Quero ter o direito de ser educada.

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Crises de fúria me fazem muito mal. O desequilíbrio que experimento é tão grande que preciso de horas, às vezes dias, para voltar ao normal. Isso sem contar o arrependimento: dentro de mim, nunca vale a pena. Mas fora… infelizmente resolve. E friso: infelizmente.

Por que a gente não consegue resolver nada sem fúria neste país? Nada é exagero meu, refaço a pergunta: por que tantas coisas só se resolvem sob pressão?  Experimente ser calma, educada e me diga se você consegue solucionar qualquer mínima querela.

Quando mudei de endereço, gastei uma semana pedindo educadamente que minha internet rápida fosse transferida. Nenhum resultado. Então, passei duas horas berrando no atendimento ao cliente e impedindo que desligassem sem me dar uma resposta. Milagre: minha conexão foi restaurada no mesmo dia.

Há três anos eu emprestei a um amigo uma boa quantia em dinheiro. No primeiro ano, eu não o cobrei: sabia que ele estava em apuros. Nos dois anos seguintes, porém, eu pedi, com educação, que ele me pagasse. Adiantou? Não. Quando mandei a amizade para as cucuias, quando fui indelicada e grosseira (até porque ele não era um bom amigo em outros quesitos), pronto, em uma semana a grana estava na minha conta.

Repito a pergunta: por que tantas coisas só se resolvem sob pressão? Nós estamos sendo obrigados a nos irritar. Sim, pois se educadamente não conseguimos nenhum resultado e tocando o terror as coisas acontecem, estamos sendo constrangidos à violência e a todos os desarranjos físicos e mentais que ela acarreta. E olha que eu nem estou considerando aqui a realidade das vibrações pestilentas que se espalham a partir de uma cena de desequilíbrio, mesmo que você não esteja diretamente envolvido. Se você já presenciou, por exemplo, um levante de clientes insatisfeitos numa longa fila de supermercado ou um passageiro reclamando em altos brados no guichê de uma companhia aérea por ela ter vendido seu lugar a outra pessoa também, sabe do que eu estou falando. O clima pesa para todo mundo.

Eu tenho um sonho. Um bem simples. Quero ver problemas solucionados usando-se apenas a expressão “por favor”. Quero ter o direito de ser educada.