O Fantasma da Ópera: duas interpretações fascinantes!

Não há dúvida de que “O Fantasma da Ópera” é um fenômeno, mas por que essa história nos atrai tanto?  Por que, muito antes do musical de Andrew Lloyd Weber, nós já nos debruçávamos estranhamente absortos sobre o livro de Gaston Leroux, de 1910 (um livro que, do ponto de vista literário, não chega aos pés dos grandes romances do século XX)?

Em toscas pinceladas, o livro (e o musical) trata de Christine, uma jovem soprano que se divide entre seu misterioso professor de música (Érik, o Fantasma da Ópera) e seu belo amor de infância (Raoul, o Visconde de Chagny).  Estamos então a falar de um banal triângulo amoroso? De modo algum.

A trama nos leva a duas interpretações diferentes e igualmente fascinantes.

A primeira razão para que “O Fantasma da Ópera” seja tão atraente, a maior, a mais profunda, a mais universal é que todos somos Christine e o Fantasma e Raoul estão dentro de cada um de nós. A história é um mito moderno, um símbolo de como se definem as decisões no fundo das nossas almas. O Fantasma simboliza nossa força criativa, nossa vida interior, nossos desejos mais íntimos e vitais, muitas vezes considerados loucos pela sociedade; Érik habita o nosso inconsciente (não à toa ele vive nos subterrâneos do teatro). Já Raoul é a vida exterior, que acontece sobre o palco, à vista de todos, é se encaixar nos padrões da sua cultura e do seu tempo, é fazer tudo conforme esperam de você, sem espaço para dúvida, desafio, mudança.

Portanto, se escolhermos Raoul e a vida de superfície, teremos um perfil no Instagram cheio de curtidas, uma vida exterior invejável, uma família tradicional, muitos ternos e vestidos no armário, mas seremos secos, vulgares, ocos. Já se escolhermos o Fantasma, seremos provavelmente chamados de loucos, mas faremos aquilo que fomos talhados para fazer, aquilo que nossa alma realmente deseja. Quando tentamos silenciar o Fantasma, quando não o aceitamos, não o incorporamos de algum modo à luz da ribalta, ele se torna agressivo, destruidor, se transforma em sintoma, doença, fobia, e nada diminuirá sua fúria, nem mesmo uma dezena de psicotrópicos.

Desse modo fica claro que o que parece ser um triângulo amoroso é, na verdade, a dúvida que enfrentamos cada vez que temos de fazer uma escolha, seja ela pequena ou grande. Por que temos raiva da contínua incerteza da personagem Christine? Por que nos sentimos fascinados pelo Fantasma, mesmo quando ele se torna violento? Por que torcemos para que Raoul pacifique aquele drama logo de uma vez? Por que ora queremos que Christine fique com Raoul, ora com o Fantasma? Porque nós somos ela. O mito do Fantasma da Ópera, portanto, simboliza tudo que nos divide, que nos move, que nos petrifica, que nos expande.

Eu tenho minhas dúvidas se Gaston Leroux sabia que estava escrevendo um romance com esse alcance todo, mas aposto que Andrew Lloyd Weber, que o adaptou para os palcos em 1986 e para o cinema em 2004, sabia muito bem o que estava fazendo. É inegável que ele aperfeiçoou a história. Apesar de um detalhe desnecessário na sua biografia (um trecho da canção “The music of the night” é igual ao de uma ópera de Puccini e um acordo entre as partes solucionou a contenda em sigilo), seu talento é inquestionável, mesmo levando em conta as escolhas seguras que ele fez em termos musicais. Menção honrosa para Charles Hart e Richard Stilgoe que compuseram as letras das canções, hoje tão populares, como All I ask of you, Angel of Music, The Phantom of the Opera, Think of me, Masquerade: cada uma dessas letras sustentaria um novo e detalhado texto a respeito.

“Christine, é preciso que me ame!”: essa é a primeira frase que o Fantasma da Ópera diz no livro e ela nos coloca no caminho da nossa segunda interpretação.

Érik e Raoul são ambos homens abusadores, que submetem sua amada a um inferno no qual a última coisa que importa é o que ela realmente quer. Há, porém, uma diferença fundamental entre Érik e Raoul: o Fantasma é um abusador consciente, irremediável, perverso, sádico, psicopata; já Raoul é um abusador inconsciente, ignorante, tolo, porém não mau.  Na vida há também essas gradações: há aqueles homens (ou mulheres) que sentem prazer em provocar sofrimento e submeter o outro às suas vontades, como também há aqueles que são abusadores por falta de bons exemplos, de uma boa formação, de uma cultura que privilegie a parceria no amor.

Raoul é inconveniente e abusador no livro, já no musical isso foi bastante suavizado, ele mais tenta ajudar Christine do que ditar seu destino. Quanto ao Fantasma, porém, tanto no musical como no romance de Gaston Leroux, é inquestionável que ele é um abusador da pior espécie.

Christine não acreditava no Fantasma da Ópera, mas sim no Anjo da Música, prometido por seu pai: “Quando eu estiver no céu, prometo que vou enviar o anjo para você”, ele disse. Desse modo quando começou a ouvir uma voz maviosa em seu camarim que dizia ser o Anjo da Música, voz cujo dono era invisível e lhe oferecia aulas sublimes, ela aceitou. A ilusão era mantida por um engenho arquitetônico (Érik estava atrás das paredes) e outro vocal (o Fantasma treinou sua voz para projetá-la em qualquer lugar). É sempre assim: num relacionamento abusivo há dois responsáveis, mas só um culpado. Christine era parte daquela relação, era também responsável por ela, mas estava iludida quanto à verdadeira natureza do Anjo da Música, ela não agia com malícia e uma agenda prévia como ele, ela era toda entrega e esperança. Essa disposição não se assemelha a incontáveis casos de abuso?

Christine melhorou muito seu canto a partir das aulas, pois o Fantasma era de fato talentoso, como a maioria dos abusadores. Quantas coisas maravilhosas essas pessoas cheias de energia e verve poderiam fazer caso se pautassem pelo que é justo, nobre e bom?

Em apenas três meses Érik, o Fantasma, havia se tornado não apenas o mestre de Christine, mas seu dono. O Anjo da Música (ou a Voz, como ela também costumava chamá-lo) a proibia de se casar e dizia que se ela o desobedecesse ele iria embora para sempre. Essa não era uma ameaça qualquer: o pai de Christine a ensinara que os músicos geniais o eram porque haviam recebido a visita do Anjo da Música. Ela acreditava, portanto, que perder o Anjo seria perder o dom de cantar!

Certo dia, cansado de ser apenas uma voz, o Fantasma sequestra Christine. Ali, nos subterrâneos, ela é apresentada à figura deformada daquele a quem ela acreditava ser um espírito, o Anjo da Música (é preciso dizer que Andrew Lloyd Weber embelezou muitíssimo o Fantasma, no livro ele é uma criatura inteiramente repulsiva). Em seus domínios, Érik submete Christine a todo tipo de constrangimento até o ponto em que ela tenta se matar. Quando finalmente é libertada, ela diz a Raoul: “Se eu não voltar para junto dele, grandes desgraças poderão acontecer”. Raoul pergunta: “Ele a ama tanto assim?”. E ela responde “Ao ponto de cometer um crime!”. O nome desse sentimento não é amor, mas era assim confundido, como o é até hoje. Abusadores não amam ninguém, mas amam usar todos.

No entanto não eram apenas ameaças que faziam com que Christine voltasse ao Fantasma. Havia também o fascínio: “Ele canta!… E eu o escuto e fico!”. Não é segredo que todo abusador perverso costuma ser cheio de carisma e magnetismo e que mantém a vítima ao seu lado mesmo depois de ela saber que vive uma relação abusiva justamente porque, ao lado da violência, há o encanto. Christine, mais tarde, sintetizaria sua situação dizendo: “É triste, mas eu não era mais dona de mim mesma: eu era um objeto nas mãos dele”.

Assim estava nossa protagonista: sofrendo de um lado chantagens emocionais, exigências descabidas, ameaças e até sequestros feitos pelo Fantasma da Ópera, um abusador perverso, de outro, suportando a insistência de Raoul em ter seu amor correspondido (no livro isso é muito claro, no musical, não) e em convidá-la sem tréguas a fugir, abandonar a carreira e se casar com ele (coisa que acontecerá no final, com um detalhe nem um pouco desprezível: Christine nunca mais voltará a cantar). Seja com o Fantasma ou com Raoul, Christine não é livre.

Talvez alguém diga que um homem como Raoul, que não sente prazer em fazer Christine sofrer, que até mesmo supõe a estar libertando, é um abusador que pode ser salvo, que pode ser mudado. De fato, com o tempo, ele pode ser salvo – mas por ele mesmo, mais ninguém. Esse não é um trabalho que compete a sua parceira ou ao seu parceiro. Na vida real, se afastar do abusador e romper todo tipo de relação com ele é a única saída. É preciso se transformar numa parede, num muro, num monolito de mármore perfeitamente liso e impenetrável, sem nenhuma fresta, rachadura, fissura por onde ele possa entrar. Christine, porém, não se torna um monolito.

No final da história temos uma transformação milagrosa. Novamente sequestrada por Érik, Christine aceita se casar com ele para salvar Raoul. O Fantasma, pela primeira vez, beija alguém e a emoção é tão grande que ele começa a chorar. Cheia de compaixão Christine chora com ele e suas lágrimas se misturam. Esse ato de amor verdadeiro faz com ele a liberte. Na vida real, porém, isso não acontece. Supor que se é capaz de transformar um abusador perverso é uma estrada para o abismo.

No livro, o Fantasma morre pouco depois de abrir mão de Christine (como se ele não conseguisse existir sem ser perverso). No musical, porém, ele permanece vivo e acompanhando, à distância, os passos da amada.

Uma frase de Gaston Leroux nos mostra o destino de quem, como Christine, se deixa tragar por tudo que é superficial (de acordo com a interpretação mítica) ou por um relacionamento abusivo (no caso do segundo modo de ver a história). A partir do casamento com Raoul, o autor nos informa que “A terra nunca mais ouviria falar da sublime e misteriosa cantora”. Ela esqueceu de si mesma, de sua arte, de sua força. Portanto, seja qual for a perspectiva sob a qual analisarmos “O Fantasma da Ópera”, Christine é um modelo que não deve ser seguido.