Como usar a palavra “literalmente” de modo correto

De tempos em tempos, algum vício de linguagem, erro de português ou uma invenção inútil se espalha pelo Brasil como fogo em campo ressequido.

Recentemente tivemos a ditadura do “a nível de” e o despropósito do “vou estar fazendo”. Agora estamos mergulhados até o pescoço no uso equivocado do “literalmente”.

Curioso que essas formas esdrúxulas tenham se popularizado pela mesma razão: vaidade. Um ortopedista acha mais imponente dizer “o atleta não tem nenhuma lesão a nível de joelho” do que simplificar “ele não tem lesão no joelho”. A operadora de telemarketing acha mais chique dizer “vou estar transferindo sua ligação” em vez de um simples e correto “vou transferir sua ligação”. Numa tentativa de parecer mais culto, todo mundo se tornou mais estúpido.

Já o “literalmente” não me parece fruto de vaidade: é apenas um engano. Literalmente significa ao pé da letra. Ele não é sinônimo de realmente, não confere ênfase a uma ideia e não pode ser usado como uma espécie de exclamação. Mais fácil dar exemplos, não é?

“Ele saiu literalmente do armário!”. Para alguém sair literalmente do armário, ele precisaria estar dentro de um armário de verdade, abrir a porta (supondo que a porta abra por dentro), colocar um pé para fora, depois outro e sair com seu corpinho inteiro do tal armário.

“Eu estou literalmente morta de cansaço!”. E como é que você está falando?  Chamaram um médium?

“Eu viajei literalmente na maionese!”. Não, não viajou. Nem chefe de cozinha viaja literalmente na maionese – a não ser que o apelido do carro dele ou dela seja maionese. Você conseguiria confeccionar uma moto, uma carroça, um riquixá que seja de maionese para viajar nele?

“Esse homem me deixou literalmente louca!”. Opa, essa pessoa precisa correr ao psiquiatra para internação de emergência – e dá-lhe benzodiazepínicos e outros que tais na veia!

“Ele literalmente faz milagres!”. Estamos falando de Jesus Cristo?

“Essa menina é literalmente um doce!”. “Menina” é a marca de um biscoito de chocolate? De um doce de caramelo? De uma bala de mel? Não? Então a menina não é literalmente um doce.

“Ele literalmente roubou meu coração”. Gente, como essa criatura está andando por aí sem coração? Chama o SAMU, isso é caso para transplante urgente!

“Nossa, isso é literalmente um mico!”. Se estivermos no zoológico, na Mata Atlântica, na Amazônia, em Bonito diante de um macaco pequenino, tudo bem. Caso contrário…

“Minha namorada me leva na coleira literalmente!”. Rapaz, sua namorada é dominatrix? E te leva aonde te puxando pela coleira?

“Você tem de pensar literalmente fora da caixinha”.  Que caixinha, cara-pálida? Só se for a craniana! A única maneira de seguir esse conselho é ser um zumbi com os miolos de fora.

“Caí literalmente na folia!”. Levou um tombo no baile de carnaval? Que dó.

“O sorriso dela literalmente aquece meu peito!”. Como? Ela esquenta os dentes com bolsa térmica e encosta no seu peito a boca escancarada?

Portanto, fica a dica: se você estiver saindo com um homem e ele, à beira da cama, disser “quero te comer literalmente”, torça para que ele seja apenas um dos muitos que fazem confusão com o termo, e não um confrade do doutor Hannibal Lecter.