Não suportamos ser plateia.

Você descobre que seu artista preferido fará um show na sua cidade, corre para comprar o ingresso e, toda feliz, acessa a playlist com as canções que você adora a fim de antegozar o prazer que terá ao vivo e em cores. A experiência só pode ser incrível, certo? Hum… não exatamente.

Ao sair de casa para assistir a qualquer espetáculo é preciso considerar que, no mínimo, metade do seu prazer não virá do artista, mas da plateia na qual você mergulhará. Sua sorte estará nas mãos de estranhos que podem transformar sua noite no que eles bem entenderem.

incabeca

Há alguns meses assisti ao show de Caetano Veloso e Gilberto Gil na turnê “Dois amigos, um século de música”. Prazer superlativo? No palco, sim. Do palco, também. Mas na plateia…  Ao observar o comportamento patético dos seres ao meu redor, percebi algo muito triste: não suportamos mais ser plateia, queremos o tempo todo ser protagonistas.

Eu me explico. Preciso, porém, voltar um passo.

Todos os vacilos de todas as plateias cabem nas palavras inadequação e egoísmo. Uma micareta pede um código de comportamento, já um sofisticadíssimo show de voz e violão, como aquele, pede outro. Parece óbvio – e é, mas a multidão não compreende o óbvio. A velha máxima de que o seu direito termina onde começa o do outro também costuma ser ignorada.

O que tivemos durante o show? Barulho. Atrasos. Mudanças de lugar. Conversas altas. Pessoas arrotando suas vozes desafinadas em orelhas alheias a todo volume, competindo – e muitas vezes ganhando em volume – com o som que vinha do palco (isso nos momentos em que os artistas não haviam pedido a participação do público e o show exigia ainda mais silêncio). Sujeira: pipocas, latas, papéis de doces, chicletes, farelos de pão, restos de frios, garrafas, copos, taças, baldes de gelo derretido. Parecia que uma turba de bárbaros viera das cavernas para aquele espaço, usando como escritura de posse a frase porca “eu estou pagando!”.

Foi então que chegamos ao auge: quatro mulheres a minha frente resolveram tirar uma selfie, com flash, e postar imediatamente no Instagram e no Facebook. Detalhe: o show não havia acabado! E, embora num grande teatro, estávamos num show intimista! Elas tiraram a selfie, repito, com flash, durante o show, fazendo com que Gil e Caetano se tornassem a plateia delas, plateia dos seus sorrisos postiços, da sua ridícula felicidade alcoólica que se esgotaria quatro segundos e meio depois que a foto fosse postada.

Em cada tela acesa, twitando, gravando, publicando, curtindo, lançando emojis ao mundo, havia uma não plateia, uma não sintonia com os artistas. O propósito não era registrar a coisa, mas se registrar na coisa. Empunhando celulares, havia egos inchados a ponto de não suportar o desfrute do talento alheio por sequer meia hora. Todos, para escapar de sua miséria íntima, precisavam ser protagonistas. Gil e Caetano foram apenas sua plateia.

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