Blackbird (de “O livro branco”)

Publicado em “O Livro Branco”, 2012, Editora Record (coletânea de textos inspirados nas canções dos Beatles), organizado por Henrique Rodrigues.

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Blackbird singing in the dead of night, take these sunken eyes and learn to see. All your life, you were only waiting for the moment to be free.

A pergunta que mais me fazem, tantos anos depois, continua sendo a mesma: o que eu senti quando arranquei meus olhos? Não apenas não me furto a respondê-la, como o faço com toda tranquilidade: não há medo na minha resposta, como não houve medo no meu ato.

Soube de teses que escreveram me associando à figura mítica de Édipo, como se a realidade ao meu redor fosse monstruosa demais para que eu continuasse a enxergá-la. Embora isso faça sentido, não foi algo tão racional e encaixado que me fez caminhar em silêncio até minha casa, pegar a pequena faca de cozinha sempre afiada, voltar até o monturo em que jogaram o corpo injustamente violado da minha filha e, com uma suavidade de anestesia, arrancar meus próprios olhos.

Não me preparei para praticar tal ato em público e ser, como de fato fui, filmada e fotografada em todos os ângulos possíveis, para horror da mídia internacional e dos órgãos de defesa dos direitos humanos, a fim de dar voz a minha tragédia. Não! Se ali, naquele momento, havia um tumulto com visibilidade global ou um isolamento de caverna funda, a mim, pouco importava. Eu apenas tinha de ver mais uma vez o corpo morto da minha filha e purgar em mim aquela dor imensa, caso contrário não conseguiria viver nem mais um instante.

O que senti, portanto, ao arrancar meus olhos foi um imenso alívio. Não houve dor. Nem mesmo quando, no hospital, descarnaram minhas órbitas para evitar infecções. Nada poderia doer mais do que perder minha filha numa cerimônia injusta e desumana como é o estupro coletivo. Minha pequena menina morreu durante a barbárie, mas das meninas que sobreviveram, das meninas que ainda sobrevivem, a maioria acaba por se suicidar: a vergonha é sua sentença de morte.

Mas por que vergonha? Vergonha de ser uma vítima absoluta? Um cordeiro imolado a nenhum Deus? Vergonha por ser tratada indignamente como um objeto de posse, de honra ou de vingança? Esse foi o grito cego que atravessou o mundo e me trouxe até aqui, nesta noite, para receber este prêmio: a vergonha, meus amigos, quem deve sentir são esses homens bárbaros, são os mantenedores desses costumes bárbaros, são os que se calam diante desses costumes bárbaros, são os coniventes com esses costumes bárbaros, estejam eles no Paquistão, na Inglaterra, no Marrocos, na Holanda, na China, no Quênia ou aqui na Suécia.

No ano em que minha filha morreu, outras 792 moças inocentes foram sentenciadas ao estupro coletivo no meu país por disputas materiais ou morais entre seus maridos, pais, irmãos, primos, tios e até vizinhos. A coisa se dá de forma muito simples: um homem se incomoda com uma cabra que invade seu quintal ou com um menino de casta inferior que olha de soslaio para sua filha. A briga degenera em questão de honra. A questão de honra é levada à jirga, sistema tribal de justiça com suas próprias regras, incompatível com a com a lei comum (cara e acessível a poucos) e com a religião (que muitas vezes se submete à força dos chefes tribais). Desse modo, por causa da cabra vadia ou do menino sutilmente curioso, uma mulher da família ofensora deve pagar. Seu nariz será arrancado ou ácido será jogado sobre seu corpo virgem ou alguns dedos serão extirpados de suas mãos diligentes ou ainda (eis a punição preferida) a mulher indicada para o sacrifício será submetida a um estupro coletivo, num local escuro para que a vítima não identifique jamais seus algozes, sendo, depois do ato, seu corpo brutalizado e seminu exposto, vivo ou morto, em frente à turba delirante. As mulheres que suportaram tal vergonha, que escaparam do suicídio e procuraram a justiça legal, foram assassinadas por sua ousadia.

Eu não tenho medo e meu cajado não me consola. A única coisa que me faz seguir de tribo em tribo, vila em vila, cidade em cidade, país em país, a expor tão sórdidas misérias é gritar por quem não tem voz. Se hoje os estupros coletivos no meu país caíram de 804 por ano para ainda indecentes 272, número que me causa vergonha e repulsa, se há um decréscimo dessa barbárie em todo o mundo, se isso pode ser comemorado, estou certa de que vocês compreenderão o porquê de minhas mãos não levantarem a taça do brinde. Não esta noite. Não ainda. Embora caminhemos para isso, ainda não estamos livres, não somos senhoras e autoras do nosso destino, nem mesmo das nossas desgraças.

Quando meus olhos naufragaram na minha dor, quando arrancá-los se tornou um ato político, eu aprendi a ver muito mais longe. E enquanto houver um grito, um único grito abafado que seja na noite paquistanesa, eu vou continuar cumprindo meu voo cego de clarividente, vou continuar cantando através da escuridão, dessa escuridão que é toda, toda nossa.

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Lançamento de “O Livro Branco”, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, 2012: Simone Campos, Zeca Camargo, Henrique Rodrigues, André de Leones, Stella Florence e Felipe Pena.

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