Carta a um sedutor em série.

Preciso te pedir uma coisa, Caio. Ontem eu voltei a casa em que cresci, toquei em seus muros e no portão de ferro na tentativa de acessar a menina alegre que um dia eu fui, muito antes de te conhecer. Não consegui. Foi então que me dei conta de que precisava te fazer esse pedido.

Talvez você não compreenda o alcance das suas palavras, então eu vou acender uma luz nessa sala e espero que você me acompanhe.

maxresde

Quando você diz para uma mulher “eu sou seu”, ela não entende que isso se refere apenas à cama e apenas àquele agora. Quando você diz “pega a minha mão, eu te passo segurança” ela acredita que está num terreno firme, não numa plataforma que irá se esvanecer subitamente debaixo dos seus pés. Quando você diz “esse gozo é nosso, é fruto do nosso encontro, da nossa relação” ela acredita que há, de fato, uma relação sendo construída. Quando você diz “eu te reconheço, tenho uma sensação muito forte de já ter te encontrado antes” ela se sensibiliza. Quando vocês planejam passar um fim de semana a dois, quando você insiste para que ela fique um dia a mais na sua casa, ela acredita que há alguma substância ali e que aquela fome ancestral de sexo vai ser gostosamente saciada. Quando você diz “eu não tenho pressa” ela acredita que o envolvimento continuará. Quando você usou todas essas palavras comigo, Caio, eu acreditei! Porque a palavra azul cria uma imagem azul na mente. A palavra árvore cria a imagem de uma árvore. Suas palavras constroem uma ficção perigosa, Caio.

Quando você escolher a próxima mulher (pode ser que você já tenha escolhido e esteja agora vivendo essa nova escolha, mas o pedido vale do mesmo modo), eu te peço, ofereça apenas o que puder dar, não use as palavras para urdir uma falsa cama de alvenaria, que se mostrará subitamente ser de areia e névoa.

Talvez você tenha ficado surpreso quando eu cancelei a viagem e disse: “Ficamos por aqui. Adeus, Caio.” Bem, eu fiz apenas o que você pediu. Seus áudios dizendo que sou muito melhor do que você e que você é incapaz de se conectar emocionalmente a alguém, aquele vídeo que você me enviou da cena final de “Alfie, o Sedutor” (com a confissão “eu sou este cara aqui”), tudo em você gritava que eu não era bem-vinda. Aliás, me permita dizer: aquela cena romantiza o algoz, ela veste de dor e piedade algo que é um vício perverso (prazeroso, como todos os vícios). Eu sei ler entrelinhas, Caio – mas ali elas quase não existiam, você era pura negação. A minha frente, o deserto. Eu não tive nenhuma escolha a não ser ir embora.

maxresdefau

Sei que você está muito aliviado por ter fechado a porta para mim. Você está se sentindo culpado pela situação insólita, pela molecagem, mas está aliviado. Eu não estou. Eu sou angústia e rigidez. E sobre essa angústia e rigidez devo me edificar para seguir em frente de algum modo. Também sei que essa base crestada não me permitirá voar mais. Você assistiu à versão de Malévola protagonizada pela Angelina Jolie? O homem amado a engana e corta suas asas. Ela acorda assim, com os cotocos sangrentos do que haviam sido suas imensas asas e o coração em farrapos. Eu sou ela. Muitas vezes já cortaram minhas asas e, com esforço, eu as fiz crescer de novo para outros voos, mesmo que modestos. Agora não mais: viver no chão já será trabalhoso o bastante.

Eu sou um país novamente bombardeado e seu nome, Caio, está inscrito nos escombros. Apenas te peço que não faça o que fez comigo com outra mulher, nunca mais. Se você conseguir fazer isso, eu vou olhar pro céu e pensar naquela menina tão alegre que eu fui, vou pensar que ela não vai mais voar, é verdade, mas que outras estão voando com suas imensas asas porque ela se levantou e disse o que precisava ser dito. Mesmo ferida, ela se humilhou para pedir pela vida delas, pela liberdade delas, pela esperança delas, pela alegria delas, pelo voo delas. Caio, meu ingrato amor, eu te peço: não ceife mais asas.

 

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