Hoje acordei gorda (2021 – 1999).

Neste janeiro reescrevi meu primeiro livro (Hoje acordei gorda, 1999, Editora Rocco) para uma futura produção audiovisual. Ela pode ou não vingar, pode ou não se tornar uma série, mas a minha parte cumpri com prazer: atualizar o texto do livro, afinal, em 22 anos muita coisa mudou em nossa sociedade e em mim (ainda bem). Por isso quis fazer uma transformação radical no conto que dá título ao livro (os demais contos permaneceram com poucas alterações). Aqui estão minhas duas interpretações para a mesma ideia: uma em 2021, outra em 1999.

Antes que eu encerre essas observações, preciso repetir: o melhor prefácio da literatura brasileira foi escrito por Mario Prata para o “Hoje acordei gorda”. Era meu livro de estreia e o autor, brilhantemente, inventou que eu não existia, que Stella Florence era um pseudônimo que ele resolveu criar e com o qual assinava aquele livro. Na época, a confusão gerou muitas risadas – e uma preciosa divulgação.

Hoje acordei gorda (2021)

Hoje acordei gorda. Estiquei o corpo todo, tão bom… Olhadela no relógio: oito e meia da manhã. É domingo, poderia dormir até o meio-dia se quisesse, mas com esse sol incrível lá fora? Nem pensar. Saltei da cama, a ardósia fria sob os pés desnudos me lembrou da casa da minha tia em Itapeva, onde eu passava as férias andando de bicicleta, escalando árvores e tomando leite da vaca, direto da vaca mesmo. Tia Neusa colocava duas latas de cinco litros no porta-malas do carro e lá íamos nós pegar leite num sítio próximo. O gosto era tão bom! Quando eu era criança havia um leite concentrado chamado Mococa no qual bastava acrescentar 5 partes de água para fazer um litro de leite. A embalagem era pequenina, em forma de pirâmide. Mamãe ficava furiosa comigo porque eu sempre roubava alguns da despensa e tomava puro: que água que nada, não quero nada diluído nessa vida! Tirei a camisola num movimento rápido e no outro abri o chuveiro. Ah, como eu fiz bem em cortar os cabelos! Tão mais fácil de lavar e ainda fico sempre arrumada. Me lembro do dia em que decidi cortá-los: eu estava na fila do supermercado e a minha frente uma moça muito elegante me chamou a atenção. Ela inspirava confiança, era extremamente feminina e possuía uma beleza nem um pouco óbvia. Inebriada com aquela presença, fiquei ali tentando compreender o que a tornava tão especial. Suas roupas eram informais como as minhas, os traços do seu rosto e seu corpo não possuíam nada de extraordinário, por que então ela parecia infinitamente mais arrumada, mais altiva, mais sedutora do que eu? Ah, os cabelos! Enquanto eu os trazia presos com uma piranha e alguns grampos, ela os exibia soltos, naturais, num corte moderno, curto. Ali resolvi mudar meu visual; não copiar o dela, pois que ela era outra pessoa, mas sim escolher um corte que revelasse o melhor de mim o tempo todo. Qual o sentido de, na maior parte do tempo, eu manter os cabelos presos, às vezes com mais ou menos capricho, mas sempre agarrados ao cocuruto? Ora, ou eu assumia uma rotina de cuidados para mantê-los compridos, bem cuidados e soltos (ou eventualmente presos de um modo elegante) ou ousava mudar – eu mudei. Como é bom me olhar no espelho sempre assim: linda! Como estou em casa? Linda. Como estou no trabalho? Linda. Como estou no jantar com meu namorado? Linda. Como estou no metrô às seis e meia da tarde? Desculpa aí: linda. Saí do banho, calcei minhas sandálias preferidas, um vestido leve e fui para a rua. Hoje meu café da manhã será especial: caldo de cana e pastel de feira. Ah, eu adoro caminhar pela Uruana: ela é uma daquelas ruas largas, cheias de árvores imensas que polvilham o chão de mil tons de verde, amarelo e vermelho. O sol, coado pelas folhas, nos chega morno. As maritacas dão seus gritinhos alegres aqui e ali e eu as tento identificar nos galhos: é inútil, elas não param quietas, mas eu adoro tentar. Encontro minha ex-professora do centro espírita, tia Ailema, na porta de casa, podando as plantas. Ela é botânica, portanto podas bem feitas só podem beneficiá-las: seu jardim é o mais bonito da rua. Me ofereço para lhe trazer algo da feira, mas ela diz que já foi bem cedo, obrigada. Depois da pequena fila na barraca, sento num muro e me lambuzo com pastel de queijo pelando de quente e o caldo de cana geladinho: que delícia! Trouxe duas sacolas: é hora de fazer a feira. As encho com banana maçã, uvas verdes, erva-doce, abacate, salsinha, limão, caqui e um pacote de castanhas de caju. Opa, me esqueci da banana da terra. Dei meia volta. Um dos meus doces favoritos é assim: corto a banana da terra em fatias finas, besunto-as no ovo, depois na farinha de rosca e frito. Ao lado preparo uma travessa com uma mistura de açúcar e canela. Após escorrer a fritura, ponho as fatias nessa travessa. O calor irá fazer com que elas adquiram uma camada de açúcar caramelizado com sabor de canela. Hum, não vejo a hora! Em casa, higienizo e guardo tudo: quem, depois da pandemia, consegue trazer compras para casa e não higienizá-las? Eu, não. Pego um copo de suco gelado e me sento com os pés para cima. Ponho aquela música que adoro: alto o bastante para eu ouvir sem miséria e baixo o bastante para não incomodar os vizinhos. Um beijo, um cheiro, um olhar demorado… é tão bom. Ainda não disse que o amo, ele também não, embora seja óbvio: nossos olhos (e peles) não mentem. Hoje é seu aniversário. Depois do plantão de ontem ele ainda deve estar dormindo. Às sete ele passará aqui para irmos jantar no Tao. Apanho o laptop: vou escrever uma carta como presente. Qualquer dia é bom para declarar amor, mas será especial que eu o faça através de uma carta no dia do seu aniversário e será mais especial ainda para mim porque agora eu, finalmente, me amo – e ele sabe, ele sente. Como é possível amar alguém sem se amar? Pois é. Não foi um caminho fácil nem curto e de vez em quando minha confiança dá umas rateadas, mas só de vez em quando. O sol já alcançou a esfera revestida de pedaçinhos de espelho sobre a estante e por isso minha sala está toda estrelada de luz. Hoje vou dizer todas as coisas lindas que estão guardadas aqui dentro e depois, irei mantê-las como bandeiras eternamente desfraldadas, irei corajosamente vivê-las, todos os dias da minha vida. E esse passo que faltava, o passo de ter coragem de dizer “eu te amo” vai ser dado hoje porque hoje, meu bem, eu acordei gorda!

Hoje acordei gorda (1999)

Hoje acordei gorda. Desgrudei os cílios, olhadela no rádio-relógio: mais de meio-dia.  Domingo, não me importo.  Ainda na cama pensei que o melhor almoço seria a pizza e o guaraná que sobrou do lanche de ontem. O bolo de milho meio solado da tia Cleide serviria de sobremesa.  Bom, vontade mesmo era comer quindim… Rápida inquisição à memória: não havia sequer um ovo na geladeira.  Sair, com esse frio?  Até que poderia, se eu não tivesse acordado gorda. Em duas horas almocei, em quinze minutos voltei a dormir: frio, gorda.  Acordei quando já estava anoitecendo, o que vou jantar?  Pesada, saí da cama e fucei a geladeira: restos.  Juntei todas as sobras da semana numa panela, disfarcei com creme de leite e alguns temperos.  Muito bom. Ressuscito uma lata de bolachas estrangeiras amanteigadas do armário e uns pedaços de ovos de Páscoa velhos.  Depois do Fantástico, volto para cama e o sono vem devagar.  Suavidade, mulher gosta de suavidade, um beijo, um afago, um olhar bem demorado, eu gosto. Ele me trata assim… Às vezes faço umas besteiras tão grandes…  Hoje: eu poderia, aliás deveria, se já não fosse tão tarde, iria mesmo sair correndo e voltar lá, só para dizer o quanto eu o amo, que não importa mais nada, que meu desejo é ficar com ele, e que vou lutar, sim! Porém de um minuto para o outro fica tão difícil suportar as pressões e, sem querer, eu cedo… e acordo gorda.  Ah… amor, me desculpe. Ontem você foi embora sob meu olhar flácido, não fui atrás, deixei que os outros dissessem, agissem, pensassem por mim, naquela impotência de deixa-para-depois. Amanhã: eu juro.  Sempre se tem esperança quando existe uma segunda-feira por vir: dia dos arremates, dos consertos, dos começos. Amanhã é segunda e eu vou, vou me jogar nos seus braços e gritar a plenos pulmões que não posso viver sem você, “vamos começar tudo de novo”?  Amanhã vou dizer que te amo.  Amanhã.  Hoje não tenho forças.  Me desculpe.  Hoje acordei gorda.