporâneo, e também o que nós fazemos uns com os outros quando fazemos amor e sexo.

Nesse sentido posso afirmar que o livro nos prepara para uma ética do amor e uma ética do sexo pois, em cada página, pensamento e ação estão continuamente se enfrentando até o limite para descobrir o melhor jeito de realizar tais afetos.

Se há quem confunda felicidade com nervosismo, há também que confunda amor com romantismos, violência, submissão, assedio, abuso, vício. Stella investiga, intimamente, as situações e os sujeitos que fazem do amor um drama, uma ferida, um crime, um trauma, sem deixar de pensar os (breves) momentos em que o amor se revela maior que tudo isso, porém, evitando a ideia falsa de que o amor cura tudo, ou pior, de que um novo amor é mesmo a melhor solução para qualquer problema.

Do mesmo modo Stella busca o sexo. Mas não o sexo resumido ao orgasmo e ao gozo, e tampouco um sexo afirmativo, no sentido de uma performance vulcânica, embora tais pontos não escapem. Stella pergunta pelo sexo no qual há encontro, entrega e ambos os corpos são felizes considerando tanto a diversidade e a cumplicidade que há quando algo é feito a dois quanto a singularidade que envolve o momento.

É preciso coragem para falar de carinho, atenção, cuidado e gentileza, enquanto grandes forças ativas, quando o sexo tornou-se principalmente o monotema de todo pancadão e de todo MC moralista.

Dos desencontros nasce a loucura, especialmente esta loucura de estimação, e o desencontro é, a meu ver, o grande personagem que Stella cria para este livro. O desencontro entre os afetos e a indiferença, o desencontro entre a traição e a confiança, o desencontro entre a generosidade e sexo, o desencontro entre o amor e o mundo. As nossas ações, guiadas para o sexo e o amor, também se desencontraram. Nós nos perdemos. Mas não estamos perdidos – ainda.

Vários desencontros, um seguido de outro, e todos eles em uma só jornada, em uma só busca – a busca pelo próprio encontro. E assim encontrar a si mesmo, encontrar um bom amigo, quem sabe encontrar um amor. Mas podemos também encontrar novos caminhos para experiências melhores e sem qualquer estima pela loucura.

Loucura de estimação é uma experiência melhor. Stella Florence já trilhou parte desse caminho e, bem lá da frente, nos chama para junto dela. Ler e  reler este livro é dar longos passos na direção da força e da lucidez.

Pablito

Assédio: a cultura da insistência

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“Não seja uma mulher fácil, minha filha!” Nós crescemos ouvindo isso. E, como boas meninas, obedecemos. Nos tornamos tão difíceis, mas tão difíceis, que nos perdemos até do nosso próprio desejo. E ainda sedimentamos nos homens, sem querer, a ideia de que eles precisam insistir para nos conquistar.

Essa cultura da insistência é um dos elementos que fazem com que alguns homens não respeitem o nosso “não” e confundam assédio com paquera. Qual a diferença entre eles? Simples: o consentimento. Quem respeita o “não” de uma mulher jamais será um assediador.

Atenção: exceções lamentáveis e criminosas como haver uma parcela ínfima que denuncia falsos crimes ou de algumas mulheres também assediarem ou, ainda, de existirem homens que são vítimas desse constrangimento, nada disso pode ser usado como tática para minimizar e desqualificar a realidade: a maioria esmagadora de assédios que destroem carreiras, relacionamentos e vidas são feitos por homens tendo mulheres como alvo. Portanto dizer “ah, mas tem mulher que inventa assédio pra prejudicar o cara” ou então “ah, mas homens também são assediados” não é defesa e é vergonhoso tentar usá-las como tal.

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Eu insisto na questão porque tudo se resume a isso: não haveria dúvida sobre o que é paquera e o que é assédio se o “não” das mulheres fosse respeitado. O desejo é livre e sempre será: ele não está sob ataque. Quando é recíproco pode se tornar concretização de prazer; já forçar a pessoa a realizar seu desejo contra a vontade dela é crime. Assédio e paquera não se parecem em nada!

Os homens, porém, se perguntam: como saber quando ela diz realmente “não” ou quando está apenas fazendo charme para supostamente se valorizar porque assim lhe foi ensinado? Um “não” constrangido é bem diferente de um “não” mimoso e coquete, mas aqui vai uma dica útil: insista, no máximo, uma vez.

Ouvi outro dia um conhecido dizer: “Se eu não tivesse insistido muito não teria me casado com minha mulher”. Teria, sim. Sua esposa deve ter sido criada com os valores que tão bem conhecemos e que precisamos mudar para as próximas gerações serem mais felizes. No entanto, se você tivesse insistido apenas uma vez e depois seguido com sua vida, ela daria um jeito de te mostrar que gostaria de receber um novo convite. E se ela, diante da interrupção da sua insistência, desistisse de você, restaria uma questão a ser feita: vale a pena se casar com alguém cujos preconceitos sufocam o amor? Com uma pessoa que é tão vaidosa a ponto de exigir que o homem rasteje vinte quilômetros esfregando a cara no asfalto por ela? Eu acho que não.

Agora é hora de nós, mulheres, fazermos a nossa parte. Além de denunciar os agressores (desde que a vítima tenha estofo emocional para isso – e deve-se respeitar o fato de que nem sempre ela tem) é preciso acabar com essa atitude de fazer-se de difícil, de esconder nosso desejo, de fazer jogo, de manter a cultura da insistência ativa. É válido dar um tempo para conhecer o outro? É bom querer saber onde se está pisando? É útil se certificar de que a experiência não será uma fria completa? Sem dúvida! O que não é válido, nem bom, nem útil é podar nosso desejo em nome da regra “não seja uma mulher fácil” e, involuntariamente, acabar fornecendo munição para assediadores e estupradores se justificarem. A tarefa é longa, mas nós já a começamos. Afinal, #timesup!

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Escrever é um acerto de contas

 

Os escolhidos, nos filmes, sempre cumprem seu destino: Frodo leva o anel até Mordor, Neo ganha uma moratória para Zion e reinventa Matrix. Mas você não é Neo nem Frodo: você era o meu escolhido e me abandonou. Você é como Anakin, aquele que se corrompe e termina por se esconder atrás do ridículo escafandro de Darth Vader. Você é um engano respirando com a ajuda de aparelhos. E como Obi Wan grita em seu desespero e frustração, eu grito também:

– Você era o escolhido!

Você me ligou e desligou como um sabre de luz num dia de pouca luta. E agora? Agora eu morro? Sim, você espera que eu siga o script até a última página. Saída discreta pela esquerda, quase uma personagem incidental. Só tem um problema: eu me recuso. Até aqui você ditou as regras, agora mando eu.

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Compreenda quem eu sou: eu sou uma escritora. Compreenda o que escritores fazem: escritores escrevem. Compreenda como escritores escrevem: através da ficção, nós acertamos as contas com a realidade. É isso que nós fazemos. E, apesar de você não ter me dado quase nada, desse quase nada eu posso fazer uma crônica, um livro, uma saga ou um poema num guardanapo de papel. Eu posso fazer de você qualquer coisa que eu quiser.

Você não me amou, certo? Certo. Nada além de um incômodo para você e uma ferida para mim, tão igual a milhares de outros incômodos e feridas que infestam o mundo. Mas quando eu escrevo que você não me amou eu dou a essa ocorrência precária uma beleza que será só dela, eu permito que esse pouco e insuficiente amor saboreie alguma eternidade, ganhe um corpo, uma razão de ser, uma vida que valha a pena.

Mesmo que eu escreva dezenas de versões sobre a mesma ocorrência precária, ainda outras dezenas diferentes poderiam ser escritas. E, no instante seguinte, outras mil. Conter a vida é impossível. Conter a imaginação ainda mais. Escrever, portanto, não é conter ou limitar: é ampliar, é inscrever algo no eterno.

Se a realidade me favoreceu ou não, pouco importa ao meu ofício: quando eu escrevo, eu engravido de significados o que deveria ter sido e não foi. E a literatura é tão generosa que não pede credenciais e provas de bravura, ela a tudo aceita. Ela aceita, veja só, até o seu pouco amor por mim.

Por isso, onde eu deveria morrer, eu vivo. Onde eu deveria me calar, eu falo. Onde eu deveria seguir em frente, eu estanco. Onde eu deveria esquecer, eu lembro. Porque aqui, na ponta dos meus dedos em que dançam essas giletes, ao menos aqui nestas páginas, meu precário amor, você não tem nenhum poder sobre mim.

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Vai demorar muito tempo para você me amar

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Ainda vai demorar tanto tempo para você me amar, tanto… Como uma semente vai demorar até que a árvore rasgue o céu com sua copa, como um livro vai demorar a ser composto, letra a letra, como a água captada pelas raízes vai demorar até ser abundante a ponto de sustentar chalanas, canoas e barcos, como tudo que é construído, como tudo que é bom, como tudo que é puro, você vai demorar muito tempo para você me amar.

A vida é lenta. Só a destruição é imediata, só o choque é urgente, só a tragédia é súbita, por isso, não se afaste, não destrua, se aproxime devagar.

O fato de você realmente só perceber o meu amor agora não significa que eu já não estava em curso nas suas veias desde que o primeiro desenho rupestre foi rabiscado na primeira caverna pela primeira mão humana. Eu estava ali. E você também. E ali eu já sabia que iria demorar muito tempo para você me amar.

Nós ainda temos tantos sonhos para materializar, tantas terras e asfaltos para seguir, tantos filmes e peças a dissecar, tantos temperos e alimentos para comer, tantas salivas e suores a misturar, tantas gargalhadas para chacoalhar os ossos, tantos livros para compreender juntos, tantos bons silêncios a compartilhar…

Eu posso ver no abismo das suas pupilas que você vai me amar, mesmo que não agora. Posso sentir no calor que seu corpo exala ao falar comigo que você vai me amar, mesmo que não já. Posso perceber na resistência e no desejo da sua substância em relaxar na minha, que você vai me amar, mesmo que não hoje.

Há quantos séculos eu te sorvo em silêncio? Deixe então que o tempo continue a fazer em você, o mesmo trabalho que já fez em mim.