Escrever é um acerto de contas

 

Os escolhidos, nos filmes, sempre cumprem seu destino: Frodo leva o anel até Mordor, Neo ganha uma moratória para Zion e reinventa Matrix. Mas você não é Neo nem Frodo: você era o meu escolhido e me abandonou. Você é como Anakin, aquele que se corrompe e termina por se esconder atrás do ridículo escafandro de Darth Vader. Você é um engano respirando com a ajuda de aparelhos. E como Obi Wan grita em seu desespero e frustração, eu grito também:

– Você era o escolhido!

Você me ligou e desligou como um sabre de luz num dia de pouca luta. E agora? Agora eu morro? Sim, você espera que eu siga o script até a última página. Saída discreta pela esquerda, quase uma personagem incidental. Só tem um problema: eu me recuso. Até aqui você ditou as regras, agora mando eu.

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Compreenda quem eu sou: eu sou uma escritora. Compreenda o que escritores fazem: escritores escrevem. Compreenda como escritores escrevem: através da ficção, nós acertamos as contas com a realidade. É isso que nós fazemos. E, apesar de você não ter me dado quase nada, desse quase nada eu posso fazer uma crônica, um livro, uma saga ou um poema num guardanapo de papel. Eu posso fazer de você qualquer coisa que eu quiser.

Você não me amou, certo? Certo. Nada além de um incômodo para você e uma ferida para mim, tão igual a milhares de outros incômodos e feridas que infestam o mundo. Mas quando eu escrevo que você não me amou eu dou a essa ocorrência precária uma beleza que será só dela, eu permito que esse pouco e insuficiente amor saboreie alguma eternidade, ganhe um corpo, uma razão de ser, uma vida que valha a pena.

Mesmo que eu escreva dezenas de versões sobre a mesma ocorrência precária, ainda outras dezenas diferentes poderiam ser escritas. E, no instante seguinte, outras mil. Conter a vida é impossível. Conter a imaginação ainda mais. Escrever, portanto, não é conter ou limitar: é ampliar, é inscrever algo no eterno.

Se a realidade me favoreceu ou não, pouco importa ao meu ofício: quando eu escrevo, eu engravido de significados o que deveria ter sido e não foi. E a literatura é tão generosa que não pede credenciais e provas de bravura, ela a tudo aceita. Ela aceita, veja só, até o seu pouco amor por mim.

Por isso, onde eu deveria morrer, eu vivo. Onde eu deveria me calar, eu falo. Onde eu deveria seguir em frente, eu estanco. Onde eu deveria esquecer, eu lembro. Porque aqui, na ponta dos meus dedos em que dançam essas giletes, ao menos aqui nestas páginas, meu precário amor, você não tem nenhum poder sobre mim.

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