O que é a cultura do estupro?

Você está confusa quanto à expressão “cultura do estupro”? Vamos resolver isso já!

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A palavra cultura vem do latim e significa “cultivar”. Uma cultura do estupro, portanto, significa o cultivo de ideias, palavras e atitudes que mantém esse tipo de violência.

É claro que a maioria do povo brasileiro repudia o estupro, no entanto, sem perceber, cultiva no seu dia-a-dia valores e práticas que o mantém: isso é cultura do estupro, filha do machismo.

Uma dúvida, porém, surge: como pode o machismo ser o pai da cultura do estupro se uma parte das vítimas é feita de meninos e homens? A resposta é simples e triste: seja quem for o agressor, ele submete a vítima, a viola, a invade, a expõe, a humilha, colocando-a, de acordo com os valores machistas, na posição de mulher (ou, como se diz vulgarmente, “mulherzinha”).

É importante lembrar que estupro não é sexo (para isso deve haver consenso). Estupro é violência, é o domínio de um ser sobre outro – e esse outro pode ser um menino de 7 anos, uma mulher de 49, um rapaz de 18, uma moça trans de 25, uma adolescente de 16, pode ser alguém de qualquer idade, gênero, orientação sexual ou classe social.

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Há muitos anos eu recebo desabafos de incontáveis leitoras e alguns leitores quanto aos seus dramas secretos. Após o lançamento de “Eu me possuo” (Panda Books, 2016), um romance sobre superação de um estupro e empoderamento da mulher, esses relatos se multiplicaram em volume e intensidade. Posso dizer, sem medo de errar, que se todas as vítimas de estupro fossem marcadas por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, não haveria mais noite no mundo. Eu exagero? Pareço falar de uma epidemia?  Não há exagero algum. Já estamos vivendo uma epidemia – e uma das mais violentas porque coberta pelo medo e silêncio.

De acordo com Anuário Brasileiro de Segurança Pública, atualizado em outubro de 2015, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil (apenas 1% desse total resulta em condenação do agressor). Já de acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os estupros que chegam a ser denunciados representam apenas 10% do total.

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O silêncio da maioria das vítimas é a prova da existência de uma cultura do estupro. Sua mais forte característica é distorcer os fatos para colocar, sempre, a culpa na vítima.

Como então desmontar essa cultura? Punindo. Educando. Refletindo. Vigiando. Conversando com firmeza e serenidade – os melhores argumentos, se usados com fúria, acabam por provocar mais raiva. É preciso que nossos meninos sejam criados não só para respeitarem as meninas, conhecidas ou estranhas, mas também para as protegerem caso elas estejam numa situação vulnerável. É preciso que os homens se libertem do machismo, em primeiro lugar, em benefício da sua própria saúde física, emocional e psíquica (recomendo vivamente o documentário “The mask you live in” sobre o quanto o machismo oprime e maltrata meninos e homens). É preciso que as meninas tenham autoestima e credibilidade. Enquanto nosso “não” for ignorado e nosso “sim” for condenado, haverá muito trabalho a ser feito! O primeiro passo é esse: acordarmos.

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