Náufrago (no amor e sexo)

naufrago

(Esta crônica faz parte do livro “Os Indecentes”)

Em 1955 o destróier colombiano Caldas emborcou no Caribe e oito tripulantes desapareceram no mar. Apenas um sobreviveu. Luís Alexandre Velasco ficou dez dias numa balsa à deriva, sem água e sem comida, até chegar, semimorto, a uma praia deserta ao norte da Colômbia.

Após ter sido, a contragosto, transformado em herói pela então ditadura militar do país, Velasco ofereceu sua história ao jornal El Espectador. Para escrever seu depoimento, um repórter iniciante foi designado: Gabriel García Márquez, que se tornaria mais tarde um dos maiores escritores do planeta. Por conta dessa matéria, publicada em capítulos, o jornal foi fechado, García Márquez teve de se exilar em Paris e Velasco perdeu o cargo na Marinha e a fama recente. E onde estão o amor e sexo afinal? Estão no último parágrafo: confie em mim.

Peço agora que você pare e entre um instante na pele do náufrago. É quase meio-dia quando o destróier emborca. Velasco se agarra a uma balsa. Três de seus amigos se debatem ao redor. Inutilmente ele tenta salvá-los: em minutos, todos desaparecem.

Sozinho, Velasco acredita que o resgate não demorará. Olhos fixos no horizonte, ele acompanha o pôr-do-sol, a noite escura e o nascer de um novo dia. Aparecem aviões: três ao todo. O último deles esteve tão perto, enquanto Velasco agitava sua camisa no ar, que ele teve certeza de que havia sido visto. Mas não havia. Às cinco da tarde chegam os primeiros tubarões. Brilho de luzes na superfície do mar: apenas um novo nascer do sol. Desespero, fome, sede, dificuldade para respirar, dor, sono, a pele fervendo em bolhas. Outro dia, um navio aparece no horizonte. Velasco rema furiosamente contra o vento, mas o navio se afasta sem vê-lo. No quinto dia, torturado pela fome, Velasco captura com as mãos uma gaivota. No entanto, mesmo há tantos dias sem comer, ele percebe que não é capaz de comer qualquer coisa. Um novo dia, ondas altíssimas. A balsa vira. Velasco nada em agonia, consegue alcançá-la  e se amarra ao estrado com o próprio cinto. A balsa emborca de novo e ele quase se afoga preso debaixo dela. Sorte os tubarões estarem longe naquele momento. No dia seguinte, Velasco come os cartões de papel molhados que tinha no bolso e sente algum conforto. Depois tenta comer nacos do seu cinto e sapatos, mas eles são duros demais. Um grande peixe pula dentro da balsa tentando escapar dos tubarões. Velasco prova apenas dois bocados da carne crua antes que um tubarão o ataque roubando o peixe e engolindo seu remo. Outro dia, alucinações: o acidente se repete minuto a minuto. A água muda de cor e Velasco supõe estar perto da terra. Porém, mais um dia se passa sem que apareça sombra de costa no horizonte. Semi-inconsciente, ele tem certeza de que vai morrer. Nesse instante, vê contornos de coqueiros, mas julga ser apenas delírio. No dia seguinte, porém, os coqueiros estão mais próximos. Velasco decide nadar os 2 quilômetros que o separam da costa. Num esforço sobre-humano, ele se arrasta, com o corpo em carne viva, e chega até uma praia deserta.

Eu pedi que você entrasse na pele de Velasco, mas isso foi um blefe. Você já esta na pele dele. À deriva, sem alimento, sem água, castigada pelo sol, iludida por miragens, rondada por tubarões, com possibilidades de alimento que se mostram intragáveis, com aviões que te sobrevoam, mas não te veem e, ainda assim, você continua sua busca por terra firme. Quando pensa que suas forças se esgotaram, alguma coisa tola, como gaivotas ou a mudança da cor da água, te traz esperança para continuar. A questão é: quanto mais você aguenta viver à deriva?