Preconceito contra gordos: não confunda desejo sexual com respeito

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Quando você anda pela praia, por uma feira de rua ou por um evento social, você está se impondo sexualmente a todas as pessoas que cruzam seu caminho? Essas pessoas, todas elas, são obrigadas a se deitar com você? Claro que não – elas não têm a obrigação de te desejar nem você de desejá-las. Parece uma ideia óbvia, mas não é.

 A atriz Mariana Xavier, amiga de todas as horas e uma das pessoas mais lúcidas que conheço, deu um depoimento ao programa Saia Justa no qual disse: “Existe uma diferença entre você não ter preconceito com uma coisa e você desejar essa coisa. Os nossos gostos pessoais, as nossas preferências, elas existem e não são um preconceito. Eu posso olhar para alguém, respeitar aquela pessoa, mas não me sentir atraída por ela e é isso que eu peço para as pessoas: não precisa me achar bonita, mas me respeite, me deixa botar meu biquíni”. Mari, sempre brilhante, se refere ao preconceito contra os gordos, embora a reflexão sirva para todo tipo de preconceito.

Vamos combinar que além da palavra “gordo” não ser um xingamento, esse conceito é altamente questionável. De acordo com o IMC – Índice de Massa Corporal (que considero servir muito bem às indústrias farmacêutica, fitness, da moda e do emagrecimento) eu, Stella, deveria pesar 15 quilos a menos para ser normal. Será? Preocupação com a saúde também não é desculpa para discriminar: gordura não é sinônimo de doença, a não ser que ultrapasse limites bem elásticos.

Achar alguém atraente é da esfera do desejo, compartilhar um espaço com o diferente é da esfera da racionalidade, da civilidade, da humanidade, do respeito. São expressões distintas. Você não precisa desejar para respeitar. A pessoa não está lá para que você a ache bonita ou atraente. Você pode continuar não achando aquela pessoa atraente e respeitá-la. É claro que racionalmente você sabe que uma pessoa na praia não está se oferecendo para você, mas emocionalmente você age como se ela estivesse e assim a agride, a ofende, a rechaça. Isso é agir como se você fosse o centro do universo, como se você fosse a medida de tudo o que existe. Sabe quando a gente passa por um grupo de adolescentes e acha que eles estão rindo da nós? Isso é ser egocêntrico, é achar que tudo se refere a você: na verdade em 99% das vezes os adolescentes nem nos viram, eles estão rindo de outra coisa. É preciso crescer! Então vamos começar por aí: a pessoa gorda no seu biquíni ou negra com suas tranças ou down com seus olhinhos puxados não está se impondo a você, você não é obrigado a achá-la atraente, mas precisa, sim, respeitar o direito dela de estar no mesmo ambiente que você.

No livro “O mal-estar na civilização” Sigmund Freud diz que uma sociedade se estabelece escolhendo um grupo de excluídos sobre o qual jogará toda sua fúria. Podem ser os judeus, os negros, os gordos, os pobres, os homossexuais, os retirantes, os refugiados: tem sempre um grupo eleito para levar porrada. Excluindo o outro você procura saciar neuroticamente seu desejo se sentir especial, acolhido, pertencente a um grupo. Ser rejeitado é horrível, a gente se sente como uma lesma sob o sal, se encolhe, mas você reagir rejeitando o outro não vai te tornar amado. Quando um rejeita e o outro é rejeitado os dois perderam. Ao humilhar alguém você não vai se sentir superior, a sua fome de aceitação e amor vai continuar até que você entre em outra faixa que é a do respeito. Além de ser o certo a fazer, esse comportamento é inteligente, maduro e humano. Porque desejar é uma coisa e respeitar é outra.

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