Gota D’água [a seco]: a mulher que precisa morrer em nós.

 

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O peso da história não falta à “Gota D’Água [a seco]”, mas não é sobre isso nem sobre metáforas sociais nem sobre a precisão das músicas de Chico Buarque inseridas na peça que vou falar aqui. Por eu ser apenas uma espectadora do teatro brasileiro posso rasgar meu peito sem totem de ambição para falar do cerne da peça: o amor perdido, a ilusão romântica, a energia que concentramos nos nossos homens e que termina por nos destruir.

Para que você saiba a que me refiro quando falo de história, aqui vai uma breve explicação: em 400 A.C., Eurípedes escreveu “Medeia” (minha tragédia grega favorita, na qual Medeia, abandonada por Jasão, que a troca por uma mulher mais nova e nobre, se enche de fúria vingativa e mata os dois filhos do casal, não permitindo que ele sepulte seus pequenos corpos); na década de 70, Oduvaldo Vianna Filho transportou esse clássico para os nossos dias encenando-o num programa da Rede Globo; em seguida, Chico Buarque e Paulo Pontes transformaram o programa em musical no teatro, em que Medeia/Joana  foi vivida pela soberba Bibi Ferreira. E agora…

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Agora o diretor Rafael Gomes, que, para nossa sorte, não tem medo de recriar clássicos (leia “Um bonde chamado desejo”), seca a peça restringindo-a (para ampliá-la) aos dois personagens centrais. Mas a secura do título me lembra mesmo as babas de amor que não existem mais entre Joana e Jasão: não há mais suor, saliva, umidades femininas, sêmen. Amor vivo é molhado, amor findo é seco.

Joana, como incontáveis mulheres, fez de Jasão sua obra-prima, se doou inteira, jogou toda sua energia em construí-lo forte (para bem poder amá-lo). Nem mesmo os filhos alteram esse foco: o homem amado é o esteio da sua vida, sua razão de ser. Sua força é concentrada no lugar errado: no outro. Faz todo sentido que Joana mate não só os filhos, mas, ao contrário da tragédia grega, mate também a si mesma no final: ao simbolizar a mulher que anula suas potencialidades imensas concentrando-as todas no homem, fazendo dele seu único ideal, ela precisava morrer. De fato, esse modelo de mulher precisa morrer em nós.

Assistindo à Joana no palco (interpretada pela estupenda Laila Garin), eu chorei pensando em todas as vezes em que nos damos amplamente aos nossos homens sem perceber que quando fazemos isso estamos matando, além de nós mesmas, também o amor que tanto prezamos. Num determinado momento, Jasão (o ótimo Alejandro Claveaux) diz que abandonou a esposa e mãe dos seus filhos não pelo dinheiro da nova companheira, mas porque Joana era intensa demais e ele queria sossego (na convivência do dia a dia, ele queria uma mulher submissa e opaca). Joana é intensa porque se concentrou toda no amor, se doou toda para Jasão, e isso, invariavelmente, sufoca o outro. Sempre.

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Há tantas cenas tocantes (como o monólogo de Jasão sobre as cadeiras fazerem os homens, a maldição de Joana tecida na macumba, o rolo de amarguras quanto à maternidade e o futuro dos filhos, os encontros do casal sempre recheados de verdade, fúria e desejo, as canções brilhantemente inseridas, como “Mulheres de Atenas” no final – palmas para a direção musical de Pedro Luís), há tantas soluções incríveis (como o cenário metálico móvel, a ampulheta gigante feita com um garrafão de água e areia, os muitos e simbólicos panos que vem e vão no figurino de Joana), há tanto amor ali, tanto talento e entrega que não ir ao teatro ver “Gota D’água [a seco]” (desde que você possa fazer isso) é optar pela cegueira.

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Uma frase me chamou especialmente a atenção (várias chamaram, mas minha memória coxa só conseguiu gravar uma): “A mulher é uma espécie de poltrona que se molda à vontade alheia”. Por isso é preciso matar Joana em nós. É urgente que a matemos. Temos de ser árvores: ampliar as raízes e sugar vitalidade de muitas fontes, espargindo pureza ao mundo inteiro, não a um único par de narinas que não quer e não precisa de tanto oxigênio.