Assédio: a cultura da insistência

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“Não seja uma mulher fácil, minha filha!” Nós crescemos ouvindo isso. E, como boas meninas, obedecemos. Nos tornamos tão difíceis, mas tão difíceis, que nos perdemos até do nosso próprio desejo. E ainda sedimentamos nos homens, sem querer, a ideia de que eles precisam insistir para nos conquistar.

Essa cultura da insistência é um dos elementos que fazem com que alguns homens não respeitem o nosso “não” e confundam assédio com paquera. Qual a diferença entre eles? Simples: o consentimento. Quem respeita o “não” de uma mulher jamais será um assediador.

Atenção: exceções lamentáveis e criminosas como haver uma parcela ínfima que denuncia falsos crimes ou de algumas mulheres também assediarem ou, ainda, de existirem homens que são vítimas desse constrangimento, nada disso pode ser usado como tática para minimizar e desqualificar a realidade: a maioria esmagadora de assédios que destroem carreiras, relacionamentos e vidas são feitos por homens tendo mulheres como alvo. Portanto dizer “ah, mas tem mulher que inventa assédio pra prejudicar o cara” ou então “ah, mas homens também são assediados” não é defesa e é vergonhoso tentar usá-las como tal.

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Eu insisto na questão porque tudo se resume a isso: não haveria dúvida sobre o que é paquera e o que é assédio se o “não” das mulheres fosse respeitado. O desejo é livre e sempre será: ele não está sob ataque. Quando é recíproco pode se tornar concretização de prazer; já forçar a pessoa a realizar seu desejo contra a vontade dela é crime. Assédio e paquera não se parecem em nada!

Os homens, porém, se perguntam: como saber quando ela diz realmente “não” ou quando está apenas fazendo charme para supostamente se valorizar porque assim lhe foi ensinado? Um “não” constrangido é bem diferente de um “não” mimoso e coquete, mas aqui vai uma dica útil: insista, no máximo, uma vez.

Ouvi outro dia um conhecido dizer: “Se eu não tivesse insistido muito não teria me casado com minha mulher”. Teria, sim. Sua esposa deve ter sido criada com os valores que tão bem conhecemos e que precisamos mudar para as próximas gerações serem mais felizes. No entanto, se você tivesse insistido apenas uma vez e depois seguido com sua vida, ela daria um jeito de te mostrar que gostaria de receber um novo convite. E se ela, diante da interrupção da sua insistência, desistisse de você, restaria uma questão a ser feita: vale a pena se casar com alguém cujos preconceitos sufocam o amor? Com uma pessoa que é tão vaidosa a ponto de exigir que o homem rasteje vinte quilômetros esfregando a cara no asfalto por ela? Eu acho que não.

Agora é hora de nós, mulheres, fazermos a nossa parte. Além de denunciar os agressores (desde que a vítima tenha estofo emocional para isso – e deve-se respeitar o fato de que nem sempre ela tem) é preciso acabar com essa atitude de fazer-se de difícil, de esconder nosso desejo, de fazer jogo, de manter a cultura da insistência ativa. É válido dar um tempo para conhecer o outro? É bom querer saber onde se está pisando? É útil se certificar de que a experiência não será uma fria completa? Sem dúvida! O que não é válido, nem bom, nem útil é podar nosso desejo em nome da regra “não seja uma mulher fácil” e, involuntariamente, acabar fornecendo munição para assediadores e estupradores se justificarem. A tarefa é longa, mas nós já a começamos. Afinal, #timesup!

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