Acreditar não é crime.

2c6e1641-7c66-4652-960f-9e6e4eaa9b3c

Obs.: crônica publicada no livro “Os Indecentes” de Stella Florence, Ed. Rocco.

O que acontece com uma mulher estuprada? Ela acha que, de alguma forma, foi responsável pela concretização das intenções bestiais daquele homem. Desse modo, na tentativa de encontrar razão para um ato irracional, ela se autoflagela. Por que eu passei por aquela rua? Por que entrei naquela sala? E se eu não estivesse com aquela blusa de renda? E se eu não tivesse entrado no carro dele? Numa total inversão de valores, a culpa passa a ser dela.

Ocorre o mesmo quando, por amor, acreditamos num relacionamento que termina sendo catastrófico. Rosa recebe mais uma intimação e se desespera: ela se separou em 1999 e ainda hoje tenta saldar as dívidas que o ex-marido deixou em seu nome. “Quando eu titubeava em assinar alguma coisa, ele dizia que era meu marido e que eu tinha de confiar nele. Depois da separação, minha mãe perdeu a casa, meu irmão vendeu seu carro, tudo para me ajudar. Como eu pude ser tão burra? Eu tinha de ter desconfiado!”. Não, Rosa, você não tinha. Você até poderia, mas não tinha a obrigação de desconfiar. Mais uma vez, a vítima é responsabilizada. Seu crime? Ter acreditado no homem que se dizia seu marido.

De acordo com esse jeito torto de pensar, um homem pode, por exemplo, ter entrado em sites de relacionamento romântico enquanto estava junto (e bem) com você, pode ter mantido seduções clandestinas debaixo do seu nariz, pode ter deixado em suas costas dívidas que não te pertencem, e ainda assim quem anda curvada pela rua é você por ter acreditado nele? A culpa agora é sua?

Não, amiga leitora: levante a cabeça já! Você não tem nada, rigorosamente nada, do que se envergonhar. Verdade que, além de lidar com cobranças internas, ainda há os outros que te acusam de ter sido ingênua ou burra. E desde quando ingenuidade é pecado? Desde quando até mesmo a burrice é crime? Quem abusou da sua ingenuidade (ou da sua burrice, como insistem alguns) é que realmente deve se envergonhar, não você. As reflexões amargas sobre o que mudar cabem apenas a você – e certamente elas serão feitas. Aos outros caberia o acolhimento, não a acusação.

Portanto, não se envergonhe por ter se entregado. Não se envergonhe por ter acreditado. Não se envergonhe jamais por ter apostado tudo num amor, mesmo que ele só tenha existido dentro de você.

cbddac64-030d-4e7b-b8e9-734b423b1a56