Todas nós somos Blanche Dubois.

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Ontem encontrei dois gênios do nosso teatro: Rafael Gomes e André Cortez, respectivamente diretor e cenógrafo da peça “Um bonde chamado desejo” (uma paixão minha que eles materializaram de modo espetacular). Aproveito para postar o texto que escrevi há alguns meses sobre essa obra-prima. (Abaixo: Rafael Gomes, eu, André Cortez e Danielle Crepaldi Carvalho.)

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Acabo de comprar ingressos para ver de novo a peça “Um Bonde Chamado Desejo”, com Maria Luísa Mendonça dando vida brilhantemente a uma das mais importantes personagens do teatro, Blanche Dubois. A modéstia que vá para os diabos: eu conheço melhor do que a palma da minha mão essa peça, eu a estudei, a reli uma centena de vezes, escrevi um romance inspirado nela (“32”), portanto acredite em mim quando digo que Tennessee Williams, o autor, falecido em 1983, cujo rosto colossal, estampado num pôster, domina minha sala, aplaudiria essa montagem de pé. De pé e urrando: “Bravo”!

Preciso apresentar Blanche Dubois a você. Porque eu sou Blanche, você é Blanche, todas nós somos, em alguma medida, essa mulher que sempre dependeu da bondade de estranhos, que mergulha no desejo como oposição à morte, essa mulher que foge da luz da realidade tanto quanto da luz física que expõe em seu rosto a desesperadora passagem do tempo, que é julgada violentamente pela quantidade de homens que passaram por sua cama, que toma banhos como Lady Macbeth lava as mãos, essa mulher que inventa seus amores, que os veste de encantos e qualidades que eles jamais tiveram, que se dedica tão freneticamente a tal invenção que está à beira de um colapso absoluto.

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Blanche é mais do que uma boa personagem: ela é um riquíssimo arquétipo feminino. Eu chegaria mesmo a dizer que Blanche e sua irmã Stella (personagem vivido de forma impecável e emocionante por Virgínia Buckowski, comigo na foto abaixo) abarcam todos os aspectos do feminino romântico. Porque, enquanto Blanche escolhe a fantasia, Stella, ao contrário, cavalga e domina o real. Ela abandona a decadente propriedade de sua família, deixa Blanche cuidando dos parentes doentes, se casa com o cafuçu-tesão Stanley Kowalski e vai morar com ele num cortiço. Stella está perfeitamente adaptada a uma vida sem luxos, mas repleta de desejo, quando Blanche chega de mala e cuia, depois de ser expulsa da cidade em que vivia, graças a sua derrocada financeira, moral e psíquica. Stella, Stanley e Blanche passam assim a dividir um pedaço de cortiço: intimidade demais, privacidade nenhuma.

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Blanche, professora desempregada de literatura, romântica num nível além do prejudicial, de uma beleza agora madura que a desespera, nervosa, instável, senhora de frases absolutas, cuja vida se baseia em ver as coisas como elas deveriam ser e não como são: seu último recurso é viver com a irmã e o cunhado. Stella, grávida, apaixonada por seu marido cafuçu-tesão cujos limites ela conhece e aceita, tão presa à culpa por ter abandonado Blanche que a trata como uma criança mimada: entre dois amores tão distintos, a irmã e o marido, ela se divide como pode. Stanley, bruto, machão, provedor, orgulhoso, cheio de sexualidade viril, igualmente apaixonado pela esposa Stella, furioso com a cunhada Blanche, que o lembra minuto a minuto tudo o que ele não é, tudo o que ele não tem e, principalmente, tudo o que ele jamais será. O pavio está aceso e a gasolina é abundante.

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Palmas para o diretor Rafael Gomes (abaixo) não o conheço e já o amo. As pequenas adaptações na peça acrescentaram um tempero moderno e vital ao texto perfeito. (Atenção: spoilers a seguir). Usar a luz como fio condutor da loucura de Blanche, cujo ápice está num holofote que estupra seu rosto em surto no final da peça; fazer com que ela rode num sentido, enquanto Stella e Stanley rodam em sentido contrário é de tirar o fôlego e o chapéu! O cenário ao mesmo tempo amplo e claustrofóbico criado por André Cortez, o lindo figurino de Fause Haten, a iluminação exata (mais uma personagem, na verdade) de Wagner Antônio, a trilha sonora lisérgica: tudo está na medida certa, a serviço dessa montagem extraordinária.

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Vamos a um ponto delicado da peça. Muitos sustentam que Blanche perde a razão já instável por causa do estupro cometido por Stanley. Mas ela rompe com a realidade de vez quando Mitch (o ótimo Donizeti Mazonas, abaixo em cena com Maria Luísa), um pretendente a marido, diz que não se casará com ela por ela não ser limpa o bastante para entrar na casa de sua mãe. Então Blanche começa a gritar “fogo, fogo!” e enlouquece de fato. Não é, portanto, Stanley quem retira sua última esperança de sanidade, é Mitch.

Com Mitch, ela alcança dois preciosos momentos de contato com a realidade, da qual ela sistematicamente fugia.

 

No primeiro desses momentos, após um passeio, Blanche conta a Mitch seu casamento com um jovem gay, o flagrante sexual, o suicídio dele, e, deixando de lado qualquer manipulação para seduzi-lo, ela desabafa que depois de perder o ex-marido, que era seu sol, nunca mais houve outra luz em sua vida que fosse mais forte que uma pobre luz de vela. Mitch então propõe que ambos unam suas solidões e fiquem juntos. Ele, um homem sem fêmea numa sociedade de machos, inseguro, um homem dominado pela mãe e em vias de perdê-la. Havia uma esperança de encontro real ali – sem qualquer desejo da parte de Blanche, mas com a paz das almas vencidas.

 

Se esse momento tivesse se repetido haveria a possibilidade de existir uma relação verdadeira entre Blanche e Mitch, seriam então dois náufragos que conscientemente se agarrariam um ao outro, reverenciando com serenidade esse modo de sobreviver. Stanley, porém, conta a Mitch tudo que descobre sobre o passado de Blanche e, por conta disso, ele termina com ela. O destino de Blanche estava traçado desde o início: desde o início de sua vida, em que a fantasia foi sua companheira.

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O segundo contato de Blanche com a realidade, através de outro encontro com Mitch, se dá quando ele não aparece em seu aniversário e, depois que a festa amarga termina, ele chega bêbado, exigindo vê-la sob a luz, exigindo aquilo que ele não teve todo o verão, querendo chegar às vias de fato. Blanche diz que, sim, teve muitas intimidades com estranhos depois do suicídio do marido. “Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro.” Depois, ela pede “case comigo, Mitch!”, mas ele retira sua última esperança de proteção, ele fecha o último abrigo na rocha do mundo no qual ela poderia se esconder dizendo “você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe”, e é aí, nesse exato ponto, que ela perde de vez o contato com o real. Quando Stanley chega da maternidade na qual deixou Stella internada à espera do bebê, encontra Blanche já em surto travestida como em um carnaval romântico.

 

Havia um pássaro caindo com ambas as asas quebradas: esta é a Blanche que o estilingue-estupro de Stanley atinge. Um pássaro já ferido de morte e em franca queda ao abismo.

Bem antes do final trágico, temos a icônica cena três, em que Stanley se embriaga e dá umas bordoadas em Stella, que foge para a casa da vizinha. Stanley então começa a urrar para que sua mulher volte. Os gritos de “Stella! Stella!” são dos mais célebres do cinema, já que “Um Bonde chamado desejo” também é filme, cuja melhor versão é com Marlon Brando e Vivien Leigh.

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Nesta montagem, tivemos dois atores na pele de Stanley. Primeiro, Eduardo Moscovis, que arrasou todos os cortiços com sua excelente interpretação. A ideia de fazer Stanley, após os clássicos berros, se jogar no chão chorando pela mulher em uivos bêbados e em posição fetal (Stella, a quem ele acaba de agredir, está grávida) é brilhante! Confesso que prefiro o Stanley de Du Moscovis até mesmo ao de Marlon Brando: eu vejo (algo absolutamente particular) o marido de Stella daquele modo bruto e assustador que Du tão bem encarnou; não existe ternura em Stanley, ela se confunde com a própria sensualidade. Nesta segunda fase, entra em cena Juliano Casarré, que se aproxima mais de um Stanley cínico, e inseriu uma cena impactante: após estuprar Blanche, Stanley sai do centro do palco rastejando como um animal. É de arrepiar! 

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Virgínia Buckowski tem a difícil tarefa – que consegue cumprir de forma espetacular – de se impor com delicadeza entre dois personagens estentóricos.

Eu deveria, por fim, falar da estupenda Blanche Dubois de Maria Luísa Mendonça, que deixa a todos estupefatos com tamanha entrega, mas sua performance deixou esta escritora sem palavras – uma escritora que é apaixonada por Blanche, mas se chama Stella.

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(Eu, Maria Luísa Mendonça e Danielle Crepaldi Carvalho.)

P.S.: Uma máquina só funciona em sua capacidade plena se todas as peças, das menores às maiores, estão azeitadas e em perfeita sintonia. Meu carinho e gratidão também para os atores Fabrício Licursi, Fernanda Castello Branco e Matheus Martins, para Morente Forte e todos os profissionais envolvidos.

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