Um manifesto contra o estupro.

Carta da personagem ficcional Karina ao seu estuprador (retirada do meu romance “Eu me possuo”, sobre superação de um estupro, pela Panda Books):

Gustavo, se você não se sentisse culpado, essa conversa não existiria. Mas já que sua consciência está viva, eu tenho algumas coisas para te dizer. E vou dizê-las sem pressa.  

Você não se identifica como um estuprador porque pensa que estupros são feitos apenas por criminosos em esquinas escuras. Mas eu faço questão de abrir sua mente quanto a isso. Portanto, me ouça.

Há maridos que estupram suas esposas, há namorados que estupram suas namoradas, há amigos que estupram suas amigas. E muitos desses relacionamentos continuam, em meio às mordaças da necessidade, do medo, e até mesmo do amor asfixiado.

Você quer exemplos do que é estupro? Talvez você não queira, mas precisa deles para compreender a realidade. E, infelizmente, é muito fácil encontrá-los.  

Se você insiste em transar com uma mulher alcoolizada, sem que ela tenha condições de resistir às suas investidas, isso é estupro.

Se após o enterro do pai da sua namorara ela te pedir um calmante e você triplicar a dose para servir-se do corpo desacordado dela, isso é estupro.

Se você ameaça uma mulher dizendo que vai abandoná-la ou que vai matar sua irmã ou que vai tirar os filhos dela ou que vai procurar outra ou que vai demiti-la até que ela abra as pernas para você com olhos de horror, isso é estupro.

Se você faz sexo violentamente até a mulher, que em princípio te desejava, chorar, se encolher, ter medo de você, isso é estupro.

Se, em pleno ato, ela pede para você parar, seja por dor, por medo, por falta de vontade, por tristeza, por vergonha, o que for, e você não para, isso é estupro. 

Se ela não quer transar e você ignora seu “não”, tanto faz se essa pessoa é sua esposa, namorada, amiga, ficante, estranha, freira, virgem, mendiga, viúva, prostituta, isso é estupro.

Se durante o sexo a mulher paralisa, emudece, trava, e você continua, você nem pergunta o que houve, você segue sobre um corpo inerte até onde for conveniente ao seu prazer, isso é estupro. Há pessoas que não conseguem dizer nada quando se sentem agredidas e a paralisia em seus corpos é o efeito mais comum, sabia?

Creio que eu nem preciso falar sobre crianças, homens e trans – ou você acha que só mulheres são estupradas?

Será que eu ainda preciso dizer que se você convida uma moça para jantar na sua casa e você rasga seu vestido, você se enfia nela sem camisinha e à força, você estrangula seu corpo brutalizado, você permite que ela volte a respirar apenas porque seu gozo estúpido já terminou, você reclama dela estar menstruada, quando ela não estava, você vai se lavar no banheiro e depois, sem olhar para ela, diz “eu preciso trabalhar amanhã cedo” e a bota pra fora suja de sangue, será que eu preciso dizer que isso é estupro, Gustavo?

Quanto às suas justificativas, eu as ouvi e quero comentá-las uma a uma.

O fato de eu ter me sentido atraída por você, ter ido a sua casa, ter desejado transar com você, não significa que você poderia me violentar. Desejar um homem não é o mesmo que desejar ser estuprada por ele.

Você disse que era apaixonado por uma moça e que, após descobrir que ela saía com outro homem, outro para quem ela dava tudo o que negava a você, a ideia de sair comigo pareceu uma boa vingança. Daí veio o convite para jantar que eu aceitei. Após você me beijar no seu apartamento sem nenhuma delicadeza, eu me retraí. Você disse que errou ao supor que meu retraimento fosse rejeição a você e um deboche para com seus desejos. Eu nunca vi alguém debochar do outro chorando – e eu estava chorando. Mas e se fosse deboche? E se eu estivesse mesmo te rejeitando? Então um estupro seria uma reação justa? Imagine se mulheres saíssem por aí currando os homens que as tivessem rejeitado ou debochado delas. Imagine que elas acreditassem estar cobertas de razão. Seria um mundo seguro pra você, Gustavo?

Você diz que despejou sobre mim toda a raiva que sentia da outra moça – isso significa, de acordo com suas palavras, que você apenas errou o alvo porque quem merecia a violência era ela. Essa moça que saía com você, que se negava a você e se dava a outro, merecia apenas que você parasse de sair com ela, que desse um fora nela, que a ignorasse. Ela não merecia ser estuprada, como eu também não merecia.

Você disse que se soubesse que eu era virgem, não teria agido daquele modo. E se eu fosse uma mulher liberal, como sou hoje? E se eu tivesse dado pra meio mundo e quisesse dar pra você também? Aí o estupro faria sentido? Eu ser virgem me tornou mais injustiçada? Mais merecedora de compaixão? De acordo com esse raciocínio, não há problema algum em estuprar uma prostituta, por exemplo.

Mas você não parou o assunto aí: você disse que eu deveria ter te contado que era minha primeira vez e que isso faria você transar comigo com mais delicadeza e não como normalmente se faz. Gustavo, não me faça rir. Talvez essa desculpa fosse aceita por uma mulher sem qualquer experiência sexual como eu era, mas esse não é mais o meu caso. O que aconteceu aquela noite não foi um sexo normal, natural, desejado, vigoroso, gostoso, que duas pessoas experientes fazem – e você sabe disso.

Suas justificativas, como você pode ver, se tornam novas condenações.

Não, eu não aceito jantar com você. Não ouse supor que você me enternece dizendo que ainda se sente atraído por mim: minha inteligência é maior do que minha vaidade. A única reparação que me interessa é você jamais fazer com outra pessoa o que fez comigo.

Você disse que tem ido ao meu bar a fim de se desculpar por alguma má impressão que tenha deixado em mim. Você não deixou uma má impressão. Você cometeu um crime. Talvez agora você me pergunte por que eu não te denunciei já que afirmo que você é um criminoso.

Naquela noite, eu dei um nó no meu vestido para disfarçar o rasgo que você fez e me limpei como pude no elevador. Fiquei perambulando pela rua meio tonta, depois entrei num táxi e fui para casa da minha avó. Fui direto para o chuveiro limpar aquilo de mim. Me senti suja, me senti culpada, me senti inferior, me senti até ruim de cama: carreguei por muito tempo acusações que serviam para você, não para mim. Minha falta de experiência me fez acreditar que a culpa era minha, que eu apertei algum botão maldito em você e que talvez sexo fosse aquele horror mesmo. Por isso eu me mantive em silêncio. Mas meu corpo gritava! Em três meses eu engordei quinze quilos tentando me tornar incapaz de instigar desejo num homem, tentando criar uma segunda e grossa pele que me afastasse da dor. E pelos seis anos seguintes eu me mantive trancada.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu diria àquela menina assustada o que permiti que minha avó me dissesse anos mais tarde no chão do seu banheiro: que eu não tive culpa, que a sujeira daquilo tudo não estava em mim, que aquela coisa medonha tinha nome e que o nome feio dela é estupro, que sexo não era aquilo e que aquela experiência não poderia me definir nem definir o resto da minha vida. Foi um caminho longo e árduo, mas terminou.

Hoje essa carne mais macia, mais fértil de células e sensações, é parte de mim. Meu corpo não me afasta da vida, do prazer, dos homens interessantes – dos óbvios, sim, mas os óbvios eu não quero.  Hoje eu gozo, Gustavo, no sexo e muito além dele. E quem forjou a chave para abrir meu cativeiro fui eu. A força que hoje me habita é criação minha. Eu me possuo. Ninguém mais.

Por isso eu não preciso que você assuma o que fez – eu sei muito bem o que aconteceu e esse saber foi minha libertação, assim como pode ser a sua.

Embora meu jugo tivesse terminado antes do nosso reencontro, embora eu já estivesse livre, posso dizer que foi bom conversar com você, é bom escrever essa carta. Se você tivesse morrido ou sumido de vez, eu deveria te escrever do mesmo modo. Depois plastificar o papel e plantar a carta sob uma pedra robusta numa boa mata. Nessa pedra, eu entalharia o meu vitorioso nome. Aos sobreviventes, todas as honras!

Quanto a você, eu deposito uma semente de esperança no seu futuro e isso me faz bem. Sim, eu acredito que você tenha salvação: você se sente culpado, é indício de que tem sentimentos morais. Eu desejo, portanto, que nossa conversa sirva para que você se torne o homem que gostaria de ser. Desejo que no dia da sua morte, essa seja a única mancha do seu passado e que ela já tenha sido largamente coberta pelo amor que você doou aos outros. Desejo que você tenha uma esposa sensibilizada a te fechar os olhos. Que no último palpitar do seu coração, ao ver os olhos dela úmidos de uma saudade prematura, você sinta a alegria íntima de saber que foi um bom marido, um bom homem, um bom ser humano. Que o túmulo te seja leve. Que o reencontro com seu pai seja honrado e você não precise baixar a cabeça cheio de vergonha como está agora. Se você conseguir se tornar esse homem, Gustavo, estará perdoado.

Adeus.

Karina.

P.S.: Conheçam o https://podegritar.wordpress.com/