O que ela tem que eu não tenho?

Quando a nova namorada dele sentou bem ao meu lado no salão de beleza, eu me senti humilhada. O que ela tem que eu não tenho?

Ela nunca soube da minha existência. Está aí uma vantagem em não postar nada nos perfis pessoais da internet: ninguém sabe com quem eu fico ou deixo de ficar, em contrapartida eu vejo o que acontece na vida de quem me interessa. E ele me interessa. Por isso sei quem é ela e ela não sabe quem fui eu. Essa criatura conquistou em tempo recorde o posto de namorada que por um ano eu desejei. O que ela tem que eu não tenho?

Eu o convidei para ir ao cinema, o convidei para jantar, o convidei para ir ao parque, a shows, exposições, palestras… e nada. Ele só me encontrava para transar. O que ela tem que eu não tenho?

Para que ele saísse comigo (ou melhor, entrasse em mim), havia um roteiro que eu deveria encenar. Desde que já houvesse passado um mês do nosso último encontro, eu inventava alguma frase para iniciar a conversa, repetia uma dança de lugares-comuns e, por fim, perguntava se ele queria passar a noite comigo. Nunca foi fácil, nunca foi mais do que uma vez por mês e ele nunca realmente passou a noite comigo. Dormir era intimidade demais. Quando os passarinhos começavam a cantar, ele se vestia para ir embora. O que ela tem que eu não tenho?

Levei um susto quando vi as fotos do romance na internet. Ele nunca tirou uma foto comigo. De mim, já. Comigo nunca. Na tela estampavam-se para o mundo mais do que fotos: havia comentários de amigos, primos, sogra. Aquilo era namoro! A fim de ter uma confirmação positiva dos seus lábios, encenei a tal conversa mensal como se não suspeitasse de nada e, após a dança de sempre, quando o convidei a me ver, ele disse que adoraria, mas estava namorando. O que ela tem que eu não tenho?

Decidi ouvi-la. Fingi que prestava atenção na TV e fiquei ali, recolhendo dados a fim de matar minha dúvida: o que ela tem que eu não tenho?

Foi um suplício, mas até conversei com ela. Ao fim de quarenta minutos em que fizemos as unhas lado a lado, encontrei as respostas.

O que ela tem que eu não tenho? Burrice.

O que ela tem que eu não tenho?  Vulgaridade.

O que ela tem que eu não tenho? Arrogância.

O que ela tem que eu não tenho?  Tagarelice. Tagarelice. Tagarelice.

O que ela tem que eu não tenho? Insensatez.

O que ela tem que eu não tenho? Dependência.

O que ela tem que eu não tenho?  Possessividade.

O que ela tem que eu não tenho? Um homem que definitivamente não me merece.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia