Estupro e abuso infantil: tenho um pedido a fazer

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Obs.: Veja no vídeo no meu canal do Youtube.

Quero te pedir uma coisa. É delicado, eu sei, mas eu preciso fazer isso, assim, olhando nos seus olhos. Mas antes vou te contar uma das mais emocionantes situações pelas quais passei como escritora.

Após o lançamento do romance “Eu me possuo”, que trata da superação de um estupro, eu recebi ainda mais e-mails do que de costume de leitoras confidenciando as violências pelas quais passaram. Triste dizer que isso é uma rotina para mim, eu sei, mas é a verdade. Dentre esses relatos, quero contar um em particular.

Uma moça, casada há alguns anos, me relatou os abusos sexuais que sofreu de um familiar por toda a infância. Inspirada pela carta que minha personagem, Karina, escreve ao seu estuprador, ela decidiu escrever uma carta também, não ao seu abusador, que já estava morto, mas ao seu marido, contando tudo pelo qual ela havia passado, tudo que ele não sabia e que acabava por desaguar na vida íntima de ambos. A carta foi escrita e entregue, no entanto seu marido permaneceu dias e dias sem falar com ela, sem sequer mencionar o conteúdo bombástico daquelas revelações. Por fim, quando minha leitora começava a cristalizar em si uma nova mágoa, o marido a procurou para conversar a respeito da carta. Ele então disse que ficou muito abalado e em silêncio todo aquele tempo não só pelo drama que ela atravessara, mas porque ele também havia sido abusado na infância.

Acredito que ambos iriam se conectar nesse nível mais profundo, sem segredos fundamentais, em algum momento de suas vidas. Talvez o gatilho dessa revelação dupla fosse um filme, a palavra de um amigo, uma palestra, uma canção, mas eu me sinto tão honrada de que tenha sido um livro meu!

É por isso que eu preciso te fazer esse pedido. Se você foi abusada na infância, se foi estuprada na vida adulta, se sofreu violência sexual e se essa violência deixou traumas, considere seriamente contar para o seu parceiro (ou parceira) o que aconteceu. Conte. Sonegar essa informação é manter um muro invisível entre vocês. Sonegar essa informação é causar a falsa ideia de que o problema é ele. Sonegar essa informação é deixá-lo sem elementos para te ajudar, para te acolher. Isso sem contar com a possibilidade concreta de que tal violência também tenha acontecido com ele e ele sinta a mesma dificuldade que você (ou ainda maior) para revelar isso.

Seja lá o que tenha acontecido, independente das circunstâncias, você não tem nada do que se envergonhar. Quem tem de se envergonhar é quem comete a violência, não quem a sofre.

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Se, por exemplo, uma mulher for até a casa de um homem que ela deseja ou se ela for a um motel com ele, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador. Desejar transar com uma pessoa não é o mesmo que desejar ser estuprada por ela. Outro exemplo mais radical: se uma mulher for sem calcinha a um baile funk, beber, se drogar e decidir fazer parte de uma orgia no final da noite, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador.  Não é o comportamento da vítima que gera o crime, mas sim a existência de um criminoso.

Há alguns anos eu entrevistei uma delegada de polícia. Ela disse que essa ideia de que roupas provocantes ou comportamento extrovertido são causas de estupro são estatisticamente falsas. Estupradores fogem de mulheres espalhafatosas porque eles acreditam que elas os podem subjugar e para se sentirem superiores eles escolhem justamente as recatadas que, na sua fantasia, não lhes podem oferecer resistência.

Há manuais aconselhando as mulheres a evitarem um estupro: não saiam sozinhas, não bebam, não usem roupas provocantes, não confiem em estranhos, como se estivéssemos submetidas a um eterno toque de recolher (e como se a maioria dos violadores não fosse próxima e conhecida). No entanto, a verdade é que só há uma regra para evitar esse tipo de violência: estupradores, não estuprem!

Por fim, repetirei a frase que uso em todas as minhas palestras e que, infelizmente, é a mais crua verdade e um símbolo de quão longe ainda estamos de exterminar esse câncer: se todas as vítimas de estupro fossem marcadas por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, não haveria mais noite no mundo.

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