Educação para a morte

Após enviar este e-mail a um amigo, recebi dele a seguinte resposta: “Compreendo que sua intenção é boa, Stella. Fiquemos por aqui quanto a esse assunto”. Creio que, embora se trate de um e-mail pessoal, não devo sonegá-lo de você, leitora. Aqui está seu conteúdo, na íntegra. Que ele te seja útil, no momento adequado.

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*****, querido, quanto à conversa que tivemos ontem, me permita dizer algumas palavras sobre a expressão que usei (“lamento que você não acredite na vida após a morte”). Tenho (mais do que o desejo) a obrigação de me explicar. No final, você entenderá minhas razões.

Eu sei que você lerá este e-mail como uma peça de ficção, mas não me importo com isso: apenas peço que leia até o fim. Considerando que em todos esses anos da nossa amizade eu nunca trouxe esse assunto à baila (e ontem ele surgiu naturalmente), creio ser um pedido razoável.

Eu trabalho como médium nas sessões de desobsessão do meu centro espírita há exatos 25 anos, duas vezes por semana (digo “meu centro” apenas por carinho, o correto seria “o centro que eu frequento”).

Muitos dos espíritos que usam as cordas vocais dos médiuns para se comunicar não acreditam na vida após a morte e estão há muito tempo perambulando entre nós, encarnados, julgando-se também vivos (embora estranhem o fato de ninguém os responder e tenham perdido há muito a noção do tempo).

Não é para menos: eles, que em vida não acreditavam em nada ou só acreditavam da boca pra fora, após uma doença, um acidente ou algo que tenha provocado a morte do seu corpo, continuam existindo, pensando, experimentando sensações “físicas” (fruto de ilusão) como fome, frio, sede, cansaço, dores (crendo-se ainda vivos, eles se prendem mentalmente às sensações da matéria e as recriam em seu corpo somático, chamado “perispírito”). Como diz muito bem o filme O Sexto Sentido: “Eles só veem o que querem ver”.

Espíritos amigos, bondosos ou familiares desencarnados, os conduzem a uma sessão espírita sem que eles percebam. Supondo comparecer a uma reunião qualquer cujo conteúdo não conseguem entender, eles começam a falar com o dirigente da sessão (alguém apto à conversa fraterna), crendo-se perfeitamente vivos.

Quando veem que falam através de um corpo que não é o seu, eles nos acusam de bruxaria ou prestidigitação, de termos dado alguma droga a eles, se julgam loucos, mas, devagar, começam a considerar a possibilidade daquelas informações sobre seu novo estado serem verdadeiras.

É nesse ponto que vemos, nas sessões, a cena (que seria risível se o nosso respeito não fosse total) de um espírito, através do médium, dizer: “Mas que besteira é essa de que eu morri?! Morreu, acabou! E eu estou vivo!”.  Como nós, eles veem o que querem ver.

Seus olhos só se abrem para a realidade de que apenas seu corpo de matéria densa morreu enquanto seu espírito continua vivo quando, ainda envolvidos pelos fluidos do médium que favorecem esse processo, eles conseguem ver algum amigo ou parente que desencarnou antes deles e que ali está para acolhê-los e apresentá-los à nova vida.

A surpresa é sempre grande e a vergonha também: nada mais natural – é muito difícil mudar de ideia sobre algo que guiou nossos passos por tantos anos. Provavelmente eles têm sido céticos por muitas vidas e sempre que mergulhados de novo na carne voltam ao apego material e à ideia arraigada de que nada existe além dos seus sentidos. A natureza não dá saltos. É compreensível que assim seja até que o espírito assimile profundamente o fato de que todos somos imortais e destinados à perfeição, na velocidade dos nossos esforços.

O que vale na vida após a morte não é a pessoa professar a religião A, B ou C (ou nenhuma), mas quanto bem ela fez, quanta caridade praticou, quanto se esforçou para se melhorar.

Nem todos os materialistas vivem esse processo após a morte: aqueles que foram pessoas caridosas têm muito mais mérito que os religiosos de carteirinha, pois praticaram a caridade sem esperar qualquer recompensa posterior. Pela vibração mais elevada que emitem, mais cedo conseguem ser levados às sessões espíritas (ou são esclarecidos por espíritos bondosos fora delas sem qualquer problema de incompatibilidade vibracional). Na verdade, quando um espírito se comunica numa sessão, muitos outros na mesma situação assistem à conversa e dela se beneficiam, sendo igualmente esclarecidos.

A ausência de uma educação para a morte, meu amigo, gera muita dor – e eu sou uma das incontáveis testemunhas dessa dor.

Talvez agora você suponha que o objetivo desse e-mail é te convencer, mas não é. Sei que você não irá mudar por enquanto. Como sei também que, um dia, você irá morrer e se lembrar dessas palavras onde estiver. Acredito que elas serão muito úteis no momento oportuno. E elas foram ditas porque eu me importo com você. Simples assim.

Sua amiga,

Stella