Primeiro encontro

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“Todos os primeiros encontros são decepcionantes, todos!” Foi isso que ouvi uma amiga cuspir na minha orelha com toda fúria enquanto víamos uma exposição.

– Se você está numa vibe romântica – continuou ela, irritada –, o cara fica cortando sua onda. Se você quer transar com ele, ele fica apavorado para que você não se apaixone. Se você fica nervosa porque vai encontrá-lo, ele diz que isso é fruto de uma alta expectativa. Se você diz que não faz questão de jantar com vinho e velas, ele diz que você não está dando a atenção que ele merece. Não dá pra vencer esse jogo!

Enquanto ouvia os detalhes da sua mais recente aposta afetiva, fiquei pensando… Talvez o grande problema dos primeiros encontros esteja antes de sair de casa, nas conversas que foram travadas entre vocês, esteja na linha com que a mulher costurou esse encontro dentro da sua mente.

Mulheres (e homens) saem para um primeiro encontro pensando no que o outro pode lhes dar, nas suas necessidades, nos seus desejos, nas suas carências e frustrações. Desse modo elas exigem que o gajo em questão supra suas carências (de preferência todas) e sane suas frustrações (de preferência todas). E de preferência na primeira noite. Sei que, colocado desse modo, parece um desastre anunciado. E é! Não há possibilidade de que qualquer prazer, especialmente qualquer prazer duradouro, ecloda daí.

Um bom primeiro encontro deveria ser uma coroação do amor, mas eu não me refiro a esse amor romântico cheio de taxas sob a forma de elogios, promessas e lugares-comuns.

Uma mulher que sai para um primeiro encontro poderia ter não a preocupação do que aquele homem pode dar a ela, mas ao contrário, do que ela pode dar àquele homem. E, obviamente eu não me refiro a sexo, embora ele possa ocorrer.

Por que não ter como objetivo transformar algumas horas do dia desse homem numa experiência prazerosa? Por que não pensar que talvez haja um náufrago do outro lado da mesa e que esse náufrago queira apenas que alguém entenda isso? Talvez haja um sedento de inteligência, de gratuidade, de bobagens, de compreensão, de silêncio. Talvez haja um homem tão cansado de cumprir papéis quanto você e você vai sair para cobrar dele justamente mais um espetáculo nesse mesmo cansativo papel?

Em vez de querer amor, por que não sair para dar amor? Amizade é amor. Atenção é amor. Ficar em silêncio é amor. Dar as mãos sem a necessidade de nada mais é amor. Emprestar um livro ou um CD especial é amor. Se preocupar com o outro mais do que com você é amor.

Essa doação não significa se anular ou fingir ser alguém que você não é para agradar, até porque essa é a pior coisa que pode acontecer num primeiro ou num milésimo encontro. Quando você se ocupa em fazer bem ao outro, você forçosamente tem de ver quem ele é. Se você não vir, fará algo de bom de acordo com os seus critérios e não com os dele. Apenas saindo de si mesma você o enxergará – e essa posição é fundamental para que qualquer coisa verdadeira possa nascer. (Sabe quando você sofre a perda de alguém que você não conhecia muito bem?).

Você não tem nenhum controle sobre o que vai receber de alguém, mas tem controle absoluto sobre o que dá, então que tal fazer um uso generoso disso? Experimente pensar com carinho apenas no bem-estar do outro. Quem sabe esse outro não sai de casa com o mesmo intuito? Desse modo, talvez, apenas talvez, possa acontecer um bom primeiro encontro.

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