Prece (do livro “Loucura de Estimação”)

 

Senhor, daqui do fundo onde estou, nesse abismo onde só as migalhas chegam, migalhas sobre as quais me lanço como um chacal enlouquecido, eu, que já estou de joelhos, uso um resto de lucidez para chorar esta prece.

Pai, me impeça de me alimentar dos restos dos banquetes que não foram feitos em minha homenagem.

Não permita que eu esfregue minha língua no musgo amargo que cresce na soleira da porta dele.

Endureça meus joelhos, para que eu não me curve até lamber o chão em que ele pisa.

Rompa meus tímpanos, para que eu não me agarre a essa ou àquela palavra banal e a transforme em declaração de amor na minha alma faminta. Se eu ouvir qualquer coisa, Pai, eu vou acreditar que é amor, então, por misericórdia, me ensurdeça.

Quebra meus dentes para que eu não seja capaz de roer as paredes nas quais as mãos dele descansaram distraídas.

Me ensina a parar de rastejar, Senhor, a parar de me adaptar ao inaceitável, a parar de sorrir enquanto o punhal se acolchoa na minha carne.

Levanta meus olhos para além da existência desse homem-prisão.

Quando ele me der pouco, quando ele me olhar com pena, quando ele se mostrar evasivo, quando ele for violento, quando ele me espancar com seu silêncio, com suas palavras, com suas mãos, me ampare, me fortaleça, me ajude, Pai, de uma vez por todas, a ir embora.

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