Os chatos têm salvação.

Os chatos têm salvação. Sabe aquela pessoa chatíssima, sem noção, espaçosa, pentelha? Pois ela pode se tornar uma pessoa bem legal, eu juro. Mais do que jurar: eu provo!

Quando trabalhei por dez anos como secretária, eu abusava do perfume a ponto de sufocar quem compartilhasse um elevador comigo. Hoje apenas quem me abraça consegue sentir uma leve nota de Fahrenheit. Os chatos têm conserto!

Eu fumava num espaço pequeno sem me importar com quem estivesse ao lado; hoje, além de ter parado de fumar, fujo de qualquer cigarro, cachimbo, charuto, narguile e até incenso. Não enxoto de casa os amigos que fumam, porém, discretamente, abro as janelas para que sua pestilência não incomode ninguém. Que diferença de quando eu era fumante!

Dos meus 16 até os 20, 21 anos, eu inventava namorados e situações que nunca existiram e seria catalogada como um caso patológico se a ficção não houvesse me salvado: hoje inventar é minha profissão. Certo dia, na faculdade, uma colega me chamou de mal-amada e naquele momento, em vez de mais uma vez evitar a realidade, eu simplesmente concordei com ela. Sim, eu disse:  “Sou mesmo muito mal-amada, caso contrário não estaria aqui nessa briga inútil com você!”. Mentir para os outros é chato, para si mesmo é patético. Mas os chatos têm salvação – e os patéticos também.

Eu costumava mandar cartas ácidas para emissoras de TV cujos programas não me agradavam, até que Rosana Hermann me deu a melhor lição sobre o assunto: falar mal é dar ibope, se você não gosta de algo, ignore. É claro! Toda vez que você compartilha ou comenta algo em um post desagradável você apenas concorre para viralizar esse mesmo post. Outros podem gostar da publicação que você detestou – e esses outros só a conhecerão porque você ajudou a divulgá-la. Ou a gente para de ser chata ou vira jornalista, escritora, crítica e faz isso profissionalmente, arcando com as consequências das opiniões. Uma chatice, nesse caso, ganha responsabilidade e se torna útil à reflexão coletiva. Viu? Há salvação para os chatos!

Se você, por um instante ou dois, refletir sem vaidade, vai concordar comigo. Afinal você nunca foi a chata de alguém? Nunca reconheceu no rosto do seu interlocutor uma sobrancelha erguida ou um suspiro fundo de aborrecimento? Há quem não note a própria chatice, é verdade, o caso então se torna mais sério: sinal de que a pessoa nunca olhou de fato para si e para o seu semelhante. Bem mais grave que ser um chato de galochas, é nunca ter percebido isso.