O pulo do gato da relação a dois

Quando decidiram morar juntos, ambos tiveram medo.  O medo é uma terra vasta em que cabe tudo: barata, ficar sem emprego, altura, palhaço, gato, trem, touro, mouro, espírito, perder a memória, ficar doente, boca de lobo, farol apagado, mar, tempestade, túnel, presunto pata negra, ganso, parede verde de hospital, hotel antigo, gongo, grito do pai, silêncio do pai, giz rasgando a lousa, elevador, boneco de Olinda, caverna, escola vazia, abandono, etc., etc., etc. Por isso, quando dividiram a primeira refeição na casa nova, ele se encontrou com os medos dele e ela com os dela. Para conviver seria preciso, portanto, um tacho a mais de compreensão.

Depois dos 30 (e, às vezes, bem antes disso) nós somos como campos minados. Cada experiência mal sucedida, cada desejo romântico frustrado, cada amante que vai embora deixa uma quantidade maior ou menor de bombas enterradas em nós. Quando o novo amor se aproxima, inconsciente dessas minas cuja potência varia ao infinito, ele pode sem querer pisar numa ou em várias delas. Essas minas, quando pressionadas, sempre explodem: por dentro ou por fora.

Por exemplo, um ex dela tinha o hábito de gritar à menor contrariedade. Hoje, se o novo companheiro levantar a voz, talvez apenas para pedir uma toalha ao sair do banho, uma mina vai explodir dentro dessa mulher, seus cabelos da nuca vão se arrepiar, uma dor sutil beliscará seu estômago e ela precisará de inteligência e boa vontade para compreender que as situações não são as mesmas. Mas ela não pode fazer esse trabalho terapêutico sozinha: ele também a ajudará, acostumando-a aos poucos, gentilmente, com eventuais gritos felizes de quem chama alguém distante para a brincadeira da vida. Ainda assim, resta uma questão: e se as situações forem iguais? Se essa mulher escolheu um novo companheiro com os mesmos defeitos do anterior? E se esse homem também grita por qualquer coisa como uma gralha neurastênica? Bem, nesse caso não é uma relação nova: é a mesma, com outro ator.

É fato: pisaremos nas minas terrestres uns dos outros, haverá explosões e estilhaços, mas o que quer que aconteça entre um casal resultará da intenção de acertar – e ter consciência disso é o pulo do gato da vida a dois. Quando se ama, os erros são inocentes. Não foi por mal que ele esqueceu o aniversário dela, não foi de propósito que ela pôs alvejante nas toalhas pretas. Psicanalistas dirão que não é bem assim, que há muitos atos falhos expondo o estofo dos nossos desejos, mas até Freud compreendeu que às vezes um charuto é apenas um charuto.

A priori, no amor tudo é feito com um bom propósito, até os erros. Claro, há exceções e elas ficam por conta de quem está vivendo uma relação abusiva (ou eu deveria dizer, quem está morrendo numa relação abusiva). Nesse tipo de envolvimento há dois responsáveis, mas só um culpado: só uma das partes fere com o intuito de ferir. Em todos os outros casos, porém, é um alívio e uma alegria saber que o outro errou com boa intenção, saber que basta uma conversa tranquila para que o terreno em que aquela mina explodiu seja limpo, aplainado, arado, fertilizado, florido. Desse modo, onde antes havia bombas e destroços, surgirá um jardim necessária e deliciosamente cultivado a quatro mãos.