O modo como um casal viaja é o modo como ele vive (alteridade).

Alteridade. O que essa palavra tem a ver com uma boa relação romântica? Tudo!

Como exemplo, conto a conversa que tive com um amigo outro dia. Caíque me pediu conselhos sobre seu noivado – e para aconselhar é preciso antes ouvir, não é? Estamos tão viciados em responder, em ter certezas, em expor nossa opinião (como se ela fosse relevante – e muitas vezes não é), que nos esquecemos de escutar, de silenciar, de refletir. Não ouvimos a música até o fim, não lemos o texto todo, não vemos o vídeo inteiro, mesmo assim, em três segundos temos uma opinião sobre o que quer que seja. Leviano? No mínimo.

Mas voltemos ao meu amigo e suas aflições. Caíque e Amanda moram juntos há três anos e planejam o casamento para breve, no entanto um detalhe nada insignificante tem tirado seu sono: o desejo sexual da noiva, ou melhor, a ausência dele.

– Ah, Stella, você escreve sobre essas coisas: me diz, o que eu faço para ela voltar a ser como era?

– Hum. O que você fazia antes que não faz mais?

– Eu? Nada! Ela é que não faz mais um monte de coisas.

– Por exemplo?

– Ah, ela não viaja mais comigo. A gente fazia umas sete ou oito viagens por ano e agora ela não me acompanha mais.

– E como eram essas viagens?

– Trilhas, né. Eu faço trilhas de bike, 30, 60, 80 quilômetros, eu faço parte de um grupo que gosta de pedalar junto. E a Amanda me acompanhava.

– Ela gosta de pedalar?

– Não muito, mas é tranquilo ir comigo porque eu não exijo que ela pedale, sabe? Eu só peço para ela ir margeando o grupo, de carro, bem confortável.

– Sei. E quando é que vocês se encontravam?

– A gente se via a noite, quando chegava num posto de parada. Aí a gente jantava, descansava, ela me fazia uma massagem, era supergostoso.

– Gostoso pra quem, Caíque?

– Ô, também não é assim. Se ela não quisesse me acompanhar, era só ficar se distraindo na cidade mais próxima, numa boa.

– Meu amigo, passear sozinha numa cidade que você não escolheu não é romântico, fazer massagem num namorado exausto e sem tempo pra você não é romântico, ficar acompanhando um grupo de ciclistas como um apêndice, como uma ambulância, como um carro de apoio é zero romântico.

– Mas são sempre passeios legais!

– São legais pra você, não para ela!

Alteridade: natureza ou condição do que é outro. Parece óbvia a informação que seu par romântico é outra pessoa, não? No entanto o que mais se vê por aí são pessoas se relacionando com projeções de si mesmas, como meu amigo. Viajar com seu amor não é incluí-lo no roteiro que você já pretendia fazer: é compor um caminho a dois, em que ambos possam escolher o destino e os passeios, até mesmo alguns individuais se for o caso. No fim das contas o modo como um casal viaja é também o modo como ele, o casal, vive: com consciência da alteridade ou no lodo do egoísmo e da projeção.