Beleza: mudanças de fora pra dentro.

A primeira vez que ouvi falar em Botox foi quando uma amiga se separou e de tanto chorar seu rosto vestiu luto: a testa se tornou um labirinto de contrações e os olhos ganharam sulcos que nunca estiveram lá. Era como se uma máscara de dor tivesse sido costurada em seu rosto. Algumas semanas depois, porém, a reencontrei transformada: seu semblante havia voltado ao normal com um toque de serenidade que há muito eu não via. O que acontecera? Seu marido havia voltado arrependido? Largado a amante e rastejado pedindo o asilo do seu amor? Será que ele havia retirado com beijos e carinhos as palavras duras que convulsionaram o rosto da minha amiga? Não, nada disso. Ela havia se submetido a um troço chamado Botox: injeções com toxina botulínica, que paralisam temporariamente certos movimentos, como carrancas, pés de galinha e testas retorcidas de tanto chorar. Claro que o Botox não consertou o rombo em sua alma, mas fez com que ela, ao ver seu rosto mais tranquilo no espelho, sentisse um bem-estar que deu início a outras e mais significativas transformações, como fazer terapia e, mais tarde, mudar de emprego.

Quem supõe que ir à dermatologista ou ao salão de beleza é algo fútil não entende nada de mulher – e menos ainda de sensibilidade. O que as médicas (e médicos) fazem por nós em seus consultórios, o que as cabeleireiras fazem por nós em suas cadeiras mágicas, é algo que influi profundamente no nosso ânimo e muitas vezes é o primeiro passo para sair de uma depressão, para reconstruir um casamento, para voltar ao mercado de trabalho, para iniciar uma dieta, para enfrentar uma cirurgia e mais um sem número de desafios que a vida nos apresenta.

Lembre-se de uma mulher que tenha atravessado um luto rigoroso: você deve conhecer alguma. O que você via no auge da dor? Cinco dedos de raízes à mostra em seu cabelo antes bem cuidado. Quando consegue finalmente se erguer, a primeira coisa que ela faz por si mesma é ir ao salão pintar os cabelos. Ou, caso ela tenha o lindo estilo de Judie Dench ou Helen Mirren, o primeiro sinal de seu retorno à vida é acertar o corte. Repito: cuidar da aparência não é futilidade.

Certamente há quem pare nesse primeiro passo (cuidar da aparência) e dele não saia acabando por se tornar uma caricatura oca de si mesma. Mas eu pergunto: excessos e radicalismos de algumas mulheres anulam os benefícios que outras tantas colhem? Devemos ter vergonha ao pagar em três vezes no cartão um laser clareador de manchas? Devemos nos constranger por retocar a raiz dos cabelos de vinte em vinte dias? Quem nos critica por isso, além de não pagar nossas contas, não sabe que muitas vezes a mudança começa de fora pra dentro.

Eu não represento nenhuma marca, produto, indústria, segmento, sindicato. Eu apenas observo, converso, sinto, e escrevo: esse é o meu trabalho. E o que eu tenho observado, ouvido e sentido é que viver exige coragem – e que ela pode, sim, começar num prosaico salão de beleza ou no consultório da nossa dermatologista.