O que o fim do Programa do Jô revela sobre a TV brasileira hoje?

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Foi-se a inteligência aliada à elegância.

Pronto, eu não precisaria dizer mais nada a respeito do fim do Programa do Jô, mas digo.

Nunca escondi o quanto sou fã de Jô Soares, desde os programas de humor na minha infância, passando pelos shows ao vivo que tantas vezes assisti, pelos livros e, é claro, pela ousadia profissional de comandar um talk show (dividido entre as fases do SBT e a do retorno à Globo). Jô, querido, depois de tantas noites indo dormir com você, escrevo esse texto numa madrugada murcha sem sua presença em minha sala. Mas é preciso aprender algo com a dor: o que o fim do Programa do Jô nos revela sobre a televisão brasileira hoje?

Há pouco mais de uma década uma perigosa fissura se abriu na nossa TV, uma TV que já não primava exatamente pela excelência, sabemos disso.

Essa fissura foi se intensificando com o triste sucesso do programa Pânico: entrevistados não eram mais vistos como donos de um trabalho que merecia divulgação, mas rostos e corpos a serem ridicularizados, trollados, humilhados.

Infelizmente aquela mistura de humor de baixíssima qualidade com a ridicularização de tudo e todos não permaneceria muito tempo isolada num só programa: ela se alastrou como uma peste, a começar pelo CQC que, em certa medida, também reproduziu esse esqueleto sob uma capa cool.

Hoje, todos os talk shows da TV aberta, como os de Danilo Gentili e Fábio Porchat (tão bom no Porta dos Fundos, tão oco na Record) se especializaram não em conteúdo, não em boas entrevistas, não em ressaltar o extraordinário em homens comuns (como Jô fez tantas vezes, especialmente na fase do SBT), não em ouvir profissionais de todas as áreas exporem seu trabalho, nada disso, a nova ordem passou a ser a humilhação alheia e, em consequência, a suposta valorização do dono do programa como um ditador irresistível.

É lamentável que eles não tenham aprendido com o Jô. Quando ele percebia que você podia brilhar, ele permitia que você brilhasse, acendia a luz para você no palco, levantava a bola perfeita para que você a cortasse. Até mesmo suas intervenções (a frase “não querendo interromper e já interrompendo” se tornou um bordão), até mesmo o humor (leve ou acentuado, dependendo da entrevista), eram maneiras de subir o nível, de criar contrapontos, de expor a excelência do convidado ou sua miséria. Por isso as pessoas tinham medo de ir ao Programa do Jô: ali, diante de um homem com estofo intelectual, seu talento iria se revelar tanto quanto sua mediocridade. Foram 14.426 entrevistas, duas das quais, muitíssimo me honra dizer, comigo – por isso afirmo: Jô tinha prazer em ver um convidado brilhar.

Jô, tão pródigo em se reinventar, certamente seguirá produzindo, dirigindo, escrevendo, criando. Mas não está mais aqui, na minha sala, às duas da manhã – e eu sinto uma saudade abissal me apertar o peito. Um pedaço de mim morreu na noite de 16/12/2016, assim como a inteligência aliada à elegância na TV aberta.

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