A invisibilidade também te atinge

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Por dez anos eu trabalhei como secretária executiva, seguindo uma rotina comum a inúmeras brasileiras: acordar cedo, bater ponto, cumprir tarefas, almoçar num restaurante por quilo, tricotar um ou outro assunto com os colegas, cumprir mais tarefas, pegar ônibus, voltar para casa.

Durante esses dez anos por diversas vezes experimentei uma estranha sensação: a de ser invisível. Eu poderia estar triste, feliz ou mesmo doente, poderia conversar com samambaias ou me vestir como uma drag queen: ninguém notava, nem mesmo meus chefes. Afinal, eu era uma secretária – e secretárias são invisíveis.

Da mesma forma que copeiras são invisíveis (a não ser que derrubem uma xícara de café no patrão), office-boys são invisíveis (a não ser que deixem de entregar um documento), porteiros são invisíveis (a não ser que demorem dois segundos para abrir a porta), moças nos caixas dos supermercados são invisíveis (a não ser que digitem algo errado), frentistas são invisíveis (a não ser que se esqueçam de calibrar os pneus), mendigos são invisíveis (a não ser que peçam um trocado).

É comum que um veículo de comunicação ou uma ONG traga à baila a questão do que fazer para que a cidade em que vivemos se torne mais humana.  O ato de trocar ao menos duas palavras, se aproximar, mostrar ao outro que ele não é invisível já seria o suficiente para o clima de qualquer cidade – e o nosso clima vibracional – melhorar. O que nos impede, então, de cultivarmos esse hábito?

Medo. Medo de que os outros se aproximem e roubem nosso tempo, peçam nosso dinheiro, se insinuem dentro das nossas casas. Medo de que, abrindo uma brecha, o terrível outro possa desestruturar nossa vida aparentemente segura. Esse medo, tão arraigado quanto nefasto, faz com que nos esforcemos para agir como se os outros fossem invisíveis. O pior é que, aos poucos, não só os rostos dos estranhos como também das pessoas mais próximas começam a perder os contornos.

Esse exercício que especialmente as cidades grandes (mas não só elas) nos impõem não está mais restrito a estranhos. Você vê seus amigos? Você vê seu pai? Ele te vê? Sim, porque você também está perdendo os contornos. Seu namorado te vê? Aqueles que você diz serem seus melhores amigos, te veem? Eles te veem quando você não posta nada no Facebook? Eles sabem quem é você? Sabem o que você sente de verdade? Você sabe?

Em breve, corremos o risco de não vermos mais ninguém – e de ninguém nos ver mais. A invisibilidade é voraz, ela contamina, cega. E não respeita limites.