Quem é você na travessia do lago?

Quem é você na travessia do lago na Quinta da Regaleira? Será inevitável que você descubra. Do que eu estou falando afinal? Calma, eu explico. Após explicar, porém, quero que você me dê a resposta mais sincera que seu ego permitir. Temos um acordo?

Muito bem. Em Sintra, Portugal, existe uma parada turística das mais surpreendentes. Nem vamos chamar de ponto de turismo, pois isso fazem os que não têm olhos de ver: a Quinta da Regaleira é uma experiência. Repito devagar, pois é preciso: a Quinta da Regaleira é uma experiência!

Para vivê-la o mais plenamente possível, recomendo que se escolha a visita guiada, em que profissionais mais do que preparados vestem os nossos passos com uma síntese do conhecimento humano: ciência, filosofia, religião, arquitetura, astronomia, sincretismo, botânica, história, literatura, maçonaria, mitologia, etc.

A Quinta, ideia do brasileiro Antônio Carvalho Monteiro que contratou o arquiteto Luigi Manini, é um complexo de edificações com significados ocultos ao primeiro olhar (e muitas vezes ao segundo também). Temos ali a Gruta da Leda, da Virgem, do Oriente, do Labirinto, o  Palácio, o Portal dos Guardiães, a Fonte da Abundância, a Torre, a Oficina das Artes… e o Poço Iniciático.

Imagine um imenso fosso circular esculpido no meio da rocha, ladeado por uma escada em espiral na qual se desce até o fundo, onde não há água lodosa, mas uma rosa dos ventos. Após chegar ao fundo do poço (um símbolo para a morte, ou melhor, para o esgotamento absoluto de uma situação), seguimos por um túnel até o lago. E para atravessar esse lago é preciso andar sobre as águas. Como? Através de um caminho de pedras estrategicamente colocadas: ao pisar nas primeiras você apoia as mãos na parede da gruta, depois é por sua própria conta, risco e equilíbrio. Ali temos o desafio que, uma vez vencido, leva ao renascimento, a um novo começo. (Importante dizer que caso você não se sinta seguro é possível fazer outro caminho, basta avisar o guia.).

E lá estava eu, após o fim do poço da morte, após o túnel do purgatório, olhando para o Lago do renascimento. Equilíbrio físico não é minha mais sólida característica: eu já torci os tornozelos tantas vezes que perdi as contas, fraturas também foram várias. Ainda assim, eu decidi atravessar o lago através das pedras. São poucas, não deve ser tão difícil, pensei. Vamos lá! Primeira, segunda, terceira, tudo bem, segui apoiada na parede da gruta. Nas últimas pedras porém, sem qualquer apoio ao redor, eu me desequilibrei. O frio era enregelante e úmido. Uma onda de adrenalina esquentou meu corpo, especialmente o peito e o rosto. Nesse momento, em vez de parar numa das pedras e recuperar o equilíbrio, mesmo que de forma precária, pois elas são pequenas, eu fiz o contrário: acelerei de modo a chegar o mais rápido possível do outro lado.

Todos os passos incertos que dei sobre essas pedras gritaram que eu estava prestes a cair no lago gelado – e me molhar, nessa situação, seria o menos pior que poderia me acontecer. Foi então que, naqueles poucos segundos na saída do Poço Iniciático, eu descobri quem sou, ou melhor dizendo, descobri uma parte insuspeita de quem eu sou. Sou uma criatura imprudente que, diante do perigo, se deixa dominar pelo desespero e toma decisões temerárias. Exagero? Nem um pouco. Com os tornozelos incertos que eu sei que tenho, não seria melhor pedir ao guia que me mostrasse o outro caminho? Minha experiência na Quinta da Regaleira seria menos impactante e lisérgica por conta disso? (Sim, aquele é um lugar lisérgico). Claro que não. Todavia, quando uma encruzilhada se apresentou, eu escolhi a impulsividade adolescente e o desespero do improviso incerto.

O fato de não ter caído não tornou a experiência um sucesso porque eu realmente quase caí. Eu, que me julgava prudente, fiquei surpresa com o que o espelho dessa experiência me mostrou.  Agora me diga: e você? Não é preciso estar aqui em Sintra para pensar nessa resposta. Quem você é na travessia do lago na Quinta da Regaleira?