Onde você está em “Sobre ratos e homens”?

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Muito já se falou do romance “Ratos e homens”, o clássico de John Steinbeck transposto para teatro e cinema.  De fato, a peça encabeçada por George e Lennie se presta a muitas reflexões, mas eu quero focar os holofotes hoje sobre uma personagem lateral: Mae, a única mulher da trama, vivida lindamente por Nattália Rodrigues na excelente montagem do diretor Kiko Marques. (Todos os atores estão ótimos em cena, preciso, porém, reverenciar especialmente Luiz Serra, responsável por tornar real e tocante o velho Candy. Bravo!)

Nessa sociedade de homens brutos, subjugados por um trabalho próximo à escravidão, um mundo em que deficientes mentais, negros e velhos não têm sequer o direito de sonhar, as mulheres, simbolizadas por Mae, estão numa posição ainda mais inferior – e seus sonhos, portanto, tem ainda menos espaço, ou seja, nenhum.

Na comunidade de trabalhadores braçais, a jovem Mae, recém-casada com o filho do patrão, é imediatamente catalogada por todos os homens como vagabunda. Ela dormiu com alguém, além de seu marido? Não. Alguém a viu se embolar no feno com um dos empregados? Não. No entanto, os excluídos excluem e assim Mae recebe a pecha de sedutora, causa de encrencas, ordinária. O que gera essa fama? Sua solidão. Tudo que ela quer é ter companhia, conversar, dividir suas ilusões de fama em Hollywood, seus desejos de ir a bailes dançar. Mae quer falar sobre o rigor da mãe e sobre a perda do pai – um pedófilo que a sequestrou e que ela, romântica e ingênua, transformou a hedionda noite de árvores pretas num doce conto de fadas sobre o carinho de um pai pela filha. Não era carinho, Mae, era violência – mas era o que você tinha. Não é só você que distorce o passado e confunde violência com atenção.

Existem algumas personagens irmãs no teatro: Blanche Dubois (“Um bonde chamado desejo” de Tennessee Williams), Senhorita Julia (“Miss Julie” de August Strindberg) e Mae fazem parte do mesmo grupo. Mais do que o embate entre sonho e realidade que as fustiga, todas são violentamente punidas por se entregarem ao desejo ou apenas por parecer que se entregam.

Lá está Mae com seus cabelos sedosos. Ela decide fugir: fugir do marido ciumento, do sogro bravo, da ausência de amigas, de um ambiente que não a acolhe. Veja, você também está naquele palco: as mãos que estrangulam Mae também te matam. O autor do crime apenas materializa na personagem a condenação de todos os homens. Cada vez que alguém censura uma mulher que deseja, que se entrega ou que apenas sonha, cada vez que uma mulher é chamada de vaca, vadia, vagabunda, Mae morre novamente.  No teatro, ela morre todas as noites. E na vida real, muitas mais morrem com ela.

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