Convites e seus (não) encerramentos

Tudo que começa precisa de fim. Inícios e términos formam uma unidade indivisível e constante na natureza. Não colocar um fim em algo que foi iniciado é promover o caos, é não permitir que haja outro início, é suspender o movimento da vida. Algo que se recusa a terminar impede o começo do que deve vir depois.

Que tal um exemplo? Podemos escolher um.

Suponhamos que você seja um homem e tenha convidado uma mulher para jantar com fins românticos. Se você a convidou, não deixe a frase no ar como algo que foi dito sem querer, materialize o convite e jante com ela ou diga que reencontrou uma ex-namorada e que decidiram voltar ou diga que prefere ser apenas amigo dela (a mais comum das desculpas educadas para cair fora) ou diga que precisa mudar o dia do jantar ou diga que decidiu ficar sozinho… mas diga alguma coisa! Um convite feito precisa de encerramento!

Se foi ela quem te convidou para jantar (ou para seja lá o que for), aceite e vá com ela ou diga que você estará com sua ex-namorada com quem você acabou de reatar ou diga que é melhor vocês serem amigos (e viva a delicadeza) ou diga que é necessário mudar o dia do encontro ou diga que você resolveu ficar sozinho… mas diga alguma coisa! Encerre o convite!

Um encerramento bem feito, com elegância e clareza, promove outros recomeços, abre outras estradas, tempera convites diferentes, mais de acordo com o que você deseja daquela pessoa.

Um não encerramento, um silêncio inconclusivo, arrastado, dúbio, deixa no outro um troço nada agradável chamado mágoa. E a mágoa é como um cãozinho esperto: você pode abandoná-lo bem longe de casa, em outra cidade até, mas ele volta, ele sempre te acha.

Ah, o confronto: ninguém gosta de confrontos. É verdade. Mas para isso existem mil formas de comunicação virtual e até mesmo os bilhetes deixados nas portarias do mundo. Bastam alguns minutos e um naco de comunicação. Nem entro aqui no fator gentileza: sugiro o mínimo do básico. Duas ou três palavras ao menos: encerre de alguma forma, mas encerre! Faça do jeito educado ou seco, mas faça!

Há quem não encerre nada a fim de conservar algumas opções ao alcance da mão para os momentos de estiagem. Há homens e mulheres que mantêm seres humanos à espera da sua fome como frutas variadas numa fruteira. Mesmo que tal atitude seja recíproca – e o melhor é que ela seja –, respostas aos convites feitos continuam sendo fundamentais.

Não encerrar algo que foi começado é prender a pessoa e matá-la de fome. Percebe que é muito mais dolorido do que um corte súbito? É cruel não responder, é vil não encerrar, é maldade ignorar. Por favor, encerre o que foi começado. Do mesmo modo que eu encerro agora esta crônica: com um claríssimo e definitivo ponto final.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.