Dois amantes, por Gabriel García Márquez

gabo

Minha estante (e as ranhuras nas lombadas de seus livros) provam: Gabriel García Márquez é um dos meus autores prediletos. Em nome da divulgação de pérolas quase desconhecidas, aqui vai um tesouro publicado pela primeira vez em 06/07/1948, no jornal El Universal, na coluna “Punto y aparte” e reproduzida no livro “Textos Caribenhos, Obra jornalística, Volume I, 1948 a 1952”, páginas 99 e 100, Editora Record, 2006. Com a palavra, o mestre Gabo.

“E pensar que tudo isto estará alguma vez habitado pela morte. Que esta cálida madureza de sua pele, que sobe por meu tato até o abismo do meu desassossego, deva despedaçar-se um dia sobre o seu próprio silêncio desolado. Que esta ordem de coisas naturais, que fazem de você e de mim e da água e dos pássaros, nítidos volumes para a vindima dos sentidos, estará uma tarde afundada na névoa de distantes regiões. Que essa agitação de vozes interiores que sobe por seu sangue, que se aninha em seu ventre como um filho, quando lhe falo de coisas simples, elementares, como estas coisas formidáveis que estou falando, precise estar um dia transferido a outro corpo, quando os nossos conheçam o peso das pedras, e todavia continue sendo verdade o amor. Que essa dor de estar dentro de você, e distante de minha própria substância, há de encontrar alguma vez seu remédio definitivo.

Pensar que alguma vez conheceremos os portos do esquecimento, igual a antes, quando ainda não tinham vindo estes corpos a habitar nossa tristeza. Que os homens terão que se surpreender alguma vez de que todos os pássaros emudeçam de repente, sem saber que é você, e que sou eu, que voltamos a nos encontrar mais além de nossos ossos. Que uma tarde retornarão os bois do arado com as lâminas iluminadas por uma amorosa claridade, e todos acreditarão que há estrelas semeadas, sem saber que é você, e que sou eu, que estamos preparando as sementes.  Que um domingo como este soarão os sinos com bronze estremecido e as crianças perguntarão espantadas quem morreu no domingo, sem saber que é você, e que sou eu, que ainda continuamos morrendo em todas as perguntas.

Pensar que alguma vez as árvores perguntarão a suas raízes quando irão passar os vidros dos nossos olhos para que seja mais clara a luz de suas laranjas. Que a água dos rios nos levará , pó por pó, até o júbilo dos que tiveram sede e a mitigarão com o nosso barro. E cada uma das coisas que amamos continuará sendo bela sem necessidade de que nós a amemos.

E, sobretudo, pensar que este amor nosso tem que morrer, antes que estas coisas passageiras estejam habitadas pela morte.”