No amor e no sexo, você sabe receber?

Você compra as comidinhas preferidas do seu homem, troca os lençóis e as toalhas, encomenda o livro que ele estava procurando, marca o retorno dele no cardiologista, encontra um encanador para consertar o vazamento no escritório, escolhe dois filmes e uma série na Netflix para rechear o fim de semana, veste aquela calcinha que o excita e acende o incenso que ele aprecia. Embora esteja tudo aparentemente bem, algo não se encaixa. Você compensa esse estranhamento postando fotos românticas nas redes sociais: a cada like você tenta afogar aquela sensação ruim, no entanto, como grãos de areia escorrendo inexoravelmente por uma ampulheta, ela se torna cada vez mais incômoda. O desencaixe passa a desassossego que se transforma em irritação e por fim em desespero. Então, um dia (em mais um desses dias comuns nos quais você tão bem se amordaça), seu homem diz que está indo embora – e você, como a vítima que supõe ser, rebenta de dor.

O que ele fez de errado ou deixou de fazer não me importa, eu não estou falando com ele – estou falando com você e é pra você que eu proponho uma reflexão: será que, sem perceber, com a melhor das intenções, você não acabou sabotando seu relacionamento? E pior: se sobrecarregando no processo?

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Sim, é sabotagem se tornar mãe do seu homem – ele é perfeitamente capaz de marcar suas próprias consultas médicas, encontrar encanadores, compras seus livros e cuecas. Boicote claríssimo é dar, dar, dar sem deixar espaço para receber, sem ensinar o outro a te dar também. Ele não se sentia mais capaz de te ajudar em nada, não se via como gerador de novas experiências, parceiro nas dificuldades, amante de arroubos não programados, necessário. Diante de uma mulher que dá tudo e que não parecia precisar de nada, ele se sentiu impotente como uma criança, como um filho – e filhos sempre vão embora.

Quando alguém te dá uma colherada de creme de avelã e você fecha a boca, trinca os dentes, faz que não com a cabeça, ele não te oferece mais. No entanto, se você sorrir, botar a língua ansiosa para fora, comer tudo, beijá-lo toda melada de alegria, ele perceberá quão prazeroso é dar – e, sobretudo, o quanto você está aberta para receber.

Portanto, quando um novo amor chegar (porque todo deserto tem borda, fronteira, fim), elimine dois hábitos perniciosos da sua vida (aliás, elimine-os já): rejeição aos elogios e a triste frase “não precisa”.

Quando ele propuser cruzar a cidade para te pegar em casa em vez de vocês se encontrarem na porta do teatro, quando ele te oferecer uma massagem ou ajuda para guardar as compras nas prateleiras mais altas não diga “não precisa”, porque a verdade é que precisa, sim, e você adora o carinho dele, sim, e você quer a parceria dele, sim. Que tal aprenda a receber?

E quando ele disser que você está ainda mais linda aquela noite, que ele adora conversar com você, que você é a mulher mais gostosa do universo, nem pense em responder com os olhinhos baixos “imagina” ou “que é isso” ou ainda “ah, exagerado”. Simplesmente receba! Se refestele nos elogios, se lambuze neles, ensine-o que palavras como essas acendem o seu corpo. Mais tarde, quando ele fizer um longo sexo oral em você, não fique ansiosa para retribuir: relaxe e permita que ele tenha prazer em te dar prazer.

O meu desejo é que a partir de agora, no amor e no sexo, você receba tudo, tudo o que merece – sem culpa e sem sabotagem.