Por que os livros de Chico Xavier são tão populares?

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Como escritora, tenho de reconhecer a qualidade dos livros psicografados por Chico Xavier: fato. A quantidade deles impressiona: são mais de 450 títulos, mais de 45 milhões de exemplares vendidos (para se ter uma ideia, isso é o dobro do que já vendeu Paulo Coelho), com a renda total dos direitos autorais doada à caridade.

A psicografia em si nunca foi motivo de espanto para mim, espírita que sou, além de filha e neta de espíritas – pasmem: houve um tempo em que ser espírita no Brasil era crime passível de prisão!

Por falar em atos violentos, descabidos e arbitrários, vale lembrar um dado curioso: a última ação perpetrada pela Inquisição Espanhola, então impossibilitada de queimar seres humanos, foi a queima de 300 livros espíritas (entre eles “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”) em praça pública. O auto de fé de Barcelona foi conduzido pelo Bispo Antonio Palau Y Termes, às dez e meia da manhã do dia 09 de outubro de 1861, sob os gritos populares de “Abaixo a Inquisição!”. Pasme: mesmo as obras tendo sido confiscadas e queimadas, Allan Kardec teve de pagar as taxas alfandegárias correspondentes. Conhecemos bem esses absurdos burocráticos, não é?

Voltando ao assunto, o que mais me intrigava, portanto, não era a existência da psicografia em si, mas por que Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier, 1910 –2002) se tornou uma unanimidade que ultrapassa credos e rótulos? Eu me perguntava: por que a obra de Chico é aceita por 100% dos centros e por uma massa de leitores de todos os credos que simpatiza com os temas espíritas? Por que ela é tão popular? Seria ela mais bem escrita? Maior? Melhor? Mais substanciosa? Mais variada? Mais rica? Mais fecunda em emoção e conteúdo? A resposta é sim, mas nada disso seria suficiente para torná-la aceita por todos.

Em certa época, algumas pessoas aconselharam Chico a suspender as atividades de assistência aos aflitos para se concentrar apenas na psicografia dos livros. Chico respondeu que se fosse forçado a escolher, ele preferiria ajudar o próximo e abandonar os livros, pois esse foi o exemplo que Jesus Cristo nos deixou. Chico era fiel ao modelo que escolheu seguir. E foi justamente por causa do seu exemplo de uma vida inteira de doação, de humildade, de abnegação, de desinteresse material, de, numa palavra, amor, que a sua obra se tornou inquestionável.

Portanto não teríamos uma obra intelectual tão grandiosa se não houvesse o coração de Chico a embasá-la. Ela teria se perdido na poeira do tempo ou não seria levada a sério como esses borbotões de títulos psicografados que soterram nossas livrarias (e que não chegam aos pés dos recebidos por Chico).  Rendo todas as graças à inteligência, mas reconheço que sem amor ela é casca oca destinada à deterioração. No fim das contas, o amor é o lastro de tudo.