Mudar de país é a coisa mais desafiadora que você pode fazer.

Eu sei que dor não se mede, como sei também que diante da mesma dificuldade, cada pessoa reage de modo diverso, por isso generalizar é um erro. Ainda assim, ouso dizer que, excetuando-se o enfrentamento de uma tragédia pessoal, mudar de país é a coisa mais desafiadora que você pode fazer – e a mais mal compreendida.

O maior erro que as pessoas que não passaram por essa experiência fazem é confundir viagem com mudança: viajar é muito diferente de se mudar. Quem viaja fica um prazo curto longe de casa, hospedado em hotéis ou algo semelhante, não tem compromisso com nada a não ser passear, se divertir e voltar para casa com a mala cheia de roupas sujas e o celular coalhado de fotos. Viajar pode até ser cansativo, mas é sempre rápido e estimulante, desde que você esteja acompanhado das pessoas certas: nada torna uma viagem pior do que a companhia errada, assim como nada torna uma viagem melhor do que a companhia certa (e ela pode ser apenas você). Em suma: viajar é leve, agradável, um hiato na sua rotina.

Já se mudar de país envolve estresses desconhecidos de quem nunca precisou ou quis ter essa vivência. Do dia para a noite você perderá todas as referências externas. Sua família não estará lá.  Seus amigos? Também não. A internet permite matar um pouco da saudade, mas toda sua rede de apoio sumirá assim que seu passaporte for marcado no aeroporto. Amigos você poderá fazer novos, é claro, mas isso leva tempo (e dependendo do país esse tempo é mais longo). Talvez você se mude com a família, o que teoricamente deixaria as coisas mais fáceis, mas não deixa: uma coisa é seu marido, sua mãe, sua irmã, outra coisa é seu marido, sua mãe, sua irmã sob o mesmo estresse que você numa terra estrangeira. Uma coisa são seus filhos. Outra coisa são seus filhos sob o estresse de viver numa terra estrangeira. Nada vai te preparar para isso. Até as coisas aparentemente mais simples não estarão ao seu alcance: o cabeleireiro no qual você confia suas preciosas madeixas, seus médicos que conhecem o funcionamento do seu corpo, sua podóloga que desencrava suas unhas sem te arrancar sangue, nenhum desses profissionais tão necessários irá na sua mala. Sua alimentação? Será outra. Aqueles produtos que você estava acostumada a consumir e preparar não existirão ou existirão em versões diferentes. A água na qual você se banhará será outra. A língua, mesmo que em Portugal ou Angola, será outra, com expressões e sotaques desconhecidos. As ruas por onde você caminhará e os meios de transporte terão suas próprias regras. Caso você seja praticante de alguma religião terá de encontrar um novo templo, mesmo sabendo que ele nunca será como aquele que você frequentou desde a infância. Os papeis que você terá de preencher, as normas que terá de obedecer, o modo de exercer sua profissão, tudo novo e essa avalanche de estreias te deixará atordoada , insegura e com muito medo. Sobretudo, onde quer que vá você será sempre uma estrangeira: seus direitos e deveres serão diferentes, e o modo como os outros te recebem também. Você se agarrará a pequenas conquistas como ir sempre ao mesmo mercado e conhecer o conteúdo das prateleiras porque rotina é estruturante e nós só percebemos isso quando ficamos sem ela.

Enquanto isso amigos e a família te cobram notícias perguntando sobre os incríveis passeios que eles julgam que você está fazendo quando na verdade você ainda está tentando entender como se paga a conta de luz e como validar as passagens de trem nas estações em que não há catracas, roletas ou qualquer coisa que se assemelhe a isso. Não, você não notou que está há quinze dias sem mandar mensagens porque o tempo passa mais rápido e de modo mais áspero quando você muda de país: suas necessidades se modificam de modo tão absoluto que as miudezas que te moviam na terra natal deixam completamente de fazer sentido.

Quem viaja pode observar os costumes de um país estrangeiro como uma curiosidade, quem se muda tem de absorver esses costumes e torná-los seus ao menos em público (nada mais deselegante do que alguém teimosamente continuar a se portar com os costumes da sua cultura de origem). Em Portugal, por exemplo, você não conseguirá sequer uma informação na farmácia se não disser antes “bom dia” ou “boa tarde”. Pode tentar. Você não vai conseguir. Então ou você compreende que naquele lugar todas as pessoas se cumprimentam antes de qualquer mínima interação ou você será um lamentável embaixador do Brasil. Sim, fora do nosso país somos o tempo todo embaixadores dele.

Mudar de país é a coisa mais desafiadora que você pode fazer, por isso é preciso um motivo muito, muito importante para levar essa ideia a frente. O meu desejo, portanto, é que o seu motivo seja forte o bastante, mais forte do que os obstáculos, pois depois deles finalmente você terá alegria, prazer e paz.