Depressão e as variações da Ilha de Caras

Veja o vídeo no meu Youtube.

jjj

Quantas pessoas você conhece que estão ou estiveram com depressão?  Veja que eu nem perguntei se você conhece alguém, eu já te pedi um número: quantas pessoas? Você provavelmente perdeu a conta. Eu já perdi.

Claro que sempre existiram estados depressivos na história da humanidade, mas é inegável, até mesmo para uma leiga completa como eu, que nós atravessamos uma epidemia mundial e inédita de depressão. E é com a liberdade de leiga, de escritora de literatura ficcional, nada mais, que eu ouso fazer algumas reflexões, naturalmente desqualificadas de qualquer cientificismo.

Ser feliz hoje se tornou uma obrigação social, uma urgência tácita te constrange a manter os dentes sempre à mostra. A virtude do sacrifício, por exemplo, passou a ser vista como absurda. E eu me pergunto: você pode ser um boa mãe ou um bom pai se não souber se sacrificar de bom grado? Sem abnegação você não dá conta sequer de uma noite de bronquite de uma criança.  E mais, sem sacrificar-se você nunca sentirá a doçura do abraço sadio dessa criança após uma noite em claro cuidando dela. A paz que se constrói com a abnegação pode ser chamada de uma felicidade segura, no entanto a que todos buscam hoje é a mais infantil e fugaz que existe.  É a felicidade do porre, do tiro, do auge, da adrenalina, das malas de dinheiro, da fumaça, do gozo branco, do gozo marrom, do gozo em pó, em cliques, em sorrisos falsos, como se criássemos em nossos perfis sociais infinitas variações da Ilha de Caras: fotos que enganam todas as pessoas, menos as que estavam lá.

88e57343-3cd1-4154-b7ff-7e848afbb003

A depressão, a meu ver, é uma reação (psíquica, espiritual, física) a algo que se tornou rotina: a fuga da realidade e o fingimento da felicidade. Ninguém acorda das próprias ilusões, das mentiras que conta aos outros, que conta a si mesmo, muitas vezes por décadas seguidas, sem susto, sem dor.

Deprimir-se, portanto, além de uma doença cujos efeitos precisam ser medicados, talvez seja também um amadurecimento intransferível, um contato com a realidade tão insistentemente evitado. A realidade é como uma bola inflável que mantemos no fundo de uma piscina. Ao menor deslize, à menor invigilância, ao menor cansaço dos nossos músculos, a bola vai escapar e vir à tona.

933f0e9a-67ce-463e-9596-3de8c0d7f124

Talvez essa epidemia da depressão seja sinal de que, a duras penas, os homens estão sendo forçados a ver a brutalidade das suas instituições, o egoísmo das suas fronteiras, a puerilidade das suas conquistas. Talvez cada pessoa deprimida esteja finalmente vendo o ridículo dos seus preconceitos, a solidão do seu orgulho, o vazio das suas más escolhas. Todos nós sabemos quais são os nossos pontos fracos e o tanto de energia que gastamos para fugir deles, para ocultá-los do mundo e de nós próprios.

É possível, é bastante possível, que a depressão nos forçando, como indivíduos e como civilização, a um encontro doloroso, porém libertador, com a verdade, carregue dentro de si mesma o início da nossa cura.