Amores difíceis

Acabo de topar com uma das mais assustadoras realidades do mundo romântico. Sempre que a vejo se imiscuir entre meus amigos de forma tão acachapante meu queixo cai. Que realidade é essa? Explico.

Quando uma pessoa é sua loucura de estimação, ela pode fazer e dizer rigorosamente tudo que quiser que você vai aceitar e ainda ficar feliz por ela te brindar com alguma atenção. Ela pode te trair, pode rir da sua libido, questionar sua maturidade, implicar com sua mãe ou sua filha, ver defeito em tudo que você faz (inclusive em tudo que você faz por ela), pode transformar sua vida numa corrida de obstáculos que, ainda assim, você continuará com ela.

No caminho de um romance, posso compreender uma ou outra dificuldade, uma parada nos boxes, um instante de dúvida, um acerto de peças que desencaixam. Mas eu não me refiro a movimentos compreensíveis dentro de um relacionamento romântico vivo. Eu falo de humilhação, senhoras e senhores, eu falo de gente que se entrega a encrencas consumadas – e permanece com elas, mesmo sob as condições mais absurdas.

Aqui está, bebericando café na minha sala, uma amiga a desenrolar o novelo infinito da saga com sua loucura de estimação: um novelo sem ponta, destinado a um eterno retorno ao caos. Eu já vi esse filme: agora ela está babando felicidade pela noite de ontem. E vai continuar babando até levar a próxima invertida. Então ela irá percorrer algumas semanas de dor, lamber o soalho em que ele cuspiu, aceitar as migalhas que ele lhe jogar, pedir desculpas pelo que disse e pelo que talvez tenha deixado de dizer. Finalmente, ela entrará numa espera aflita pela próxima noite de arrebatamento. Antes que essa noite chegue, haverá brigas, frases humilhantes, silêncios ruins.

Eu não acredito em amores difíceis. Luta e amor, para mim, são palavras que não deveriam estar na mesma frase. Se a luta é causada pelo meu parceiro, se ela não é externa e involuntária, eu a repudio. Meu amor não é incondicional e penso que o de nenhuma mulher por nenhum homem deveria ser, o de nenhum ser humano por outro ser humano deveria ser. Se o amor do outro (ou o que ele chama de amor) te fere, te destroça, te humilha, está claro que um limite foi ultrapassado. E tem, sempre, de haver um limite.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela egaláxia.