Uma fórmula diferente para o ano novo

Agora você pode parar de fingir. Aqui não é o Facebook ou o Instagram, não é seu escritório, não é a festa de família em que primos se veem apenas uma vez por ano, não são seus amigos sociais: aqui é sua escritora favorita (ao menos, a favorita de hoje) e comigo você pode respirar.

Escritores, quando têm alguma decência, fazem isso: através do seu trabalho, ficcional ou não, descerram a realidade, te aproximam dela, te aproximam de você, às vezes suavemente, às vezes num susto.

A crônica de hoje é para quem está preso num sarcófago que o isola de si mesmo e, por consequência, da vida abundante que existe, dentro e fora. Em medidas diferentes, todos nós estamos nesse sarcófago, uns mais, outros menos. Portanto, repito: aqui você pode parar de fingir.

E, para isso, eu tenho uma fórmula de presente. Sim, uma fórmula, uma simpatia, uma provocação, chame-a como quiser. Vamos lá?

Você vai baixar, alugar, emprestar ou comprar a trilogia de “O Poderoso Chefão”. É fundamental que você veja os três filmes em sequencia e em silêncio. Se puder fazer isso de madrugada e sem ninguém por perto, melhor ainda.

É provável que você já tenha visto um ou todos os filmes, mas dessa vez você os assistirá com um olhar diferente: você irá prestar atenção não nos crimes, não na brutalidade, não nas traições, você irá ver apenas a contenção de Michael Corleone. Sua brutal contenção. E vai perceber que todos nós, em medidas diferentes, somos como ele, o homem que dois minutos antes de sofrer um infarto (na verdade é uma crise de diabetes, mas parece um infarto) sussurra ao seu sobrinho: “Nunca deixe ninguém saber o que você está pensando”. Pois é. Estamos todos fazendo um ótimo trabalho, não? Estamos seguindo as lições do mafioso: ninguém sabe o que pensamos. Nem nós mesmos.

No silêncio que desperta, você chegará ao fim da trilogia. Chegará até o momento em que Michael Corleone, com um acúmulo de dores graúdas (dores engendradas por ele mesmo), finalmente, dá um grito. Um único, absoluto e profundo grito de desespero.

Tome fôlego e grite como ele. Grite, escreva, fale, se ajoelhe, ligue, aceite, vá, volte, peça, impeça, implore, diga, procure, perdoe, ouse se abrir…  Talvez do outro lado haja alguém esperando por esse seu grito para gritar também e, a partir daí, construir uma nova tessitura nas relações do dia a dia. De alguma forma, grite! Por favor, não espere tanto quanto Michael Corleone.