Aplicativos de paquera: quem não escolher!

Parece óbvio, mas é preciso iluminar o óbvio: esta crônica, portanto, trata, sem poesia e direto na carne, de algumas obviedades sobre os aplicativos e sites de paquera.  Mais especificamente, como não usar, como não fazer, como não se mostrar e, sobretudo, quem não escolher nesses ambientes virtuais. Vamos lá?

  • A pessoa que diz estar ali para fazer amigos é quase sempre comprometida e usa em seu texto esse eufemismo mequetrefe (há quem afirme abertamente ter alguém: menos mal). Se homem casado é uma encrenca que você não procura, caia fora.
  • Fotos mostrando o dedo médio: o que significa isso? O tamanho do membro dele? Ou o nível da sua educação? Isso é sinal de ousadia? Ele que aprenda a ser ousado lendo a biografia do Gandhi!
  • O AA (Alcoólicos Anônimos) deveria inserir anúncios nesses ambientes de paquera virtual porque a quantidade de pessoas com copo na mão das formas mais deselegantes é absurda. Você quer alguém imaturo a ponto de se orgulhar das próprias bebedeiras?
  • Caso só haja fotos de viagens e paisagens em que ele aparece distante ou de costas ou fotos bem próximas de qualquer parte do corpo dele, esqueça esse perfil. Qual a razão para alguém não se mostrar claramente? Quem quer ver o close de uma íris ou de uma boca? Quem quer ver um pontinho na frente do Big Ben ou da torre Eiffel? Essa pessoa quer atrair você ou te enganar?
  • O cara tem filhos e os ama. O.k., mas um aplicativo de paquera não é lugar para expô-los. Pior ainda quando todas as fotos dele são com os filhos: será que há espaço para mais alguém na vida desse homem?
  • Me perdoe, mas terei de ser rude agora. Fotos sorrindo, beijando, fazendo sinal de positivo ou qualquer outra pose ao lado de animais selvagens obviamente dopados são ridículas e escrotas. Sabe “o horror, o horror” que Marlon Brando sussurra em Apocalypse Now? É o que eu sinto.
  • Não é conveniente se estender em longos textos de apresentação num perfil virtual; algumas linhas, porém, são bem-vindas, desde que não sejam clichês. Vamos ver alguns?

▪ “Curto as coisas boas da vida, aproveito cada minuto como se fosse o último: carpe diem!”. Ei, rapaz, que tal um pouco de foco? O que são coisas boas para você? Como exatamente você aproveita cada minuto: fumando crack ou lendo um livro?

▪ “A little less conversation, a little more action, please.” A canção de Elvis significa que ele quer um encontro com sexo e rápido. Não sei como uma mulher pode se interessar por alguém desse tipo, enfim, tem gosto pra tudo.

▪ “Quem se descreve, se limita”. Sem rodeios? Isso é desculpa de gente presunçosa, preguiçosa e incapaz. (Para entender por que essa frase é uma bobagem, leia a crônica “Escrever é um acerto de contas”.)

▪ “Sem mimimi”. Creio que uma tradução dessa frase neandertalesca dirá tudo que precisamos saber: “Eu sou um homem das cavernas, não aceito diálogo, uso violência de todo tipo e exijo que você faça sexo como eu quiser, quando eu quiser e onde eu quiser”.

  • Nem preciso dizer, mas digo: ameaças, discursos de ódio, listas do que ele detesta nem é fria, é uma Era Glacial inteira.
  • Há homens que dão vários de seus endereços virtuais: é como se eles dissessem “está tudo aqui, não me pergunte nada”. Ora, quem vai fazer uma pesquisa sobre a vida do gajo e avaliar cem páginas de publicações antes de dar sim ou não ou escrever uma mensagem de olá? Outra coisa: ninguém jogaria seu currículo na mão de estranhos – e, caso eles não tenham notado, nesses aplicativos o que mais tem é isso, estranhos.
  • Para fechar, falo sobre minhas fotos preferidas: as de língua de fora! Elas são excelentes para mostrar o estado de saúde do homem em questão. Uma língua suja, esbranquiçada, com talhos, bolinhas vermelhas ou colorações diferentes, só mostra uma coisa: o cara está podre por dentro – essa boca ninguém deve beijar mesmo!

Por fim, resta a questão fundamental: vale a pena se aventurar nesses aplicativos? Eles são seguros? Não há cafajestes, golpistas, malandros, estupradores, farsantes, abusadores de toda sorte? Não vou mentir: há, sim. Como também os há na fila do cinema, na faculdade, na casa dos amigos, no trabalho, no parque, nos templos religiosos, na vida, enfim. Entre a tentativa e a cautela, melhor ficar com as duas, juntas.

(Obs.: Este texto faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.)