E se no primeiro encontro você soubesse tudo que será dito no fim da relação?

Tenho uma proposta a fazer. Ela é simples: eu proponho que as verdades que nos são ditas no encerramento de um caso de amor sejam reveladas não no último, mas no primeiro encontro. Imagine: tudo que você ouviu ao levar um fora, tudo que esse homem já sabia que iria dizer (ou silenciar), você ouviria ao ser apresentada a ele. Isso iria revolucionar os relacionamentos românticos! Use a memória para revisitar suas últimas relações e faça o teste agora.

Após conversarem num aplicativo de paquera, vocês marcam de se encontrar num restaurante e antes da sobremesa ele te diria: “Eu não consigo me conectar emocionalmente a ninguém”.

Na porta do café, antes mesmo de fechar o guarda-chuva, ele diria: “O problema não é você, sou eu”.

Vocês estão provando quitutes numa feira gastronômica e, antes de pegar na sua mão, ele diria: “Eu não esqueci minha ex”.

Numa festinha na casa de amigos, ele puxaria conversa com você e então… ficaria em silêncio de repente, como um rádio cuja pilha acabou. E não importa o que você dissesse, ele continuaria, a partir daí, sem responder mais nada.

Ao fim de uma palestra, antes de vocês trocarem cartões, ele diria: “Eu não estou pronto para me relacionar. Seria tão bom se você tivesse chegado em outra hora na minha vida”.

Frases desse tipo encerram conceitos que esses homens já sabiam sobre si mesmos quando nos conheceram, mas que convenientemente optaram por nos ocultar. Portanto, para diminuir o número de mortas e feridas, de cicatrizes e sequelas, de aleijões e demências emocionais, eu proponho que eles nos digam tais verdades logo no início. Não seria ótimo? Eu sei, é uma utopia.

Eu continuo me surpreendendo com o quanto os homens malbarateiam as palavras. Eles sabem que nós acreditamos nelas, eles sabem que para nós palavras têm cor, peso, cheiro, densidade, tessitura, elas são verdade! E se você violenta o código estruturante da vida que é a palavra, você é capaz de violentar tudo mais.

Há quem peça desculpas dizendo que no instante em que fez essa ou aquela promessa ela era real. Porém, assim que as coisas mudam – e certamente elas podem mudar – é preciso informar a sua parceira de jogo romântico. Isso é o que uma pessoa com um mínimo de empatia, que é capacidade de se colocar no lugar do outro, faz. Quando as regras mudam, ela avisa. E é muito simples fazer isso, nem precisa de olho no olho: basta uma mensagem. O que não pode é deixar a pessoa no silêncio, no vácuo, porque no vácuo continuam valendo as declarações que foram feitas – e até essas declarações morrerem de velhice, outras coisas preciosas morrerão antes, morrerão junto.

Talvez alguns homens argumentem dizendo que não são tão bons com as palavras como nós, mulheres. Ora, que modéstia! Vocês são tão criativos, tão pródigos, tão insistentes quando estão interessados em nós, por que sofrem esse déficit intelectual quando não nos querem mais? Por que a capacidade discursiva desaparece quando vocês precisam ser corretos, justos, humanos?

O mínimo que um homem deve a uma mulher que se abriu para ele é a clareza. As palavras são o instrumento da clareza – como também o são da tortura. Como ele as usa com você, antes, durante e depois, define quem ele é.