O segredo (genial) das faxineiras.

Não tenho empregada no dia-a-dia. Mas não alcancei a beatitude da autonomia doméstica: uma faxineira me salva a vida uma vez por semana. Não qualquer faxineira, mas Luzia (a quem eu chamo de Lubeca), que faz parte da nossa família desde que eu me entendo por gente. Ela cuidou da minha mãe até seus últimos dias e é, para mim, uma figura materna das mais queridas. (Para quem ainda acha que direitos trabalhistas e afetividade não se misturam, vale dizer que Luzia foi registrada com direito a férias, 13º salário e demais benefícios, já quando veio morar conosco, na década de 70.).

É provável que a sua empregada pertença a esse grupo especialíssimo, como é provável também que ela não passe de uma quase-estranha que limpa sua geladeira.  Existe, porém, algo que todas as faxineiras têm em comum: nenhuma delas, ao ir embora, deixa os objetos da casa no mesmo lugar em que os encontrou. Pode ser mineira, amazonense ou baiana, pode ser senhora ou adolescente, pode ser casada ou ter três namorados, pode adorar criança ou preferir engomar roupa, todas elas fazem a mesmíssima coisa: depois da limpeza, mudam tudo de lugar.

O que move uma empregada a fazer isso? Será que é um desejo incontrolável de ser a dona da casa? Ou será apenas teimosia? Pode ser ainda a constatação muda do nosso mau gosto. Talvez Luzia pense: “A Stella não entende nada de decoração: não vê que a ovelha virada para a porta fica muito melhor do que olhando para a janela?”. Será?

Uma coisa é certa: quando eu ponho os pés em casa, após a faxina da Luzia, gasto uns quinze minutos para colocar os meus porta-retratos, abajures, enfeites, livros, tudo de volta ao seu lugar original. Impressionante, até meus travesseiros – quer coisa mais íntima e pessoal do que travesseiros? – minha faxineira arruma da maneira que ela acha melhor (uma maneira que definitivamente não é a minha).

Pois, alguns meses atrás, eu não aguentei mais a dúvida. Ao chegar em casa e, mais uma vez, ter de acertar a posição da minha luminária feita com um farol de fusca (cuja posição correta, para mim, é com a luz virada para frente e, para a Luzia, é com a luz virada para o teto), passei a mão no telefone e liguei para a casa da minha digníssima ajudante.

–  Lubeca, me responde uma coisa que está me encafifando. Por que você nunca deixa as coisas aqui em casa na mesma posição em que você encontra? Por exemplo, meu porta-retrato verde fica ao lado da TV, mas você toda semana o deixa ao lado do som. Minha agenda, cujo lugar é em frente ao computador, você sempre enfia na gaveta da escrivaninha. Até meu roupão de banho, você tira do gancho atrás da porta e pendura no registro. Por que, em nome de Deus, você faz isso?

Luzia não titubeou.

– Ué, para você saber que eu fiz a faxina. Se eu deixar tudo no mesmo lugar como é que você vai perceber que eu limpei a casa?

Fiquei pasma. Heureca! Luzia é um gênio! E não é que faz todo sentido? Mistério, enfim, solucionado.

lu

Val

(Eu e Valderez Cândida Santana, filha da Luzia: crescemos juntas e seguimos).