Amor a gente faz acordado.

Perto de mim, na loja de colchões, um casal maduro conversava baixinho. Havia um quê de súplica na posição da mulher: mãos unidas em prece, olhos redondos cravados no companheiro, cabeça ligeiramente baixa enquanto parecia lhe perguntar algo que ele ouvia com estupefação. Percebi que eram casados há um bom tempo, pois as alianças estavam foscas e riscadas.

De novo, Stella? Lá estava eu mais uma vez colhendo nesgas da intimidade de estranhos e compondo uma história a partir dela. Sacudi a cabeça e resolvi cuidar da minha compra: molas ensacadas, firmeza ortopédica, viscoelástico transpirável, tratamento antimofo, 10 anos de garantia.

Eu já havia esquecido o tal casal quando, lá pelas tantas, ele passou bem ao meu lado, na saída da loja. Foi então que o marido soltou uma frase inteira no ar para que eu pegasse – o.k., não para que eu a pegasse, mas foi o que fiz. A frase era: “Primeiro a gente vê se continua dormindo junto ou não”. Ao ouvir isso, a esposa pareceu muito satisfeita e antes que eles entrassem no carro ele beijou a mão dela. Às turras ou às portas de uma separação definitivamente eles não estavam.

Supus que, à beira da compra de um colchão novo de casal, aquela mulher, cansada de mil noites insones, deve ter dito ao companheiro: “E se nós dormíssemos em quartos separados?”.

Me coloquei no lugar dela. Antes de dormir, eu gosto de ler, depois fazer uma oração e finalmente por para rodar alguma palestra que eu já tenha ouvido várias vezes da Lúcia Helena Galvão, do Artur Valadares ou do Haroldo Dutra Dias. Costumo me virar bastante na cama, uso cobertor até no verão, no inverno deixo o aquecedor ligado a noite toda e os vidros fechados, gosto que a luz da rua entre no quarto em boa quantidade, tenho sono leve e de manhã faço meia hora de alongamentos antes de me levantar. Convenhamos que seria um suplício para alguém com uma rotina diferente ter de dormir comigo e vice-versa. Imagine os desentendimentos, a irritação, os olhos empapuçados de sono, o cansaço que não passa. Uma tortura, não? Por que tantos casais se entregam de bom grado a essa tortura?

Por que não dormir em camas ou em quartos separados, mesmo que o segundo quarto seja uma transformação noturna da sala em dormitório? Essa pergunta é das mais difíceis de fazer quando um casal decide viver junto e, no entanto, deveria ser uma das primeiras. Por que se casar implica em obrigatoriamente dormir na mesma cama?

Minha amiga Cristina, por exemplo, ama dormir com o marido. Mas isso acontece porque eles têm um modo semelhante de se entregar por algumas horas ao deus Hipnos: no escuro total, de lado, um encaixado no outro, quase não se movem, ambos roncam, têm o sono pesado e adoram ar condicionado bem frio. Ótimo.  Mas e se o amor da sua vida tiver um jeito de dormir diferente do seu, como fica? Sabemos que é raro haver igualdade nas rotinas de sono: o mais frequente é a vontade de um imperar sobre a do outro.

A vida de um casal deveria ser conduzida pelas regras que ambos criassem em mútuo acordo, sem premissas do que é certo ou errado. É bom dormir junto? Durmamos. É ruim dormir junto? Mudemos!

Mas e o amor, alguém há de perguntar. Ora, abraços, beijos, sorrisos, carinhos, massagens, sexo, amor, tudo isso se faz acordado! Já o sono é algo que você não compartilha com mais ninguém: dormir é uma atividade particular, solitária, individual. É ignorância pensar que dois adultos se amam menos ou têm uma vida menos romântica apenas porque optaram por não dormir na mesma cama.

Eu desejo que todas as pessoas que dormem mal porque tentam se adaptar ao modo do companheiro ou da companheira possam, sem culpa, com calma, com amor, propor algumas soluções. E que a parte que está mais confortável na balança do sono, em vez de se irritar com a proposta de dormir em camas ou cômodos separados, fique feliz em proporcionar a quem ama um prazer a mais: o do descanso.