Você não sabe amar.

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Hoje descobri que você não sabe amar. Só hoje, infelizmente. Nosso relacionamento se rompeu de modo confuso, sem exposição de motivos, coberto por brumas viscosas. E sem entender nada eu permaneci à beira do abismo esperando você voltar, como se espera uma pessoa desaparecida surgir viva do outro lado do tempo.

Ali, em pé, com frio, duvidei da própria sanidade: o homem por quem havia me apaixonado era o mesmo que mal respondia às minhas mensagens? Onde foi parar aquela pessoa que, diante da possibilidade de me perder, chorou copiosamente no meu ombro? Que lágrimas foram aquelas? Do que eram feitas? Ele estava fingindo ser alguém que não era? Vivi aquilo tudo sozinha?

O vento soprava gelado à beira do abismo e nem sinal de você. Então eu pedi, implorei, me humilhei em busca de uma razão para o fim. Por WhatsApp (mais fácil para ambos), você finalmente me respondeu: “Eu estava com vontade de sair com outras mulheres. Eu não gostava mais de você. Tenho dificuldade para terminar, por isso não disse nada”.

Nesse instante, do fundo do abismo brumoso é ejetado um cadáver em decomposição: finalmente eu te encontro. O homem amado que um dia desapareceu, que não deixou pistas, nenhum acidente ou pedido de resgate, apenas um fio de esperança de que estivesse vivo, agora é o cadáver insepulto bem no meio da minha sala, com todos os seus maus-cheiros e seu medonho sorriso descarnado.

Um enterro natural, dentro do prazo de validade, com respostas e clareza, teria sido tão diferente… Haveria um cadáver íntegro e despedidas gentis, ao contrário desse repugnante monturo que em nada se parece com o homem que eu amei.

Você não sabe? Há dois modos de terminar um romance: o bom e o ruim. O bom traz para o momento do término todo o carinho que houve entre o casal; há dor nesse instante, sim, mas há reconhecimento da importância daquela relação que agora termina, há humanidade! O modo ruim foi o que você escolheu: elimina a pessoa da sua vida como um participante de reality show, sem que ela saiba o que houve, cobrindo-a de indiferença e silêncio.

Por isso, o que mais dói foi eu ter tido de arrancar a fórceps a localização desse corpo putrefato. Mas é assim: a gente só conhece verdadeiramente uma pessoa quando se separa dela, é nesse momento que sua substância aparece. E agora eu sei quem você é.

Você é alguém que não sabe amar. Não se iluda: a mulher cujos quadris você aperta hoje, em breve, provocará em você a mesma indiferença, o mesmo nojo. Você vai dar voltas a vida inteira e chegar sempre ao mesmo ponto: o enfado. Não importa quão incrível seja a mulher que esteja com você, quão linda, inteligente e cheia de desejo: você simplesmente não sabe amar. E eu te enterro agora com dor, mas sem medo do futuro, porque não saber amar, meu caro, é uma maldição que eu não carrego.

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