50 tons de cinza: o segredo real de seu sucesso

Os anos passam e a dúvida permanece: como explicar o sucesso da franquia de 50 Tons de Cinza? Será por conta do sexo abundante, dos chicotes e algemas, da virgindade de Anastasia ou do dinheiro de Grey? Não, isso é só purpurina. O segredo real é algo muito diferente e subterrâneo.

Mas antes tenho uma pergunta: por que a autora, cujo nome verdadeiro é Erika Mitchell, criou o pseudônimo E.L. James? Por que J.K. Rowling também usa iniciais? Será que um nome neutro, que pode ser o de um homem, inspira mais respeito no mercado? Fica a reflexão.

A gente já sabe que 50 Tons de Cinza é uma fanfic da saga Crepúsculo (fanfic é ficção escrita por fã, tendo como base sua história preferida). Portanto Anastasia Steele é a jovem Bella e Christian Grey é o vampiro Edward, numa versão adulta e humana. Mas e Jacob, o lobisomem? Quem é ele em 50 Tons de Cinza? Ninguém, ele não existe. A autora excluiu de sua fanfic o único personagem que representa, em Crepúsculo, o amor real, o amor possível. O lobisomem é também humano, possui calor, pode ter vários filhos naturalmente e criá-los ao lado de Bella, pode envelhecer com ela, ser um companheiro de verdade. Tem lá seus defeitos, como virar lobo de vez em quando, mas na vida também há problemas – vida real que, com o sumiço de Jacob, foi excluída da fórmula de E. L. James.

O que tornou 50 Tons de Cinza um fenômeno foi a realização de um dos mais comuns e intensos desejos femininos: mudar nosso homem. E, de quebra, se tornar a mulher mais especial de sua vida. Até conhecer Anastasia, Christian nunca havia sido fotografado com uma garota, nunca se ouviu falar que tenha namorado, jamais havia dormido de conchinha com alguém, não levara moça alguma para jantar na casa dos pais e só tocava numa mulher depois de ambos assinarem um contrato. A jovem aparentemente ingênua faz Grey mudar todos esses hábitos.

Dizer que Anastasia é submissa é ver apenas as aparências: aquela moça tem a personalidade de uma dominatrix, com o disfarce da voz mansa e dos olhinhos baixos. Ela é muito inteligente, tem paciência e sabe manipular a seu favor as circunstâncias. Se você duvida, se lembre da cena em que ela leva uma surra de Grey e vai embora dizendo que aquilo ultrapassou seus limites. Quando ele vai atrás dela no elevador, o que ela faz? Chora? Se joga em seus braços? Implora que ele pare com aquilo? Diz que o ama? Não. Ela estende a mão como um guarda de trânsito e grita: pare! E ele para. Quem domina quem?

Anastasia Steele realiza a fantasia de todas nós. Você sai com aquele cafajeste, aquele chato, aquele mandão, aquele golpista, aquele vagabundo, aquele violento, aquele mentiroso, aquele alcoolista, aquele irresponsável, aquele abusador e acredita que o seu amor vai mudá-lo. Mas os homens da vida real, por mais que desejemos isso, não são moldáveis como Christian Grey.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.