A Louca em você e as canções infantis

Há um movimento que pretende reescrever as canções de ninar a fim de tornar suas letras politicamente corretas. Dizem que essas canções possuem mensagens nefastas e que nossas crianças desenvolveriam ideais mais positivos sem sua influência. Peço aqui licença para uma interjeição: quá!

Limpar as canções infantis é como criar uma pessoa dentro de um ambiente controlado e perfeito: quando ela se deparar com os bois da cara preta da vida real, estará tão despreparada que isso será equivalente a levar um soco fatal. Tomemos como exemplo uma letra que supostamente destruiria a fé no amor romântico: “O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”. Quem vai se machucar mais na vida: uma menina que acredita que toda manifestação de afeto é pura e eterna ou uma que sabe que existe o amor verdadeiro e o amor de vidro?

Estão querendo dedetizar a cabeça das nossas crianças. O boi da cara preta, a cuca ou o bicho-papão causam muito mais fascínio do que medo. Por quê? Porque todos, incluindo crianças, têm seu lado bicho-papão e é saudável, para não dizer essencial, que ele seja aceito, incorporado à personalidade e transformado em poder criativo.

O livro “E a Louca tinha razão!”, de Linda S. Leonard, afirma que todos temos, dentro de nós, um louco e um juiz. O juiz é o censor, o que dita as regras e impõe limites; o louco é o responsável pela impulsividade, pelos atos criativos, pela intuição. Quando nossa Louca (figura arquetípica tão fundamental quanto a Juíza) se sente aceita e integrada, ela é preciosa, porém renegada às catacumbas do inconsciente é terrível arma de destruição. Diz o texto: “A raiva e outros sentimentos negados ou não reconhecidos, se forem separados do resto de nossas vidas, enchem a Louca de veneno que alimenta os atos destrutivos. (…) Para que possamos transformar essa energia furiosa numa força criativa e útil, precisamos primeiro examiná-la cuidadosamente em nós mesmos (…). Não podemos nem devemos simplesmente deixá-la de lado como anormal ou apenas louca”. Assino embaixo – assino e tatuo: uma das minhas tatuagens, não por acaso, é a frase “Para encontrar a Louca”.

Como a criança saudável que se nutre de bruxas e fadas, convide sua Louca para almoçar. Ela é doida, você sabe, mas é a única capaz de realizar na sua vida as revoluções pelas quais você há tanto tempo espera e precisa.