Playlist de “Enquanto o tempo não passa”.

Que tal, além de ler meu mais recente livro, “Enquanto o tempo não passa”, ouvir a playlist que montei especialmente para ele no Spotify? Aqui segue uma lista contendo o título de cada crônica do livro e as canções correspondentes, além do link para acessar a playlist. Vem!

Observação: Você encontra “Enquanto o tempo não passa” apenas em e-book (Amazon, Apple Store, Google Play Livros, Kobo Livraria Cultura, Saraiva) e pode comprá-lo através do site da e-galáxia: https://www.e-galaxia.com.br/produto/enquanto-o-tempo-nao-passa/ por R$ 14,90.

Branca de Neve, com ou sem príncipe (Overture, Snow White)

O Fantasma da Ópera: duas interpretações fascinantes (Think of me, The Phantom of the Opera)

Catfish (Movement, Hozier)

Grite! (Intuição, Oswaldo Montenegro)

O imenso Lupicínio Rodrigues (Felicidade, Caetano, de Lupicínio)

A força de Maria Madalena (Clair de Lune, Suite Bergamasque)

Hoje eu quero voltar ao tempo da escola (A dança das fadas, A cor do som)

A louca em você e as canções infantis (Ocean tree, Feathered Sun)

Gullen é aqui? (AmarElo, Emicida com Belchior)

Nem pequeno, nem príncipe (Je te pardonne, Pilule bleue e Sai)

Não suportamos ser plateia (Desde que o samba é samba, Gil e Caetano e Um Canto de Afoxé para o Bloco do Ilê, Caetano)

Gota d’água: a mulher que precisa morrer em nós (Gota d’água, Chico Buarque)

A arte não pode sofrer (Fernanda Takai, Terra plana)

Super-homem ou Clark Kent? (Toxic, Scott Bradlee’s Jukebox)

Terceirizar os filhos (Tango para Teresa, Angela Maria)

O psicopata nosso de cada dia (Afterhour, Kalabrese)

Gordelícias e o mal-estar na civilização (Jinguba, They must be crazy)

Por que você detesta certos personagens? (Pessoa nefasta, Gil)

Blanche e Martinón (Bandolins, Oswaldo Montenegro, Na Boca da Noite, Toquinho)

A síndrome de Norma Desmond (In heaven, Lady in the Radiator Song, David Lynch e Alan R. Splet)

A vida acontece enquanto a gente se recupera (Swimswimswim, Tosca)

Ratos, homens e mulheres (I’m not afraid, Jill Scott)

O pior tipo de egoísta (You’re the top, Ella Fitzgerald)

O senhor das moscas (The End, Monolink)

Por que os livros de Chico Xavier são tão populares? (O Sal da Terra, Beto Guedes)

O artista da fome (Não enche, Caetano)

Os guardas do Taj (Anunciação, Alceu Valença)

 

Enquanto o tempo não passa: livro novo!

Livro novo em plena pandemia? Sim! “Enquanto o tempo não passa” traz crônicas sobre diversas formas de arte: filmes, livros, peças, canções. Aqui a conversa é livre e eu conto tudo, de O fantasma da ópera a Lupicínio Rodrigues, de O poderoso chefão a Franz Kafka, de Branca de neve a Sob a pele do lobo, de Super-homem a Um bonde chamado desejo, de Catfish a O pequeno príncipe.

Por que um livro como esse agora? Respondo na introdução: “A arte está tão entranhada no nosso cotidiano que, muitas vezes, sequer a percebemos, mas ela continua lá, garantindo nossa sanidade, protegendo nossa humanidade. Ontem vi na TV o depoimento de um enfermeiro estadunidense. Ele contava que após um plantão especialmente difícil, ao voltar para casa, ligou o rádio do carro e foi invadido por uma linda música que o fez cair no choro. A canção o relembrou como a vida costumava ser antes da pandemia e que, a despeito da guerra que atravessava no hospital, ainda havia beleza no mundo. Não duvide: beleza gera esperança. E esperança ativa molda vida nova.”. O tempo (e esse tempo estranho que aparentemente não passa) não tem apenas duração, pode ter também profundidade .

Você encontra esse livro apenas em e-book (Amazon, Apple Store, Google Play Livros, Kobo Livraria Cultura, Saraiva) e pode comprá-lo através do site da e-galáxia por R$ 14,90. Vem!

O Fantasma da Ópera: duas interpretações fascinantes!

Não há dúvida de que “O Fantasma da Ópera” é um fenômeno, mas por que essa história nos atrai tanto?  Por que, muito antes do musical de Andrew Lloyd Weber, nós já nos debruçávamos estranhamente absortos sobre o livro de Gaston Leroux, de 1910 (um livro que, do ponto de vista literário, não chega aos pés dos grandes romances do século XX)?

Em toscas pinceladas, o livro (e o musical) trata de Christine, uma jovem soprano que se divide entre seu misterioso professor de música (Érik, o Fantasma da Ópera) e seu belo amor de infância (Raoul, o Visconde de Chagny).  Estamos então a falar de um banal triângulo amoroso? De modo algum.

A trama nos leva a duas interpretações diferentes e igualmente fascinantes.

A primeira razão para que “O Fantasma da Ópera” seja tão atraente, a maior, a mais profunda, a mais universal é que todos somos Christine e o Fantasma e Raoul estão dentro de cada um de nós. A história é um mito moderno, um símbolo de como se definem as decisões no fundo das nossas almas. O Fantasma simboliza nossa força criativa, nossa vida interior, nossos desejos mais íntimos e vitais, muitas vezes considerados loucos pela sociedade; Érik habita o nosso inconsciente (não à toa ele vive nos subterrâneos do teatro). Já Raoul é a vida exterior, que acontece sobre o palco, à vista de todos, é se encaixar nos padrões da sua cultura e do seu tempo, é fazer tudo conforme esperam de você, sem espaço para dúvida, desafio, mudança.

Portanto, se escolhermos Raoul e a vida de superfície, teremos um perfil no Instagram cheio de curtidas, uma vida exterior invejável, uma família tradicional, muitos ternos e vestidos no armário, mas seremos secos, vulgares, ocos. Já se escolhermos o Fantasma, seremos provavelmente chamados de loucos, mas faremos aquilo que fomos talhados para fazer, aquilo que nossa alma realmente deseja. Quando tentamos silenciar o Fantasma, quando não o aceitamos, não o incorporamos de algum modo à luz da ribalta, ele se torna agressivo, destruidor, se transforma em sintoma, doença, fobia, e nada diminuirá sua fúria, nem mesmo uma dezena de psicotrópicos.

Desse modo fica claro que o que parece ser um triângulo amoroso é, na verdade, a dúvida que enfrentamos cada vez que temos de fazer uma escolha, seja ela pequena ou grande. Por que temos raiva da contínua incerteza da personagem Christine? Por que nos sentimos fascinados pelo Fantasma, mesmo quando ele se torna violento? Por que torcemos para que Raoul pacifique aquele drama logo de uma vez? Por que ora queremos que Christine fique com Raoul, ora com o Fantasma? Porque nós somos ela. O mito do Fantasma da Ópera, portanto, simboliza tudo que nos divide, que nos move, que nos petrifica, que nos expande.

Eu tenho minhas dúvidas se Gaston Leroux sabia que estava escrevendo um romance com esse alcance todo, mas aposto que Andrew Lloyd Weber, que o adaptou para os palcos em 1986 e para o cinema em 2004, sabia muito bem o que estava fazendo. É inegável que ele aperfeiçoou a história. Apesar de um detalhe desnecessário na sua biografia (um trecho da canção “The music of the night” é igual ao de uma ópera de Puccini e um acordo entre as partes solucionou a contenda em sigilo), seu talento é inquestionável, mesmo levando em conta as escolhas seguras que ele fez em termos musicais. Menção honrosa para Charles Hart e Richard Stilgoe que compuseram as letras das canções, hoje tão populares, como All I ask of you, Angel of Music, The Phantom of the Opera, Think of me, Masquerade: cada uma dessas letras sustentaria um novo e detalhado texto a respeito.

“Christine, é preciso que me ame!”: essa é a primeira frase que o Fantasma da Ópera diz no livro e ela nos coloca no caminho da nossa segunda interpretação.

Érik e Raoul são ambos homens abusadores, que submetem sua amada a um inferno no qual a última coisa que importa é o que ela realmente quer. Há, porém, uma diferença fundamental entre Érik e Raoul: o Fantasma é um abusador consciente, irremediável, perverso, sádico, psicopata; já Raoul é um abusador inconsciente, ignorante, tolo, porém não mau.  Na vida há também essas gradações: há aqueles homens (ou mulheres) que sentem prazer em provocar sofrimento e submeter o outro às suas vontades, como também há aqueles que são abusadores por falta de bons exemplos, de uma boa formação, de uma cultura que privilegie a parceria no amor.

Raoul é inconveniente e abusador no livro, já no musical isso foi bastante suavizado, ele mais tenta ajudar Christine do que ditar seu destino. Quanto ao Fantasma, porém, tanto no musical como no romance de Gaston Leroux, é inquestionável que ele é um abusador da pior espécie.

Christine não acreditava no Fantasma da Ópera, mas sim no Anjo da Música, prometido por seu pai: “Quando eu estiver no céu, prometo que vou enviar o anjo para você”, ele disse. Desse modo quando começou a ouvir uma voz maviosa em seu camarim que dizia ser o Anjo da Música, voz cujo dono era invisível e lhe oferecia aulas sublimes, ela aceitou. A ilusão era mantida por um engenho arquitetônico (Érik estava atrás das paredes) e outro vocal (o Fantasma treinou sua voz para projetá-la em qualquer lugar). É sempre assim: num relacionamento abusivo há dois responsáveis, mas só um culpado. Christine era parte daquela relação, era também responsável por ela, mas estava iludida quanto à verdadeira natureza do Anjo da Música, ela não agia com malícia e uma agenda prévia como ele, ela era toda entrega e esperança. Essa disposição não se assemelha a incontáveis casos de abuso?

Christine melhorou muito seu canto a partir das aulas, pois o Fantasma era de fato talentoso, como a maioria dos abusadores. Quantas coisas maravilhosas essas pessoas cheias de energia e verve poderiam fazer caso se pautassem pelo que é justo, nobre e bom?

Em apenas três meses Érik, o Fantasma, havia se tornado não apenas o mestre de Christine, mas seu dono. O Anjo da Música (ou a Voz, como ela também costumava chamá-lo) a proibia de se casar e dizia que se ela o desobedecesse ele iria embora para sempre. Essa não era uma ameaça qualquer: o pai de Christine a ensinara que os músicos geniais o eram porque haviam recebido a visita do Anjo da Música. Ela acreditava, portanto, que perder o Anjo seria perder o dom de cantar!

Certo dia, cansado de ser apenas uma voz, o Fantasma sequestra Christine. Ali, nos subterrâneos, ela é apresentada à figura deformada daquele a quem ela acreditava ser um espírito, o Anjo da Música (é preciso dizer que Andrew Lloyd Weber embelezou muitíssimo o Fantasma, no livro ele é uma criatura inteiramente repulsiva). Em seus domínios, Érik submete Christine a todo tipo de constrangimento até o ponto em que ela tenta se matar. Quando finalmente é libertada, ela diz a Raoul: “Se eu não voltar para junto dele, grandes desgraças poderão acontecer”. Raoul pergunta: “Ele a ama tanto assim?”. E ela responde “Ao ponto de cometer um crime!”. O nome desse sentimento não é amor, mas era assim confundido, como o é até hoje. Abusadores não amam ninguém, mas amam usar todos.

No entanto não eram apenas ameaças que faziam com que Christine voltasse ao Fantasma. Havia também o fascínio: “Ele canta!… E eu o escuto e fico!”. Não é segredo que todo abusador perverso costuma ser cheio de carisma e magnetismo e que mantém a vítima ao seu lado mesmo depois de ela saber que vive uma relação abusiva justamente porque, ao lado da violência, há o encanto. Christine, mais tarde, sintetizaria sua situação dizendo: “É triste, mas eu não era mais dona de mim mesma: eu era um objeto nas mãos dele”.

Assim estava nossa protagonista: sofrendo de um lado chantagens emocionais, exigências descabidas, ameaças e até sequestros feitos pelo Fantasma da Ópera, um abusador perverso, de outro, suportando a insistência de Raoul em ter seu amor correspondido (no livro isso é muito claro, no musical, não) e em convidá-la sem tréguas a fugir, abandonar a carreira e se casar com ele (coisa que acontecerá no final, com um detalhe nem um pouco desprezível: Christine nunca mais voltará a cantar). Seja com o Fantasma ou com Raoul, Christine não é livre.

Talvez alguém diga que um homem como Raoul, que não sente prazer em fazer Christine sofrer, que até mesmo supõe a estar libertando, é um abusador que pode ser salvo, que pode ser mudado. De fato, com o tempo, ele pode ser salvo – mas por ele mesmo, mais ninguém. Esse não é um trabalho que compete a sua parceira ou ao seu parceiro. Na vida real, se afastar do abusador e romper todo tipo de relação com ele é a única saída. É preciso se transformar numa parede, num muro, num monolito de mármore perfeitamente liso e impenetrável, sem nenhuma fresta, rachadura, fissura por onde ele possa entrar. Christine, porém, não se torna um monolito.

No final da história temos uma transformação milagrosa. Novamente sequestrada por Érik, Christine aceita se casar com ele para salvar Raoul. O Fantasma, pela primeira vez, beija alguém e a emoção é tão grande que ele começa a chorar. Cheia de compaixão Christine chora com ele e suas lágrimas se misturam. Esse ato de amor verdadeiro faz com ele a liberte. Na vida real, porém, isso não acontece. Supor que se é capaz de transformar um abusador perverso é uma estrada para o abismo.

No livro, o Fantasma morre pouco depois de abrir mão de Christine (como se ele não conseguisse existir sem ser perverso). No musical, porém, ele permanece vivo e acompanhando, à distância, os passos da amada.

Uma frase de Gaston Leroux nos mostra o destino de quem, como Christine, se deixa tragar por tudo que é superficial (de acordo com a interpretação mítica) ou por um relacionamento abusivo (no caso do segundo modo de ver a história). A partir do casamento com Raoul, o autor nos informa que “A terra nunca mais ouviria falar da sublime e misteriosa cantora”. Ela esqueceu de si mesma, de sua arte, de sua força. Portanto, seja qual for a perspectiva sob a qual analisarmos “O Fantasma da Ópera”, Christine é um modelo que não deve ser seguido.

 

Eu e você somos um perigo para a paz mundial.

É comum ouvir por aí que iniciativas como o 21 de setembro, Dia Internacional da Paz, são demagógicas e inúteis. O ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, explicou que um único dia de cessar-fogo e não-violência faz com que se possa, nas zonas de conflito, prestar assistência humanitária mais facilmente, como retirar civis dessas áreas, erguer abrigos, vacinar crianças, etc.

Aparentemente a questão da paz mundial é grande demais e escapa da nossa esfera de influência, mas a realidade é outra. Não tenho eu a pretensão de ser a emissária da paz com auréola de escritora politicamente correta, meu objetivo é outro: quero fazer com que você perceba o quanto você é violenta ou violento. Não olhe para os lados, estou falando com você, sim. Eu? Eu já sei que sou feroz – e tento não ser justamente porque sei que sou.

Impossível não haver violência em massa porque nós somos todos belicosos (com exceção a missionários obscuros espalhados pelo globo). Qualé, ainda ontem estávamos no Coliseu levantando polegares! Basta colocar o orgulho de lado para chegar a essa conclusão.

Amplifique sua fúria para com o vizinho que arranhou a porta do seu carro e você terá um perfeito George Bush. Você era contra a Guerra do Iraque, claro, mas não suporta que alguém te dê uma fechada no trânsito e, se puder, vai dar um jeito de ultrapassar o… o… quem é mesmo que está ali atrás daquela direção? O inimigo!

Como consequência de um povo belicoso temos uma cultura da truculência. As pessoas falam com orgulho que são do tipo que “não leva desaforo para casa”. Todas as vezes em que eu não levei desaforo para casa, levei outras coisas: remorso, gastrite, cabelos brancos, rugas, pesadelos, dores de cabeça, músculos tensos. Sem contar que dessa forma acrescentei novos problemas ao problema original.  Dar chilique em qualquer lugar que não seja sozinha-trancada-no-banheiro é ridículo, primata, patético. E mesmo sozinha-trancada-no-banheiro, ainda assim, eu contribuo para a pestilência vibracional do meu ser, da minha casa e do planeta.

Um desdobramento dessa cultura agressiva se vê claramente nas redes sociais. Parece uma ofensa particular alguém pensar diferente de nós. Parece que é uma declaração de guerra. Parece que estão marchando sobre o nosso gramado. Pra quê tantos dentes rilhados? Outro dia escrevi que discordar é uma arte que tem de ser sempre exercida com elegância e que concordar é uma arte que tem de ser sempre exercida sem lisonja. Desarmar nossas palavras talvez seja um início.

A verdade é que eu e você somos um perigo para a paz mundial. Lutar pela paz, portanto, começa por proteger os outros de nós.

 

Todas nós somos Blanche Dubois

Você conhece Blanche Dubois? Não? Nesse caso, preciso urgente te apresentar à famosa personagem de Tennessee Williams. A razão é simples: eu sou Blanche, você é Blanche, todas nós somos, em alguma medida, essa mulher que mergulha no desejo como oposição à morte, que foge da luz da realidade tanto quanto da luz física que expõe em seu rosto a desesperadora passagem do tempo, que toma banhos como Lady Macbeth lava as mãos, que sempre dependeu da bondade de estranhos, que vê as coisas como elas deveriam ser e não como são, essa mulher que inventa seus amores, que os veste de encantos e qualidades que eles jamais tiveram, que se dedica tão freneticamente a tal invenção que está à beira de um colapso absoluto.

Blanche é tão grandiosa que já foi interpretada por Jessica Tandy, Vivien Leigh, Eva Wilma, Maria Fernanda, Ann-Margret, Glenn Close, Leona Cavalli, Natasha Richardson, Cate Blanchett, e recentemente foi trazida à luz de forma emocionante, visceral e estupenda por Maria Luísa Mendonça. Pausa para as palmas. Muitas!

Blanche

Antes de continuar é preciso que você conheça a história de “Um bonde chamado desejo”. Atenção: mil spoilers a seguir!

Stella Kowalski está grávida e perfeitamente adaptada a uma vida sem luxos, mas repleta de desejo, junto ao marido, o cafuçu-tesão Stanley Kowalski, quando sua irmã, a sofisticada e coquete Blanche Dubois, chega falida, de mala e cuia. Os três passam assim a dividir um pedaço de cortiço: intimidade, raiva, orgulho, culpa, medo e desejo de sobra, privacidade nenhuma.

Esse convívio é demais para Blanche, que acaba por enlouquecer no final. Muitos sustentam que ela perde a razão já instável depois que o cunhado machão a estupra. Mas ela rompe com a realidade de vez quando Mitch, um namorado e pretendente a marido, rompe com ela. Não é, portanto, a brutalidade de Stanley Kowalski que retira sua última esperança de sanidade e amparo, mas sim o abandono de Mitch. Eis o maior dos medos femininos: o abandono.

Apenas com Mitch ela alcança dois preciosos momentos de contato com a realidade, da qual sistematicamente fugia. No primeiro deles, após um passeio, Blanche, que é viúva, conta a Mitch sobre seu casamento com um jovem gay, o flagrante sexual, o suicídio dele e, deixando de lado qualquer manipulação para seduzi-lo, desabafa que depois de perder o ex-marido, que era seu sol, nunca mais houve outra luz em sua vida que fosse mais forte que uma pobre luz de vela. Mitch então propõe que ambos unam suas solidões e fiquem juntos. É uma cena tocante e repleta de esperança.

Havia a possibilidade de que uma relação verdadeira fosse construída entre Blanche e Mitch, seriam então dois náufragos que conscientemente se agarrariam um ao outro, reverenciando com serenidade esse modo de sobreviver. Stanley, porém, furioso com Blanche, que costuma expor a diferença de estirpe que há entre ele e as irmãs Dubois, conta a Mitch tudo que descobre sobre o passado dela, o que gera o rompimento.

O segundo contato de Blanche com a realidade, através de outro encontro com Mitch, se dá quando ele não aparece em seu aniversário e, depois que a festa amarga termina, ele chega bêbado, exigindo vê-la sob a luz, exigindo aquilo que ele não teve todo o verão, querendo chegar às vias de fato. Blanche diz que, sim, teve muitas intimidades com estranhos depois do suicídio do marido. “Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro.” Depois, ela pede, “case comigo, Mitch!”, mas ele retira sua última esperança de proteção, ele fecha a última fenda na rocha do mundo na qual ela poderia se abrigar, dizendo “você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe”, e é aí, nesse exato ponto, que ela perde de vez o contato com o real. Quando Stanley chega da maternidade na qual deixou Stella internada à espera do bebê, encontra Blanche já em surto, travestida como em um carnaval romântico.

Havia um pássaro caindo com ambas as asas quebradas: esta é a Blanche que o estilingue-estupro de Stanley atinge. Um pássaro já ferido de morte e em franca queda ao abismo.

Blanche Dubois é mais do que uma boa personagem: ela é um riquíssimo arquétipo feminino. Eu chegaria mesmo a dizer que Blanche e sua irmã Stella abarcam todos os aspectos do feminino romântico porque, enquanto Blanche escolhe a fantasia, Stella, ao contrário, cavalga e domina o real. E nessa mesma gangorra nos debatemos nós, mulheres modernas. A sorte é que nossos destinos não estão traçados desde o início, como o de Blanche: nós ainda podemos escolher não a fantasia que enlouquece, mas a realidade que estrutura.

 

Mulheres que marcam os homens

Obs.: Este texto pertence ao livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia. Minha amiga Mariana Xavier fez uma linda leitura desta crônica (que fiz para ela). Deixo aqui o link para que vocês vejam a versão dela e a minha.

Eu sei que você não vai ficar comigo. Porque há mulheres que marcam os homens e há mulheres que ficam com eles – e eu pertenço ao primeiro time.

Ouça minhas palavras como uma profecia – porque é exatamente isso que elas são. Você sairá com uma sequência de moças bonitinhas que provocarão em você apenas decepção e tédio. Nenhuma delas – lembre-se, isso é uma profecia –, nenhuma delas causará as sensações que eu causei. Você procurará minha boca em todas elas, minha pele em todas elas, minha umidade eterna em todas elas, meus gemidos em todas elas, sem encontrar. Você irá achá-las sempre pouco estimulantes, pouco voluptuosas, pouco ativas, pouco criativas, pouco carnudas, pouco macias, pouco soltas, pouco inteligentes, pouco tudo. Elas serão sempre menos do que você espera – porque elas não são eu.

Mas nem tudo está perdido: qualquer uma delas pode ser cômoda o bastante para ficar com você. Eu posso te ver dentro de cinco anos numa sala com sua TV imensa e sua esposa mansa com quem você terá um sexo honesto e confortável. E, tão claro quanto vejo minhas mãos agora, posso ver que você vai sonhar comigo enquanto dorme com ela.

Nas suas insônias, que serão muitas – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai pensar o que aconteceria se você tivesse ficado comigo e para quais lugares teríamos viajado juntos e quantas coisas novas teríamos aprendido e quantos bons-dias teríamos nos desejado um dentro do outro.

Sua fome por mim amanhã será maior que o seu medo hoje, bem maior. Nessas horas e em muitas outras – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai desejar me escrever, me ver, ter alguma resposta minha, mas já será tarde para isso.

Porque há mulheres que marcam os homens e há mulheres que ficam com eles – e eu pertenço ao primeiro time. E você, ao time dos que não são viscerais o bastante para quebrarem tolas maldições e amargas profecias.

 

A tortura pela esperança

Talvez nenhum sentimento seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é ela que faz com que sigamos em frente todas as manhãs. No entanto, a esperança também pode ser uma tortura – e uma tortura muito comum no amor romântico. Para explicar isso melhor, preciso contar uma história.

O escritor francês Villiers de L’Isle Adam (1838-1889) criou um conto estupendo sobre o tema usando sua refinada e cruel ironia. O título não poderia ser mais claro: “A tortura pela esperança”. Nele, um Inquisidor espanhol visita, na masmorra, o rabino Aser Abarbanel, que, há mais de um ano, vinha sendo torturado pela Santa Madre Igreja.

O Inquisidor, num momento de agudo sarcasmo, diz que ele mesmo sofre demais ao brindar o acusado com os rigores da tortura, tortura cujo objetivo é conduzi-lo ao caminho do Senhor. Como seus esforços foram inúteis, no dia seguinte o rabino Aser Abarbanel será queimado vivo.

Após o longo discurso (de fazer inveja a qualquer psicopata), o Inquisidor sai da masmorra, deixando atrás de si a porta mal fechada. Eis uma chance para o rabino escapar! Com o corpo crivado de feridas e fraturas, o prisioneiro se arrasta por um longo corredor até alcançar a liberdade. Ao se ver num jardim perfumado, sob a proteção das estrelas, Aser Abarbanel estende os braços e ergue os olhos aos céus em agradecimento. Todavia, nesse instante, alguém o abraça: é o Inquisidor! O rabino então compreende que ele havia acabado de passar pela mais terrível das torturas: a da esperança.

Você sabe bem o que é isso. Após ouvir palavras tão lindas, tão amorosas, tão balsâmicas para o seu coração, você se deita sorrindo, aquele sorriso contínuo que não conseguiriam tirar do seu rosto nem sob uma máscara de ferro. Você dorme acreditando que finalmente sua alma saiu daquela marquise suja sob a qual você tentava sem sucesso se abrigar da garoa e do vento gelados da solidão. Você acha que ganhou um cobertor quentinho, uma cama, um quarto protegido, um endereço emocional e que nunca mais, nunca mais irá sentir frio.

Dias depois, ao encontrá-lo novamente, você alegre, você ingênua, você apaixonada, lê um poema que separou com ternura, lê aberta como uma flor descuidada, flor sem cerca, sem arame farpado. Ao ouvir suas palavras sobre o mar, porém, ele se lembra de areia e cascalhos; ao ouvir sobre o pólen fecundo, ele fala da devastação definitiva do deserto; ao ouvir perfumes, ele te chama para um rio Tietê de dúvida e opacidade. E, assim, ele repudia o seu afeto.

Está doendo um tanto mais agora, eu sei, porque você estava repleta da seiva da esperança. Mas calma, querida, vai passar. De fato, a esperança é a última que morre, mas morre – para renascer mais lúcida em outro endereço.

Obs.: Este texto pertence ao livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Fuja da sua loucura de estimação! (De Profundis)

Ao reler esta semana “De Profundis”, a longa carta que Oscar Wilde escreveu no cárcere ao seu amante, eu fiz algo insólito.  A cada página lida, eu a arrancava do livro e a rasgava. Sim, rasguei todas elas, uma por uma. Meu “Obras completas” está para sempre mutilado – e eu sinto um grande alívio.

A causa da ruína, prisão e morte prematura do escritor aos 46 anos foi apenas uma: ele se rendeu à sua exigente loucura de estimação, que atendia (desde que lhe acenassem com dinheiro) pelo nome de Alfred Douglas. Exigente, para dizer o mínimo. Se bem que todas as loucuras de estimação pedem muito e se doam pouco. Que digo? Não se doam absolutamente.

Você também deve ter uma loucura de estimação. Aposto que você queria isolar o exato instante em que ele ainda te desejava. Queria retroceder ao momento em que, trepada nas raízes ossudas de uma árvore a fim de ficar com a mesma altura dele, você o abraçou pela primeira vez. Enquanto seus cabelos se misturavam, você soube que estava perdida. Ou foi depois? Foi quando ele se despiu das roupas e seu olhar vazio meteu-se em você como uma faca nova? Quando você soube que estava perdida? Houve um momento em que você soube.

Não existe nada mais difícil do que se manter afastada de uma loucura de estimação: se afastar é fácil, já se manter afastada é a prova suprema. Porque, apesar de essa criatura não te amar, de ela não te querer e de todos os enganos que você vê, ainda assim estar sob o seu jugo aflito é o que você mais deseja.

Loucura de estimação é uma doença afetiva da qual você não consegue se curar, uma paixão sem tréguas, um vício agridoce que te alimenta e te devora. É como mergulhar num pântano lisérgico: você supõe estar no paraíso, mas basta respirar fundo para descobrir que está no lodo – e completamente sozinha. É como sofrer da Síndrome de Estocolmo: o homem que abusa de você, que te manipula, que se serve de você quando quer, que não te dá nada, que não se dá de modo algum, que te mantém prisioneira, é justamente o homem que você quer.

A loucura de estimação emite mensagens contraditórias e te sustenta com migalhas. Os suplícios que essa pessoa te inflige se baseiam em te dar cada vez menos alimento para ver até quando você consegue se manter de pé. Ou de joelhos.

Por isso eu rasguei as páginas do “De Profundis”. Parece uma reflexão sobre a dor e a arte, parece uma forma diferente de pensar os Evangelhos, parece o testamento furioso e melancólico de um injustiçado, mas é apenas o lamento de um amante pedindo à sua loucura de estimação que volte, que escreva, que o machuque, que o engane, que o assombre.

Rompa esse relacionamento destinado ao aborto eterno, esse fígado de Prometeu todos os dias reconstituído à espera do predador, e fuja o quanto antes! Fuja de um jeito heroico ou humilhante, não importa como, apenas fuja! Abandone essa luta: uma loucura de estimação só pode te destruir e te causar dor; muito mais dor que prazer, infinitamente mais dor que prazer. Não escreva seu próprio “De Profundis”. Só por hoje, fuja!

Obs.: Esta crônica pertence ao livro “Loucura de Estimação” da e-galáxia.

50 tons de cinza: o segredo real de seu sucesso

Os anos passam e a dúvida permanece: como explicar o sucesso da franquia de 50 Tons de Cinza? Será por conta do sexo abundante, dos chicotes e algemas, da virgindade de Anastasia ou do dinheiro de Grey? Não, isso é só purpurina. O segredo real é algo muito diferente e subterrâneo.

Mas antes tenho uma pergunta: por que a autora, cujo nome verdadeiro é Erika Mitchell, criou o pseudônimo E.L. James? Por que J.K. Rowling também usa iniciais? Será que um nome neutro, que pode ser o de um homem, inspira mais respeito no mercado? Fica a reflexão.

A gente já sabe que 50 Tons de Cinza é uma fanfic da saga Crepúsculo (fanfic é ficção escrita por fã, tendo como base sua história preferida). Portanto Anastasia Steele é a jovem Bella e Christian Grey é o vampiro Edward, numa versão adulta e humana. Mas e Jacob, o lobisomem? Quem é ele em 50 Tons de Cinza? Ninguém, ele não existe. A autora excluiu de sua fanfic o único personagem que representa, em Crepúsculo, o amor real, o amor possível. O lobisomem é também humano, possui calor, pode ter vários filhos naturalmente e criá-los ao lado de Bella, pode envelhecer com ela, ser um companheiro de verdade. Tem lá seus defeitos, como virar lobo de vez em quando, mas na vida também há problemas – vida real que, com o sumiço de Jacob, foi excluída da fórmula de E. L. James.

O que tornou 50 Tons de Cinza um fenômeno foi a realização de um dos mais comuns e intensos desejos femininos: mudar nosso homem. E, de quebra, se tornar a mulher mais especial de sua vida. Até conhecer Anastasia, Christian nunca havia sido fotografado com uma garota, nunca se ouviu falar que tenha namorado, jamais havia dormido de conchinha com alguém, não levara moça alguma para jantar na casa dos pais e só tocava numa mulher depois de ambos assinarem um contrato. A jovem aparentemente ingênua faz Grey mudar todos esses hábitos.

Dizer que Anastasia é submissa é ver apenas as aparências: aquela moça tem a personalidade de uma dominatrix, com o disfarce da voz mansa e dos olhinhos baixos. Ela é muito inteligente, tem paciência e sabe manipular a seu favor as circunstâncias. Se você duvida, se lembre da cena em que ela leva uma surra de Grey e vai embora dizendo que aquilo ultrapassou seus limites. Quando ele vai atrás dela no elevador, o que ela faz? Chora? Se joga em seus braços? Implora que ele pare com aquilo? Diz que o ama? Não. Ela estende a mão como um guarda de trânsito e grita: pare! E ele para. Quem domina quem?

Anastasia Steele realiza a fantasia de todas nós. Você sai com aquele cafajeste, aquele chato, aquele mandão, aquele golpista, aquele vagabundo, aquele violento, aquele mentiroso, aquele alcoolista, aquele irresponsável, aquele abusador e acredita que o seu amor vai mudá-lo. Mas os homens da vida real, por mais que desejemos isso, não são moldáveis como Christian Grey.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Como usar a palavra “literalmente” de modo correto

De tempos em tempos, algum vício de linguagem, erro de português ou uma invenção inútil se espalha pelo Brasil como fogo em campo ressequido.

Recentemente tivemos a ditadura do “a nível de” e o despropósito do “vou estar fazendo”. Agora estamos mergulhados até o pescoço no uso equivocado do “literalmente”.

Curioso que essas formas esdrúxulas tenham se popularizado pela mesma razão: vaidade. Um ortopedista acha mais imponente dizer “o atleta não tem nenhuma lesão a nível de joelho” do que simplificar “ele não tem lesão no joelho”. A operadora de telemarketing acha mais chique dizer “vou estar transferindo sua ligação” em vez de um simples e correto “vou transferir sua ligação”. Numa tentativa de parecer mais culto, todo mundo se tornou mais estúpido.

Já o “literalmente” não me parece fruto de vaidade: é apenas um engano. Literalmente significa ao pé da letra. Ele não é sinônimo de realmente, não confere ênfase a uma ideia e não pode ser usado como uma espécie de exclamação. Mais fácil dar exemplos, não é?

“Ele saiu literalmente do armário!”. Para alguém sair literalmente do armário, ele precisaria estar dentro de um armário de verdade, abrir a porta (supondo que a porta abra por dentro), colocar um pé para fora, depois outro e sair com seu corpinho inteiro do tal armário.

“Eu estou literalmente morta de cansaço!”. E como é que você está falando?  Chamaram um médium?

“Eu viajei literalmente na maionese!”. Não, não viajou. Nem chefe de cozinha viaja literalmente na maionese – a não ser que o apelido do carro dele ou dela seja maionese. Você conseguiria confeccionar uma moto, uma carroça, um riquixá que seja de maionese para viajar nele?

“Esse homem me deixou literalmente louca!”. Opa, essa pessoa precisa correr ao psiquiatra para internação de emergência – e dá-lhe benzodiazepínicos e outros que tais na veia!

“Ele literalmente faz milagres!”. Estamos falando de Jesus Cristo?

“Essa menina é literalmente um doce!”. “Menina” é a marca de um biscoito de chocolate? De um doce de caramelo? De uma bala de mel? Não? Então a menina não é literalmente um doce.

“Ele literalmente roubou meu coração”. Gente, como essa criatura está andando por aí sem coração? Chama o SAMU, isso é caso para transplante urgente!

“Nossa, isso é literalmente um mico!”. Se estivermos no zoológico, na Mata Atlântica, na Amazônia, em Bonito diante de um macaco pequenino, tudo bem. Caso contrário…

“Minha namorada me leva na coleira literalmente!”. Rapaz, sua namorada é dominatrix? E te leva aonde te puxando pela coleira?

“Você tem de pensar literalmente fora da caixinha”.  Que caixinha, cara-pálida? Só se for a craniana! A única maneira de seguir esse conselho é ser um zumbi com os miolos de fora.

“Caí literalmente na folia!”. Levou um tombo no baile de carnaval? Que dó.

“O sorriso dela literalmente aquece meu peito!”. Como? Ela esquenta os dentes com bolsa térmica e encosta no seu peito a boca escancarada?

Portanto, fica a dica: se você estiver saindo com um homem e ele, à beira da cama, disser “quero te comer literalmente”, torça para que ele seja apenas um dos muitos que fazem confusão com o termo, e não um confrade do doutor Hannibal Lecter.