Eu e você somos um perigo para a paz mundial.

É comum ouvir por aí que iniciativas como o 21 de setembro, Dia Internacional da Paz, são demagógicas e inúteis. O ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, explicou que um único dia de cessar-fogo e não-violência faz com que se possa, nas zonas de conflito, prestar assistência humanitária mais facilmente, como retirar civis dessas áreas, erguer abrigos, vacinar crianças, etc.

Aparentemente a questão da paz mundial é grande demais e escapa da nossa esfera de influência, mas a realidade é outra. Não tenho eu a pretensão de ser a emissária da paz com auréola de escritora politicamente correta, meu objetivo é outro: quero fazer com que você perceba o quanto você é violenta ou violento. Não olhe para os lados, estou falando com você, sim. Eu? Eu já sei que sou feroz – e tento não ser justamente porque sei que sou.

Impossível não haver violência em massa porque nós somos todos belicosos (com exceção a missionários obscuros espalhados pelo globo). Qualé, ainda ontem estávamos no Coliseu levantando polegares! Basta colocar o orgulho de lado para chegar a essa conclusão.

Amplifique sua fúria para com o vizinho que arranhou a porta do seu carro e você terá um perfeito George Bush. Você era contra a Guerra do Iraque, claro, mas não suporta que alguém te dê uma fechada no trânsito e, se puder, vai dar um jeito de ultrapassar o… o… quem é mesmo que está ali atrás daquela direção? O inimigo!

Como consequência de um povo belicoso temos uma cultura da truculência. As pessoas falam com orgulho que são do tipo que “não leva desaforo para casa”. Todas as vezes em que eu não levei desaforo para casa, levei outras coisas: remorso, gastrite, cabelos brancos, rugas, pesadelos, dores de cabeça, músculos tensos. Sem contar que dessa forma acrescentei novos problemas ao problema original.  Dar chilique em qualquer lugar que não seja sozinha-trancada-no-banheiro é ridículo, primata, patético. E mesmo sozinha-trancada-no-banheiro, ainda assim, eu contribuo para a pestilência vibracional do meu ser, da minha casa e do planeta.

Um desdobramento dessa cultura agressiva se vê claramente nas redes sociais. Parece uma ofensa particular alguém pensar diferente de nós. Parece que é uma declaração de guerra. Parece que estão marchando sobre o nosso gramado. Pra quê tantos dentes rilhados? Outro dia escrevi que discordar é uma arte que tem de ser sempre exercida com elegância e que concordar é uma arte que tem de ser sempre exercida sem lisonja. Desarmar nossas palavras talvez seja um início.

A verdade é que eu e você somos um perigo para a paz mundial. Lutar pela paz, portanto, começa por proteger os outros de nós.